O Globo - 21/6/2003
MIRIAM Leit�o

Senhor juiz

 O Brasil est� vendo uma absurda distor��o do que os l�deres de um
poder devem fazer no exerc�cio de sua autoridade. Desde que assumiu a
presid�ncia do STF, o ministro Maur�cio Corr�a tem usado suas
declara��es na defesa dos interesses da sua corpora��o. Seu
comportamento � t�o esquisito quanto se, na Presid�ncia do pa�s, Lula
atuasse como presidente do sindicato dos metal�rgicos do ABC.
> >>O mesmo padr�o de comportamento tem sido seguido por outros
integrantes do Judici�rio. O presidente do Tribunal Superior do
Trabalho, Francisco Fausto, lamentou n�o poder "pintar a cara e sair
por a� pedindo que o governo caia ou gritar 'fora Lula'". O presidente
do STJ, Ministro Nilson Naves, disse que o governo estava jogando o
Judici�rio "na vala comum".
> >>O ex-presidente do STF, ministro Marco Aur�lio, disse que a
previd�ncia s� poderia ser alterada com revolu��o.
> >>Nunca se viu tantos l�deres de um poder usando t�o mal o poder que
lhes foi entregue pela sociedade. Eles est�o onde est�o para que
oJudici�rio funcione adequadamente, julgue e decida quest�es do
interesse do pa�s ou dos cidad�os. N�o foram escolhidos para presidir
uma esp�cie de sindicato supremo do Judici�rio. Pelo visto, � assim
que se sentem: "A magistratura pode ficar tranq�ila porque ela n�o
est� nem s� nem desamparada", pontifica o ministro Maur�cio Corr�a.
> >>O desprop�sito atingiu o absurdo nas declara��es de ju�zes
publicadas nos jornais de sexta-feira. Um chamou a reforma da
Previd�ncia de "canalhice", outro comparou Lula a Hitler. E v�rios
outros pelo pa�s afora em  insistentes declara��es dos �ltimos dias
fizeram a farsa de sempre: confundir a defesa dos seus interesses com
a defesa da democracia; de comparar tudo o que reduz vantagens
corporativas com atentados � liberdade.
> >>S�o muitos os n�meros e os fatos que mostram como o Judici�rio tem
tido privil�gios em rela��o a outros funcion�rios p�blicos e aos
brasileiros em geral. Na �rea dos n�meros: durante o governo Fernando
Henrique, a despesa anual de pessoal do Executivo, entre ativos e
inativos, dobrou;do Legislativo, tamb�m dobrou e, do Judici�rio, saiu
de R$ 2,6 bilh�es, em 95, para R$ 10,3 bilh�es no ano passado, ou seja
quadruplicou.
> >>Os ju�zes t�m sessenta dias de f�rias, sal�rio acima da m�dia do
funcionalismo, aposentadoria m�dia muito acima dos outros
funcion�rios, s�o inamov�veis, vital�cios, est�veis. A estrutura
salarial do Judici�rio tem in�meras distor��es, criadas exatamente por
julgamentos em causa pr�pria, que levam desembargadores a ganharem
mais do que o presidente do Supremo.
> >>Esse tipo de absurdo ser� corrigido pela Reforma da Previd�ncia.
H� outros erros que a reforma corrigir�. Tribunais superiores t�m uma
parte dos seus integrantes vindos da OAB. Normalmente profissionais
que contribu�ram para o INSS durante a maior parte de sua vida e que,
com alguns anos nos tribunais, aposentam-se com sal�rios integrais.
> >>Eles perder�o esse privil�gio na Reforma da Previd�ncia.
> >>A proposta do governo afeta tamb�m advogados que depois de anos do
exerc�cio da profiss�o no campo privado ingressam na magistratura e se
aposentam com o �ltimo sal�rio integral. S�o esses os mais irados com
as mudan�as propostas pelo governo. No comando da gritaria, o
presidente do STF, que, em quase todas as declara��es publicas que
fez, dedicou-se ao exerc�cio da defesa dos interesses corporativos
como se fosse a defesa institucional do poder que preside. Contrastado
com o fato de que ele pr�prio tem o privil�gio de somar seu sal�rio
com dupla aposentadoria, o presidente do Supremo Tribunal Federal
emitiu um douto ju�zo: "N�o
sou nenhuma m�e Joana para, tendo direito a algo, dizer que n�o
quero."
> >>Esta � a trag�dia do pa�s. Ju�zes que julgam em causa pr�pria,
presidente de tribunais com linguagem rastaq�era na defesa de direitos
impr�prios e ileg�timos, elite usando o poder que tem na estrutura do
estado para defender interesses pecuni�rios travestidos de
institucionais.
> >>Um dos pontos da reforma contra a qual mais se insurgem
determinados magistrados � o do fim da aposentadoria aos 48 anos para
a mulher e 53 anos para o homem. N�o tem cabimento ju�zes se
aposentarem nesta idade.
> >>Em algumas profiss�es, pode-se at� alegar que o tempo trabalha
contra e que a idade torna os profissionais inadaptados a determinados
rigores f�sicos do trabalho; mas n�o � o que acontece no exerc�cio de
julgar.
> >>O tempo, a experi�ncia e a maturidade, normalmente, aumentam o
discernimento dos que julgam. A idade lhes faz bem, senhores ju�zes!
> >>O Brasil est� num momento decisivo de sua vida. Tem a chance de
reordenar os gastos p�blicos para reduzir as desigualdades. Isso se
faz reduzindo privil�gios e ganhos dos que t�m mais, para aumentar os
gastos com quem recebe menos do Estado. O cortador de cana deve ser
sim a preocupa��o maior do presidente da Rep�blica e n�o um
desembargador que ganha mais do que o presidente do Supremo, ou um
advogado que entrou na magistratura para se aposentar com rendimento
maior, profissionais que t�m sessenta dias de f�rias, membros da elite
que se aposentam aos 53
anos.
> >>Todos se envergonham do fato de o Brasil aparecer freq�entemente
como vencedor no campeonato da desigualdade. Poucos se d�o conta de
que, para mudar isso, � preciso combater combates como o da reforma da
Previd�ncia.
> >>A desigualdade se perpetua no Brasil porque, nas escolhas do que
fazer com o dinheiro p�blico, os mais pobres s�o sempre esquecidos e
os privil�gios sempre mantidos.
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