Complexidade é coisa recente. Tão recente como o pensamento de Parmênides e
Heráclito ...

Jessé

2009/7/25 <[email protected]>

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> Message: 1
> Date: Fri, 24 Jul 2009 13:59:20 -0300
> From: Frank Thomas Sautter <[email protected]>
> Subject: [Logica-l] O deus dos lógicos
> To: [email protected]
> Message-ID:
>        <[email protected]>
> Content-Type: text/plain; charset="iso-8859-1"
>
> O Deus das principais religiões ocidentais é simples? Ele é uma pessoa:
> existe algo mais imprevisível do que o comportamento de uma pessoa? Mesmo
> que ele seja simples, esse não é um bom motivo para ser ateu. Pode ser,
> quando muito, um bom motivo para não ser judeu, cristão, muçulmano, etc.
>
> Quanto à "recente" descoberta da complexidade das coisas, é sério que as
> pessoas no passado não faziam idéia dessa complexidade? Isso está próximo
> de
> um esnobismo cronológico!
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> Message: 2
> Date: Fri, 24 Jul 2009 15:02:13 -0300
> From: "Alvaro Augusto (L)" <[email protected]>
> Subject: [Logica-l] RES:  O deus dos lógicos
> To: <[email protected]>
> Message-ID: <[email protected]>
> Content-Type: text/plain; charset="iso-8859-1"
>
> Esnobismo cronológico? Bem, veja que antes da invenção dos computadores não
> sabíamos quase nada sobre caos e complexidade. Da mesma forma, não sabíamos
> quase nada sobre o comportamento da matéria antes de 1900 e nem sabíamos
> que
> existia algo como o espaço-tempo.  Tudo que sabemos sobre genética, por
> exemplo, tem pouco mais de um século (os trabalhos de Mendel só se tornaram
> conhecidos a partir de 1890). O próprio conceito de “complexidade
> algorítmica” é coisa recentíssima, datando de 1965, e, mesmo se definirmos
> que a história dessa área começa com Laplace (1749-1827), isso ainda é
> bastante recente se comparado à história da humanidade.
>
>
>
> Quanto ao papel do deus judaico-cristão nisso tudo, não me parece que um
> ser
> que supostamente criou mais de cem bilhões de galáxias esteja muito
> preocupado com o destino particular de um povo, com leis de herança e
> propriedade ou com a perpetuação de uma determinada espécie. Na minha
> opinião, ele deveria ser um deus que trabalha muito mais no atacado do que
> no varejo. Mas essa, é claro, é apenas a minha opinião.
>
>
>
> [ ]s
>
>
>
> Alvaro Augusto
>
> [email protected]
>
>
>
> De: [email protected] [mailto:[email protected]]
> Em nome de Frank Thomas Sautter
> Enviada em: sexta-feira, 24 de julho de 2009 13:59
> Para: [email protected]
> Assunto: [Logica-l] O deus dos lógicos
>
>
>
> O Deus das principais religiões ocidentais é simples? Ele é uma pessoa:
> existe algo mais imprevisível do que o comportamento de uma pessoa? Mesmo
> que ele seja simples, esse não é um bom motivo para ser ateu. Pode ser,
> quando muito, um bom motivo para não ser judeu, cristão, muçulmano, etc.
>
> Quanto à "recente" descoberta da complexidade das coisas, é sério que as
> pessoas no passado não faziam idéia dessa complexidade? Isso está próximo
> de
> um esnobismo cronológico!
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> Message: 3
> Date: Fri, 24 Jul 2009 17:33:13 -0300
> From: Francisco Antonio Doria <[email protected]>
> Subject: Re: [Logica-l] O deus dos lógicos
> To: Frank Thomas Sautter <[email protected]>, [email protected]
> Message-ID:
>        <[email protected]>
> Content-Type: text/plain; charset="iso-8859-1"
>
> Sou ateu. E a complexidade do mundo como revelada (ou sugerida, ou
> indicada)
> pela física vai muito além da personalidade fascista e paranoica do Deus
> bíblico, que se modela sobre um tirano oriental hipostasiado. E não sou eu
> quem diz isso...
>
> (Sobre o ``esnobismo cronológico'': bela boutade, mas o que quer dizer?)
>
> 2009/7/24 Frank Thomas Sautter <[email protected]>
>
> > O Deus das principais religiões ocidentais é simples? Ele é uma pessoa:
> > existe algo mais imprevisível do que o comportamento de uma pessoa? Mesmo
> > que ele seja simples, esse não é um bom motivo para ser ateu. Pode ser,
> > quando muito, um bom motivo para não ser judeu, cristão, muçulmano, etc.
> >
> > Quanto à "recente" descoberta da complexidade das coisas, é sério que as
> > pessoas no passado não faziam idéia dessa complexidade? Isso está próximo
> de
> > um esnobismo cronológico!
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> Message: 4
> Date: Sat, 25 Jul 2009 09:47:58 -0300
> From: Frank Thomas Sautter <[email protected]>
> Subject: [Logica-l] deus e crenças
> To: [email protected]
> Message-ID:
>        <[email protected]>
> Content-Type: text/plain; charset="iso-8859-1"
>
> "Esnobismo cronológico" é invenção de um oxfordiano, professor de
> literatura
> inglesa medieval. Indica o erro daqueles que acreditam ser a capacidade
> cognitiva das pessoas do passado inferior à capacidade cognitiva das
> pessoas
> do presente, por serem pessoas do passado. Por exemplo, acreditar que o
> conhecimento científico-tecnológico faz alguma diferença na questão sobre a
> existência de deuses. Se Alvaro não consumou o ato, pelo menos flertou com
> ele, ou deu essa impressão. A falácia é menos óbvia do que parece ser. Acho
> difícil encontrar uma pessoa que não tenha incorrido nela, em um ou outro
> momento de sua vida. Eu, certamente, já fui vítima dela.
> Quanto ao deus tirano, insisto: você, Doria, ofereceu uma causa de sua
> crença - seu ódio - ou, mesmo, um bom motivo dessa sua crença. O ódio ao
> teor da crença do oponente é, a meu ver, um motivo melhor do que a
> simplicidade da crença do oponente; o ódio, por sinal, não é algo ruim em
> si
> mesmo (e olha que não sou eu quem o diz). Mas você não ofereceu uma razão.
> Se há um deus tirano, a fortiori há um deus.
>
> Se você afirmar que não há razão possível nesses assuntos, dou-me por
> satisfeito e concluo a discussão. O que mais posso fazer? Eu mesmo estou
> cansado do assunto, e somente me manifestei porque acreditei haver uma
> questão lógica em jogo. Pessoalmente acredito que, nesses assuntos, somente
> podemos agir como agem os juízes: primeiro estabelecem uma decisão, depois
> a
> justificam (alguém acredita que os juízes agem diferente?). A crença na
> (in)existência de Deus pode ser racionalizada (e, acredito, deve sê-lo; a
> racionalização também não é algo ruim em si mesmo), mas não é e não pode
> ser
> o resultado da racionalidade. Certamente Ricardo, como um bom hegeliano,
> discordará.
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> Message: 5
> Date: Sat, 25 Jul 2009 09:57:00 -0300
> From: Francisco Antonio Doria <[email protected]>
> Subject: [Logica-l] Convite e pedido de ajuda
> To: [email protected]
> Message-ID:
>        <[email protected]>
> Content-Type: text/plain; charset="iso-8859-1"
>
> Newton e eu, em 91, mostramos que uma porção de dispositivos analógicos
> idealizados decidiam sentenças indecidíveis da aritmética. Não era um
> resultado original: Scarpellini já o havia publicado em 1963, e Kreisel em
> 1975 (só soubemos de ambos depois de fazer nosso trabalho). Com isso,
> resolvemos olhar mais de perto a questão da insolubilidade do Problema da
> Parada (Halting Problem), e vimos que a coisa não era bem como se dizia.
>
> Estou tentando organizar um workshop a respeito na Coppe. Duas palestras:
> uma, que eu faço, e outra, um convidado. Tenho recursos para pagar a
> passagem (nacional) e estadia. Tentei na área de computação quântica - mas,
> surpreendentemente, os pesquisadores contactados sequer responderam a meu
> convite. Penso, agora, em redes neurais. Alguém gostaria de vir falar aqui
> no Rio, na Coppe, sobre redes neurais?
>
> Seria em começos de setembro.
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> Message: 6
> Date: Sat, 25 Jul 2009 10:22:50 -0300
> From: Francisco Antonio Doria <[email protected]>
> Subject: Re: [Logica-l] deus e crenças
> To: Frank Thomas Sautter <[email protected]>, [email protected]
> Message-ID:
>        <[email protected]>
> Content-Type: text/plain; charset="windows-1252"
>
> Deus se manifesta no mundo? De modo nenhum, se um dos atributos de Deus for
> a bondade. Deus é necessário para explicar o universo? Há muitas
> explicações
> que Dele prescidem, como p.e. supor que o universo vem de uma flutuação do
> vácuo ? e que as leis da física resultam de infinitudes inimagináveis de
> tentativas de fazê-lo. Dá para termos uma criação ex nihilo, sim.
>
> Se ninguém vê Deus, para que precisamos de tal hipótese? O Deus do Velho
> Testamento é, sim, um Deus tirano, cruel, malvado. Foi modelado em cima de
> autocratas asiáticos, óbvio.
>
> ------------------------------
>
> Morreu recentemente, há um mês, um amigo de longa data, frei Hermógenes
> Harada. Uma vez, entrando na cela dele, me falou, senhor Doria, o Credo
> principia, Creio em Deus Pai Todo Poderoso. No entanto, é melhor chamá-lo
> Fraqueza, porque só quando estamos fracos é que Dele nos aproximamos.
>
> O Harada tentou certa vez me mostrar por que motivo o Urgrund tem que ser o
> Vazio. (Não sei se bem o percebi.) Me disse: na religiões orientais, é a
> Clara Luz do Vazio. O Nada radical.
>
> E' imagem consistente com o que vejo na física. No mais, aceito que vim do
> Vazio e volto para o Vazio. Ao contrário do que se canta no Te Deum, non
> confundar in aeternum, é o que desejo: confundar in aeternum.
>
> 2009/7/25 Frank Thomas Sautter <[email protected]>
>
> > "Esnobismo cronológico" é invenção de um oxfordiano, professor de
> > literatura inglesa medieval. Indica o erro daqueles que acreditam ser a
> > capacidade cognitiva das pessoas do passado inferior à capacidade
> cognitiva
> > das pessoas do presente, por serem pessoas do passado. Por exemplo,
> > acreditar que o conhecimento científico-tecnológico faz alguma diferença
> na
> > questão sobre a existência de deuses. Se Alvaro não consumou o ato, pelo
> > menos flertou com ele, ou deu essa impressão. A falácia é menos óbvia do
> que
> > parece ser. Acho difícil encontrar uma pessoa que não tenha incorrido
> nela,
> > em um ou outro momento de sua vida. Eu, certamente, já fui vítima dela.
> > Quanto ao deus tirano, insisto: você, Doria, ofereceu uma causa de sua
> > crença - seu ódio - ou, mesmo, um bom motivo dessa sua crença. O ódio ao
> > teor da crença do oponente é, a meu ver, um motivo melhor do que a
> > simplicidade da crença do oponente; o ódio, por sinal, não é algo ruim em
> si
> > mesmo (e olha que não sou eu quem o diz). Mas você não ofereceu uma
> razão.
> > Se há um deus tirano, a fortiori há um deus.
> >
> > Se você afirmar que não há razão possível nesses assuntos, dou-me por
> > satisfeito e concluo a discussão. O que mais posso fazer? Eu mesmo estou
> > cansado do assunto, e somente me manifestei porque acreditei haver uma
> > questão lógica em jogo. Pessoalmente acredito que, nesses assuntos,
> somente
> > podemos agir como agem os juízes: primeiro estabelecem uma decisão,
> depois a
> > justificam (alguém acredita que os juízes agem diferente?). A crença na
> > (in)existência de Deus pode ser racionalizada (e, acredito, deve sê-lo; a
> > racionalização também não é algo ruim em si mesmo), mas não é e não pode
> ser
> > o resultado da racionalidade. Certamente Ricardo, como um bom hegeliano,
> > discordará.
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> Fim da Digest Logica-l, volume 41, assunto 17
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