O vendedor de palavras
Por Fábio Reynol
24 de janeiro de 2007
Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave
falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma
escritora lamentando que não se liam livros nesta
terra, por isso as palavras estavam em falta na
praça. O mal tinha até nome de batismo, como
qualquer doença grande, "indigência lexical".
Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em
ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa
e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre
os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra
de lingerie instalou a sua: uma mesa, o
dicionário e a cartolina na qual se lia:
"Histriônico- apenas R$ 0,50!".
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de
mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.
- O que o senhor está vendendo?
- Palavras, meu senhor. A promoção do dia é
histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.
- O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
- O senhor sabe o significado de histriônico?
- Não.
- Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as
pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.
- Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
- O senhor tem dicionário em casa?
- Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
- O senhor estava indo à biblioteca?
- Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
- Então veio ao lugar certo. O senhor está para
comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar
para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
- Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
- Se o senhor não comer a alface ela acaba
apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
- O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?
- O senhor conhece Nélida Piñon?
- Não.
- É uma escritora. Esta manhã, ela disse na
televisão que o País sofre com a falta de
palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
- E por que o senhor não vende livros?
- Justamente por isso. As pessoas não compram as
palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
- E o que as pessoas vão fazer com as palavras?
Palavras são palavras, não enchem barriga.
- A escritora também disse que cada palavra
corresponde a um pensamento. Se temos poucas
palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma
palavra por dia, trabalhando duzentos dias por
ano, serão duzentos novos pensamentos cem por
cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam
o meu produto. São como trombadinhas que saem
correndo com os relógios do meu colega aqui do
lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira
dobrando a esquina. Com aquela carinha de
dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por
aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um
sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas
nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que
ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar
lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que
para cada pessoa que se dispõe a comprar uma
palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu
provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
- O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
- Jactância.
- Pegar um livro velho...
- Alfarrábio.
- O senhor me interrompe!
- Profaço.
- Está me enrolando, não é?
- Tergiversando.
- Quanta lenga-lenga...
- Ambages.
- Ambages?
- Pode ser também evasivas.
- Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
- Pusilânime.
- O senhor é engraçadinho, não?
- Finalmente chegamos: histriônico!
- Adeus.
- Ei! Vai embora sem pagar?
- Tome seus cinqüenta centavos.
- São três reais e cinqüenta.
- Como é?
- Pelas minhas contas, são oito palavras novas
que eu acabei de entregar para o senhor. Só
histriônico estava na promoção, mas como o senhor
se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
- Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
- É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
- Tem troco para cinco?
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Pela transcrição.
Abçs.
g.
Guilherme R Basilio
http://www.transconsult.com.br
P
Meio ambiente: pense global, aja local.
Antes de imprimir, avalie a real necessidade.
Environment: think globally, act locallly.
Before printing, consider the actual need.