Retirado do site: http://educaterra.terra.com.br/sualingua/06/06_trema.htm


O Uso do Trema

Tenho recebido muitas perguntas sobre o trema: (1) para que serve, (2) se
deve continuar a ser usado, (3) qual o trema que foi abolido, etc. Vou
procurar responder a todas elas de uma sentada só. 
1 - O trema continua a ser usado? 


A maneira "correta" de grafarmos as palavras foi estabelecida pelo Acordo
Ortográfico de 1943, sofrendo modificações mínimas em 1971. Depois desta
data, NENHUMA outra alteração foi introduzida em nossa ortografia. Nada mais
mudou. Nada. Houve discussões, houve reuniões, houve polêmica, houve acordos
não homologados - mas o sistema continua o mesmo, e nele o trema continua a
ser usado. 
2 - Qual é a lógica de seu emprego? 


Em geral, depois do "G" e do "Q", o "U" não é pronunciado quando tem o "I" e
o "E" à sua direita (QUIeto, QUEro, GUErra, GUIzo). Nesses casos, dizemos
que o "GU" e o "QU" são dígrafos (i.e., duas letras empregadas para
representar um som apenas). Existem vocábulos, no entanto, em que o "U" ,
nesta mesma posição, tem som próprio. Nesse caso, vai ser assinalado por um
trema (se for átono) ou por um acento (se for tônico). Em tese, o sistema é
simples e engenhoso: 

Cada vez que você tiver de escrever um "U" entre G-E, G-I, Q-E ou Q-I, vai
ter de optar entre três alternativas: 

(1) ele tem som e é tônico: acento (ú)

(2) ele tem som e é átono: trema (ü)

(3) ele não tem som*: fica sem marca (u) 

         *[é o mais freqüente]
 


Ele é tônico em argúi, averigúe, averigúem; é átono em cinqüenta, seqüestro,
agüentar; é mudo em questão, querido, quiabo. CUIDADO! Note que arguo,
averiguam, averiguo, etc. NÃO são marcados, porque a regra acima só se
aplica antes do "I" e do "E". 
3 - É "líquido" ou "líqüido" ? 


Há alguns vocábulos em que se percebe uma hesitação dos falantes quanto ao
valor do "U": uns o pronunciam, outros não. Um exemplo clássico é o vocábulo
líquido e sua família (liquidar, liquidação, liquidificador, liquidificar,
liquefeito). O fato de se ouvirem ambas as variantes (líquido ou líqüido,
liquidação ou liqüidação) revela que nossa língua ainda não se definiu por
uma das formas (aliás, como ocorre sempre que coexistam ativamente duas
variantes de um mesmo vocábulo). Ora, como a decisão de pronunciar (ou não)
este "U" vai ter reflexo no uso trema, insinou-se aqui um elemento
perturbador do sistema, que parecia tão claro: uns vão escrever líquido,
liquefeito, outros vão escrever líqüido, liqüefeito. Como a lista desses
vocábulos varia de autor para autor, está armado o circo. Além da família de
líquido, os que mais aparecem nessas relações são antiguidade, retorquir,
sanguíneo, sanguinário e séquito. 
4 - Por que tanto se fala que o trema foi abolido? 


Na tímida reforminha de 1971 (que eliminou os acentos circunflexos
diferenciais de gelo, coco, almoço, cera, etc.), foi realmente abolido um
trema, mas de uma espécie muito rara, que pouquíssimos brasileiros conheciam
e que menos ainda chegaram a usar: o trema para assinalar os hiatos átonos.
Este trema, que era facultativo, servia para marcar um hiato onde alguém
pudesse entender um ditongo: gaüchismo (para que se leia ga-u-chis-mo, não
gau-chis-mo), païsinho (de país; para que se leia pa-i-si-nho, não
pai-si-nho); paraïbano (para que se leia pa-ra-i-ba-no, não pa-rai-ba-no). 
5 - O trema tem alguma utilidade? 


Vários periódicos e publicações simplesmente deixaram de usar o trema. O
mesmo fez a maioria dos brasileiros; os portugueses, esses sempre resistiram
a seu emprego. Na verdade, ele não tem utilidade mesmo, como a maioria de
nossos acentos, já que se destina a um olho muito específico: o de alguém
que consegue ler o vocábulo, mas que precisa ser instruído quanto à forma de
pronunciá-lo. Pelo que consigo imaginar, isso só pode estar descrevendo um
estrangeiro alfabetizado que esteja tentando ler em Português. As crianças,
que sempre foram citadas nos preâmbulos das várias reformas ortográficas,
pouco são beneficiadas: ou já sabem o som da palavra, ou perguntam. Apesar
de politicamente correta, essa intenção didática (presente em todo nosso
sistema de acentuação) sempre foi equivocada. 
6 - Posso parar de usar o trema? 


Há quem precise manter-se dentro da grafia oficial (em concursos públicos,
em documentos oficiais, etc.); há quem, por razões de uniformidade, prefira
ater-se ao que a norma indica - esses todos vão continuar usando o trema.
Quem decidir abandoná-lo, deve avaliar bem a situação: em um texto mais
longo, meu leitor vai poder perceber que eu não estou usando o trema por uma
questão de princípio; no entanto, em um texto curto (cartas, e-mails,
memorandos) ou de leitura fugaz (como uma página da Internet), em que meu
leitor vai ter um contato brevíssimo com minha forma de escrever, eu vou é
terminar passando por ignorante.

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