Matéria do jornal Gazeta do Povo<http://pt.wikipedia.org/wiki/Gazeta_do_Povo>,
o de maior circulação em Curitiba-PR.

Fonte:
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=925881&tit=O-nosso-maior-pensador-vivo

*Entrevista com Newton Carneiro Affonso da Costa, matemático e filósofo*

Pouca gente sabe, mas Curitiba pariu um dos intelectuais brasileiros mais
reconhecidos mundialmente. Newton Carneiro Affonso da Costa, hoje com 80
anos, morador de Florianópolis, revolucionou o campo da lógica ao
desenvolver a Teoria Paraconsistente, segundo a qual uma sentença e sua
negação podem ser ambas verdadeiras (leia mais ao lado).
Filosofia

Nascido na capital paranaense às vésperas da maior crise econômica de todos
os tempos, em 1929, Newton formou-se na Universi­dade Federal do Paraná em
Enge­nharia e Filosofia. Tornou-se catedrático de Matemática e mais tarde
transferiu-se para São Paulo, onde lecionou na Unicamp e na USP. Nesta
entrevista, ele fala sobre suas teorias, o ambiente intelectual brasileiro,
religião e felicidade.

Como foi a sua formação?

Fui muito influenciado por um tio, Milton Carneiro, também professor da
UFPR, que discutia muito filosofia e lia muitos livros comigo. Por outro
lado, na minha família, todos se interessavam por política, assuntos atuais,
e eu fui tomando conhecimento dessas áreas, inclusive autodidaticamente, e
acabei me interessando enormemente pela ciência. Minha mãe achava que,
sempre que possível, a gente não devia falar na primeira pessoa. Mas tratar
de idéias, de coisas ge­­rais. Por exemplo, discutir política, aspectos
filosóficos da vida, e não se preocupar tanto com os acidentes terrenos
nossos.

Por que deixou Curitiba?

Não tenho queixa nenhuma da UFPR. Mas a universidade na época não me
oferecia as coisas que eu queria. Era difícil trazer professores para a
universidade ou obter bolsas para o exterior. A biblioteca era meio limitada
e não havia verbas para pesquisas. Então achei mais interessante ir para a
USP ou a Unicamp, onde havia condições mais interessantes para trabalhos
científicos.

O que acha do ambiente intelectual brasileiro?

Está melhorando, mas ainda está muito atrasado. A USP e Unicamp, na
classificação geral das universidades, estão bem longe da primeira, que no
momento é Harvard.

Para melhorar, o que é mais ur­­gente?

Para começar, uma reforma completa no ensino secundário. O ensino secundário
no Brasil é lamentável. Não há boa universidade sem base. Não é possível.
Sem uma formação boa, de amor à ciência, de interesses outros além de
futebol, não vão para frente a tecnologia e a ciência brasileira. É claro
que na base de tudo isso está a família. O interesse fundamental por certos
valores do espírito, na minha opinião, tem que nascer.

O senhor acha que é devidamente reconhecido pela academia brasileira?

De um modo geral, no Brasil, a pessoa que produz em ciência e filosofia é
pouco conhecida. Seria desejável que as coisas mudassem. Pou­­co conhecido
não só do “povão”, isso é razoável, mas também não se conhece os nossos
colegas estão fazendo. Ninguém sabe o que está sendo feito em outras áreas.
Quase tudo que é feito de bom é publicado em inglês. Publicar em português,
em áreas como matemática, física, química, é perda de tempo. Ninguém lê.
Cientificamente, português é uma língua praticamente morta. Nem os espanhóis
entendem direito português.

Como o senhor explica a lógica paraconsistente?

A lógica paraconsistente, para ser explicada de uma maneira simples e fácil,
é muito difícil. Mas dá para dar uma idéia geral. A lógica padrão, que
normalmente se utiliza, não consegue dar conta, de uma maneira sensata,
quando há informações contraditórias. Então você precisa de uma lógica
especial. Vou dar um exemplo típico do que ocorre. Um sistema especialista,
por exemplo, em medicina, é um sistema computacional que recebe milhares de
informações de médicos. Os especialistas são en­­trevistados pelo que a
gente chama de engenheiros do conhecimento. Depois essas informações são
jogadas no computador, no sistema es­­pecialista. É óbvio que essas vá­­rias
afirmações e suposições dos vários médicos divergem entre si. Um médico quer
aplicar num tratamento cardíaco uma determinada técnica. Outro quer outra.
No com­­putador, se a gente não usar uma lógica adequada, o sistema
co­­­­lapsa. Uma das alternativas é a ló­­gica paraconsistente. Por outro
lado, ela tem também um grande valor filosófico. Ela foi aplicada a diversas
áreas, como economia, filosofia e computação

E a Teoria da Quase-verdade, tam­­­­­­bém desenvolvida pelo se­­nhor?

Foi outro caminho que eu procurei abrir. Na física, por exemplo,
sistematicamente o físico lança mão de teorias que são incompatíveis en­­tre
si. Na base das grandes teorias físicas, por diversas razões, em vez de
falar de teorias verdadeiras, prefiro falar de teorias quase-verdadeiras.

O senhor diz que verdade é restrita a certas circunstâncias.

Em parte é. Quando você vai fazer relatividade geral, você deixa de la­­do
forças elétricas, magnéticas, uma série de coisas. Você supõe uma série de
restrições, e trata de um caso de certa forma idealizado. Isso é exatamente
o que se faz na quase-verdade. É a formulação ri-­­ gorosa do que os
filósofos chamam de “salvar as aparências”.




*Teoria aceita contradições*

Ao contrário da lógica clássica, o grande “salto” da Teoria Paraconsistente
foi aceitar as contradições. Um dos princípios fundamentais da teoria de
Aristóteles, o pai da lógica clássica, é a chamada Lei da Não-contradição:
uma afirmação não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Baseada em
complexa fundamentação matemática, a teoria criada por Newton da Costa
revolucionou o campo da lógica ao não eliminar a opção entre duas
alternativas.

O termo paraconsistente, que literalmente significa “ao lado da
consistência”, foi uma sugestão dado por um amigo de da Costa, o filósofo
peruano Francisco Miró Quesada, em 1976. Hoje, a lógica paraconsistente
possui enorme aplicabilidade nas mais diversas áreas, mas principalmente na
ciência da computação. No Japão, o sistema que monitora as linhas de trem e
metrô é comandado a partir da lógica paraconsistente. Ela também é usada em
controle de tráfego aéreo e na tomada de decisões no mercado financeiro.

Outra grande contribuição de da Costa foi a Teoria da Quase-verdade. De
acordo com ela, a verdade muitas vezes está restrita a certas
circunstâncias. A razão não pode provar a verdade absoluta, afirma o
matemático. Um artigo escrito por Adonai Sant´Anna, Décio Krause e Francisco
Antônio Doria, publicado na revista Scientific American Brasil, em junho de
2003, explica o que ela quer dizer: “Por exemplo, se observamos astros com
pequenos binóculos e fazemos alguns cálculos simples, tudo se passa como se
estivéssemos parados e os astros andassem à nossa volta, ou seja, como se a
teoria de Ptolomeu (que sustentava ser a Terra o centro do universo) fosse
verdadeira. Os resultados assim obtidos podem não ‘corresponder à realidade’
(...) mas ‘salvam as aparências’.” (BB)
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Adolfo Neto
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