Caro Frank,

 

Do meu ponto de vista, teorias são essenciais. Por exemplo, foi preciso uma
teoria da gravitação para percebermos que o espaço é curvo! Antes da
relatividade geral, físicos e astrônomos estavam se debatendo, tentando
remendar a mecânica newtoniana, sem perceber que ela não podia mais dar as
respostas de que precisavam. Teorias são essenciais, pois são elas que nos
mostram aquilo que deve ser observado.

 

Quanto ao isolamento entre filosofia e física, concordo em partes. Algumas
partes da filosofia jamais serão invadidas pela física ou por outra ciência,
mas não todas. À medida que a ciência avança, alguns problemas filosóficos,
especialmente aqueles da “filosofia natural”, vão se transformando em
problemas científicos. Por exemplo, a mente humana já foi um problema
religioso, já foi um problema filosófico e já foi um problema psicanalítico,
mas hoje está se transformando cada vez mais em um problema científico
multidisciplinar.

 

É claro que, em última análise, é a filosofia, não a ciência, quem diz
porque a ciência pode ser científica. 

 

[ ]s

 

Alvaro Augusto

[email protected]

 

De: [email protected] [mailto:[email protected]]
Em nome de Frank Thomas Sautter
Enviada em: sábado, 25 de julho de 2009 14:29
Para: [email protected]
Assunto: [Logica-l] Complexidade

 

Alvaro,

 

para apreender a complexidade das coisas não é preciso ter uma teoria da
complexidade, do mesmo modo que para amar não é preciso ter uma teoria do
amor. O deslumbramento dos poetas diante da vida e de suas complexidades é
uma prova disso. Você não vai necessariamente estar mais apto a exercer uma
atividade se tiver uma teoria sobre ela (em alguns casos, o contrário é
inclusive verdadeiro). Além disso, muitos, inclusive Kant, são ou foram de
opinião que antes de ser um argumento CONTRA a existência de deuses, a
complexidade é um argumento A FAVOR da existência de deuses (sob a forma de
um argumento do desígnio, por exemplo). É claro que, neste caso, não estamos
mais tratando do deus de Lampe (o criado de Kant), mas de um deus de
filósofos, uma entidade para preencher uma lacuna teórica nas suas
mundivisões. Mas, mesmo essa crença em um deus de filósofos não pode ser
sustentada ou atacada a partir de descobertas científicas, porque filosofia
e ciência são diferentes, as questões de uma estão interditadas para a
outra: uma questão filosófica não pode ser resolvida cientificamente, assim
como uma questão científica não pode ser resolvida filosoficamente (o que
não significa que não possam colaborar, sob a forma de heurísticas, por
exemplo). Se tiver, algum dia, de abrir mão disso, então abandono a
filosofia e volto à ciência da computação, que é a minha área básica de
formação. Observe, além disso, que  NÃO estou afirmando que alguém que não é
um profissional em filosofia não pode ter opinião sobre o assunto ou que sua
opinião não importa ou mesmo não será respeitada. Ao contrário, essa
resposta mostra todo o meu respeito por você. Quero apenas acentuar que a
resposta tem de ser de um determinado tipo, porque a pergunta pertence a um
determinado tipo de questões.

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