Alvaro e lista, No link sugerido por Alvaro: http://colunas.epocanegocios.globo.com/ideiaseinovacao/2009/09/08/o-que-vai-ser-gratis-o-que-vai-ser-pago/ podemos ler: "A lei número 1 do marketing é eterna. Diz que só pagamos por algo (digital ou não) que nos ajude a realizar uma “tarefa” (um job to be done como diz Clayton Christensen, especialista em inovação)."
E eu que pensava que os únicos que continuavam falando de "leis eternas" eram os teólogos! ;-) Falando sério, o nível do artigo é baixíssimo. A pretendida "lei eterna" parece uma brincadeira. Eu comprei bolachas: elas me ajudaram na "tarefa" de comer bolachas? Se tarefa, à moda desse tipo de escritos, é tomada com bastante ambiguidade (tal vez por isso apareça entre aspas), então a afirmação "só pagamos por algo (digital ou não) que nos ajude a realizar uma 'tarefa' " pode ser irrefutável, ao igual que "2 é o seu número da sorte". Popper escreveu alguma coisa sobre isso ;-) Carlos 2009/9/27 Alvaro Augusto (L) <[email protected]>: > Sobre esse assunto da "economia do grátis", sugiro a leitura do blog do > Clemente Nobrega: > http://colunas.epocanegocios.globo.com/ideiaseinovacao/2009/09/08/o-que-vai- > ser-gratis-o-que-vai-ser-pago/ > > [ ]s > > Alvaro Augusto > [email protected] > http://www.lunabay.com.br/ > http://twitter.com/alvaro_augusto > > > -----Mensagem original----- > De: [email protected] [mailto:[email protected]] > Em nome de Carlos Gonzalez > Enviada em: domingo, 27 de setembro de 2009 14:44 > Para: Arthur Buchsbaum; Lista acadêmica brasileira dos profissionais e > estudantes da área de LOGICA; [email protected] > Assunto: Re: [Logica-l] o crescimento do Gigapedia e a crescente inutilidade > das bibliotecas tradicionais > > Arthur e demais colegas, > > Na legislação atual, toda vez que uma determinada ação ou conduta X é > considerada delito, também incentivar X, ou simplesmente dizer "vamos > fazer X" é também considerado delito e punido pela lei. Em casos > extremos, como as ditaduras militares que sofreram os nossos países, o > simples questionamento de uma lei era muitas vezes punido. Por este > motivo quero desenvolver aqui somente uma discussão teórica e não um > apelo como "cumpra a lei" ou "não cumpra a lei". Estou me dirigindo a > pessoas maduras, criteriosas, responsáveis e cultas e, por isso, cada > um de vcs faz conscientemente a escolha de que leis cumprir ou não. > Também não quero comprometer á lista, pois já foram faladas coisas > como "mensagens que incentivam a pirataria, etc.".Eu acho que o tópico > é pertinente, pois tem a ver com o nosso dia-a-dia como cientistas e a > discussão de questões teóricas não deve ser considerada um tabu, > simplesmente porque envolve tópicos relacionadas à legislação ou > interesses econômicos. > > Em primeiro lugar, devemos considerar que as leis podem mudar e o que > é considerado justo numa época pode ser considerado injusto por outra. > Se tomarmos como exemplo a escravidão, que já foi lei, vemos que nem > todo mundo estava de acordo com a ela nem com o tratamento dado aos > escravos durante a vigência da mesma. Sêneca, parte da corte de Nero e > ele mesmo dono de escravos, denuncia os sofrimentos a que foram > submetidos os escravos. Por outra parte, eu ja ouví pessoas que > falaram que se vivessem no Brasil na época da escravidão e um fujão > entrasse na sua propriedade, chamavam à força pública para que esse > escravo retornasse a seu dono e recebesse o merecido castigo de > chicotadas e tortura, porque respeitariam a lei, não por medo, mas > porque "dura lex, sed lex". > > Assim como a questão da escravidão é uma questão de valores, enquanto > a propriedade era considerada como superior à liberdade humana, hoje > os mal chamados "direitos autoriais", ou seja, a propriedade > inteletual, nos coloca perante a questão: > > Que valor é mais fundamental: a propriedade ou a cultura e o > conhecimento dos povos? > > Naturalmente, hoje prevalece o valor da propriedade e o lucro, tendo > como exemplo a antidemocrática lei de "direitos autorais" brasileira. > Eu acho que, se essa lei fosse submetida a plebiscito, nunca seria > aprovada, como tantas outras. Os argumentos capitalistas, neoliberais, > etc., dizem que a nossa sociedade funciona na base do lucro e que as > leis devem defender o lucro para a sociedade poder funcionar. E > acrescentam que as posições que criticam a propriedade inteletual são > comunistas, etc. Nesta concepção capitalista extrema, o lucro é o > motor da sociedade, de modo que sem lucro não existiria editoração nem > livros. > > Eu diferencio "direito autorial" de "propriedade inteletual", porque a > maioria das vezes no mundo acadêmico a propriedade inteletual não é do > autor. Típico o caso de que, aceito um artigo para publicação, a > editora manda o termo de transferência da propriedade inteletual para > ela como requisito para a publicação, mas depois cobra U$S 30,00 pela > separata eletrônica.. Neste sentido, esta sendo começado a usar, de > maneira pejorativa, o termo "intermediação" para se referir a > editoras, companhias de música, etc. Alguns argumentos denominados > "comunistas" pelos neoliberais fazem referência a que o autor teria > direito a receber alguma coisa pelo seu trabalho, mas não a editora > que se limita a arrumar artigos já formatados e publicar. Nesta lista > já foi dito algo assim como "como vai piratear e negar os direitos a > R. Smullyam" (uma pessoa muito simpática, segundo minha opinião) "que > escolheu uma editora barata para o seu livro First Order Logic e que > uma de seus poucas atividades é ir até os correios parar ver se chegou > alguma coisa de direitos autoriais" (argumentum ad misericordiam?). Eu > acho que a pessoa que escreve um (bom) livro ou um artigo tem direito > a receber pelo seu trabalho. Entretanto, para o árduo trabalho de > escrever um livro compensar, tem que escolher a editora certa (que tem > que aceitar publicar o livro) e o livro tem que ter um sucesso > considerável. Ao longo de minha vida, muitos foram os autores de > livros que me disseram: "não compensou". Um caso extremo foi o > tradutor da Metafísica ao espanhol, Hernán Zucchi, que passou dez anos > fazendo a tradução e quando terminou o seu único interesse era que > fosse publicada e não o ganho. Por isso, muitas vezes a expressão > "direito autorial" não passa de um eufemismo usado por aqueles que não > tem a mais mínima preocupação pelo dinheiro do trabalho do autor. > > Até aqui a questão de princípios. > >> >> Creio que as presentes leis de direitos autorais não mais funcionam na >> prática, >> > > Por que uma lei não funciona na prática? Por que pessoas honestas e > éticas, muito longe de serem "fora da lei", não respeitam a lei? Por > que os apelos comuns para o cumprimento das leis (a responsabilidade > social, por exemplo), não funcionam? > > Podemos encontrar por ai, até pessoas estritamente éticas na sua > conduta, mas que sem remoço nem sentimento de que estão fazendo alguma > coisa errada, "pirateiam" material bibliográfico. > > Uma conclusão óbvia é que muitas pessoas não consideram que > determinados tipos de desobediência das leis de propriedade inteletual > seja contrário à moral. Ou seja, existe de fato (esta é uma afirmação > sociológica e como tal deveria ser testada), um divórcio entre lei e > moralidade. Em alguns casos, uma lei é tão contrária à moral que passa > a ser considerada uma "lei injusta", ou seja uma lei que contradiz os > princípios da justiça. De ser assim, trata-se de uma questão > extremamente importante e que deve ser analisada cientificamente e em > profundidade, em lugar de simplesmente tornar-se torcedor a favor ou > contra essas leis. > > Uma questão sociológica e econômica interessante é que a tecnologia > facilita o não cumprimento dessas leis. Para os mais jovens: 50 anos > atrás, quando as editoras tinham que tomar conta da trabalhosa > tipografia, poucas pessoa viam como injusto o lucro das editoras. Já > existiam, umas poucas, edições piratas. Jorge Luis Borges menciona uma > edição pirata de Enciclopédia Britânica. Custavam menos que o > original, mas também não eram coisas para pobres. Entretanto, os donos > de essas edições eram muitas vezes criticados por amigos e familiares: > "vc não tem vergonha de comprar uma edição falsificada", etc. > > Estes dois fatores, o divórcio entre ética e legalidade e a facilidade > tecnológica, dificultam ou impossibilitam a repressão governamental: > 1) Na França, anos atrás, um professor foi punido por 'baixar" > arquivos de música. Este fato gerou passeatas contra as leis de > propriedade inteletual. > 2) Não sei em outros lugares. Aqui no estado de SP as editoras > "pressionaram" (um eufemismo) para a repressão contra as fotocópias de > livros. Segundo a lei, fotocopiar um livro tem uma punição de mil > vezes o valor do livro. Fotocopiar um livro equivale a atravessar 500 > semáforos vermelhos. Como resultado, diminuiu significativamente a > fotocópias de livros. Contudo, a alternativa foi a cópia eletrônica. > >> >> e qualquer atitude de repressão está fadada ao fracasso. >> > > Eu não gosto de fazer "futurologia". Entretanto, fazer uma previsão > científica sobre o que vai acontecer é uma tarefa extremamente > difícil. Quero dizer: uma previsão com um certo grau de probabilidade > de acontecer, pois a história da ciência e do pensamento tem inúmeros > exemplos de previsões sociológicas erradas. A questão é: > > Os fatos assinalados, assim com outros que podem ser usados na > argumentação, podem ser tomados como indicadores de uma futura mudança > social nesse sentido? > > Consciente, como lógico, de que uma analogia é um argumento fraco e de > maneira nenhuma uma demonstração, quero colocar o seguinte > acontecimento histórico. Desculpem o caráter resumido, mas não quero, > nem nem conseguiria, escrever um tratado. > > No final da Idade Média e na Renascença temos um aumento da população > europeia devida a vários fatores, entre os quais podemos mencionar as > modificações das técnicas de agricultura aumentando a produtividade > agrícola e a intensificação das viagens, sobre tudo as marítimas, > gerando um aumento do intercâmbio comercial. Estes e outros fatos > deram lugar à surgimento da manufatura em substituição da oficina > medieval. A manufatura produzia com um custo mais baixo que a oficina. > Entretanto, para a manufatura era necessária uma maior produção, e > esta produção implicava uma distribuição mais ampla dos produtos. > Enquanto o comércio marítimo contribuía nesta distribuição, a > estrutura feudal a dificultava, pois as mercadorias deviam pagar > impostos de alfândega cada vez que atravessavam um feudo. Como > resultado disto, os comerciantes e donos de manufaturas fizeram uma > aliança com os reis contra os senhores feudais e a estrutura feudal > foi caindo pouco a pouco na Europa. O crescimento da manufatura deu > lugar a uma intensificação do comércio e ao surgimento da indústria. A > tecnologia gerou mais tecnologia e os países que não se adaptaram às > novas tecnologias ficaram para atrás. > > Hoje poderíamos dizer que o conhecimento gera tecnologia e que a > tecnologia gera conhecimento. > > Contudo, não podemos cair na ingênua lei do progresso contínuo. Com a > queda do Império Romano (e Alexandria, etc.) muitas tecnologias foram > perdidas numa época de barbárie e algumas delas recuperadas somente na > Renascença e na Modernidade. Muitos livros foram queimados e perdidos > para sempre. > > O Arthur faz muito bem em assinalar fatos que não podem, nem devem, > ser desconsiderados. Muitas vezes vemos pessoas propondo posições > hipócritas ou bivalentes sobre este tema. Do meu ponto de vista, os > valores e os interesses envolvidos na discussão devem ser > explicitados. > > Espero ter dito alguma coisa interessante sobre um tema tão polêmico, > difícil e espinhoso. Gostaria de saber as opiniões dos colegas. > > Carlos Gonzalez > > 2009/9/27 Arthur Buchsbaum <[email protected]>: >> Caros colegas: >> >> >> >> O sítio Gigapedia (http://gigapedia.com) é um meio cada vez maior poderoso >> de obter livros de todos os assuntos, raros ou não, e parece já superar em >> muitos sentidos as maiores bibliotecas do mundo. >> >> >> >> Em assuntos como Lógica, Matemática, Filosofia, entre outros, o acervo >> acessível por este sítio é simplesmente fabuloso. O mesmo parece ocorrer > com >> praticamente todos os assuntos. >> >> >> >> Cada vez mais alunos de mestrado e doutorado, além dos alunos de > graduação, >> têm recorrido a este acervo para pesquisas relacionadas às suas teses ou >> dissertações. >> >> >> >> Em http://gigapedia.com/threads/1058?page=1 vários alunos e ex-alunos de >> pós-graduação agradecem os criadores e idealizadores deste sítio pelos >> livros que têm podido obter graças aos seus inúmeros colaboradores, que > têm >> compartilhado os seus livros com a comunidade mundial. >> >> >> >> Creio que as presentes leis de direitos autorais não mais funcionam na >> prática, e qualquer atitude de repressão está fadada ao fracasso. >> >> >> >> a) Arthur Buchsbaum >> >> _______________________________________________ >> Logica-l mailing list >> [email protected] >> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l >> >> > _______________________________________________ > Logica-l mailing list > [email protected] > http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l > > _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
