Recordar M. S. Lourenço
"Acabo de saber do falecimento do professor M. S. Lourenço e ainda estou algo
chocado com a súbita e desventurada notícia. Como seu ex-aluno, cabe-me
escrever algumas notas memoriais." Por Desidério Murcho (UFU)
Conheci M. S. Lourenço como professor quando eu estava no segundo ano da
graduação em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ele
leccionava as aulas teóricas de Lógica, que contrastavam fortemente com o
restante currículo. Tão fortemente que alguns alunos queriam que o programa da
cadeira fosse alterado, para que se leccionasse história da lógica em vez de
lógica propriamente dita — dando assim largas ao tique de toda a universidade
de vão de escada e que consiste em fazer história de X quando não se sabe X,
precisamente para fingir que se sabe X. Pela minha parte, esta era a única
cadeira onde realmente aprendia alguma coisa, em vez de jogos de palavras,
misticismos infantis e a adoração religosa de filósofos mortos.
M. S. Lourenço era muitíssimo amável e paciente, mas um professor sem tino
didáctico: não conseguia colocar-se do ponto de vista cognitivo do aluno, pois
ele era como que um alienígena, desconhecendo quase por completo o contexto
mental dos seus alunos. Exemplo disso era o seu programa de lógica, que
começava — imagine-se! — com a axiomatização da aritmética, ou seja,
aprendíamos a dar conta de várias propriedades lógicas das operações de adição
e subtracção, multiplicação e divisão. A ideia do Manel Lourenço (era assim que
lhe chamávamos) era que deste modo a lógica não seria tão bizarra, pois faria
uma conexão com os conhecimentos elementares de aritmética que evidentemente
todo o aluno tinha; mas o resultado terrível era o oposto, confirmando aos
alunos que a lógica nada tinha a ver com a filosofia e que era apenas uma
espécie de matemática esquisita.
Privei algumas vezes com o Manel Lourenço, nomeadamente na sua casa de Sintra,
mas nunca o conheci verdadeiramente bem, sobretudo porque perdi o contacto com
ele quando fui estudar para Londres. Agora que sou professor, algo me
surpreende no Manel Lourenço ao olhar para trás — na verdade, algo que não
devia surpreender-me. Ao contrário do que a maior parte das pessoas possam
supor, muitos dos professores universitários de alguns sectores mais frágeis
não têm quaisquer interesses intelectuais genuínos; a cultura, a vida mental,
serve exclusivamente de arma de arremesso para exibir imaginadas superioridades
sociais, mas a curiosidade cultural e bibliográfica, o interesse genuíno pelas
ideias, é tão raro numa universidade de vão de escada quanto numa padaria. Ora,
o Manel Lourenço era um intelectual, o que é coisa rara, incluindo em algumas
universidades. Tive por isso oportunidade de ter estimulantes conversas com ele
sobre os mais diversos temas que nos interessavam — da filosofia às artes, da
música à literatura, das ciências à sociedade.
O Manel Lourenço era detentor de uma prosa maravilhosa. A língua portuguesa
saía das suas mãos reinventada, limpa, ática. E isto quer estivesse a escrever
literatura quer estivesse a escrever filosofia. O seu livro Espontaneidade da
Razão, baseado na sua tese de doutoramento, é um estudo sobre a refutação do
empirismo em Wittgenstein. Não tenho o livro comigo, mas guardo dele a memória
de ter sido a primeira vez que vi como se faz história da filosofia de um ponto
de vista analítico, e com uma elegância comovente. Em vez de se citar e
parafrasear o autor e os comentadores, faz-se uma reconstrução teórica
inteiramente imanente, sem referências constantes à autoridade do texto e dos
comentadores. Este estilo deve muito a Dummett (professor do Manel Lourenço),
que consegue comentar Frege e Wittgenstein quase sem os citar. Fiquei
deslumbrado quando estudei o livro do Manel Lourenço e o primeiro artigo que
publiquei, sobre Hume, deve muito a esta descoberta de como se reconstrói uma
teoria sem atender aos mil e um aspectos literários e estilísticos que
embasbacam os basbaques, depurando o que tem exclusivamente interesse teórico e
procurando não escrever duas palavras quando uma só é suficiente. O meu livro
Essencialismo Naturalizado, vagamente baseado na minha dissertação de mestrado,
segue precisamente este estilo mas sem que o tenha feito conscientemente, pois
nesta altura já era parte da minha maneira de escrever filosofia técnica (que é
diferente do modo como escrevo trabalhos didácticos ou de divulgação).
Guardo um amargo de boca, relativamente ao Manel Lourenço. A incapacidade de
reconhecer quem tanto nos deu é uma falta moral grave, e poderá parecer que
esse é o meu caso, pois não cheguei a ter oportunidade de lhe dedicar um livro,
como fiz a Adriana Silva Graça, que me ensinou lógica. Isto aconteceu porque
nunca compreendi praticamente coisa alguma das aulas teóricas de lógica do
Manel Lourenço — quem realmente me ensinou lógica foi a Adriana, de uma maneira
maravilhosa, e por isso lhe dediquei o meu livro O Lugar da Lógica na
Filosofia. As aulas teóricas do Manel Lourenço eram cativantes, mas
ininteligíveis para um aluno, mesmo um aluno como eu que acabaria por ter nota
máxima na disciplina; na verdade, os outros alunos deixavam até de ir às suas
aulas e assistiam apenas às aulas da Adriana. Contudo, com o Manel Lourenço
aprendi a precisão do raciocínio e a importância do estilo, não nas aulas, mas
pelos seus escritos. Espero vir a ter oportunidade de dedicar um livro ao Manel
Lourenço.
Na minha casa de Lisboa tenho alguns livros do Manel Lourenço, como a
Espontaneidade da Razão e Os Degraus do Parnaso. Assim que tiver oportunidade,
tentarei publicar alguns excertos na Crítica, para que mais pessoas possam
ganhar com o legado impressionante do meu querido professor M. S. Lourenço,
extemporaneamente falecido aos 73 anos.
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