Alessio nos fez uma interessante provocação, lá da Europa: **Quem seriam afinal os tais "filósofos brasileiros" de destaque?**
* * * Antes, uma anedota histórica: durante o regime militar, no Brasil, um dos mais comuns cursos de Filosofia ofertados na universidade tinha justamente o curioso nome de "Filosofia Brasileira"... Não posso realmente dizer em que consistia a ementa, neste caso, mas talvez alguns dos colegas mais experientes possam nos contar! * * * Outra anedota: a página de "Filosofia do Brasil" na Wikipédia existe mas não contém nenhum verbete! http://pt.m.wikipedia.org/wiki/Categoria:Filosofia_do_Brasil * * * Bom, agora sério. Alguém precisa contar para o Alessio, antes de mais nada, que o Brasil ainda é um daqueles países em que a promiscuidade entre filosofia e religião persistem. De fato, até mesmo a comissão de Filosofia, no CNPQ, é dividida em "subcomissão Filosofia" e "subcomissão Teologia". Não deixa de fazer sentido isso: boa parte dos filósofos da Velha Guarda ainda são (ex?)seminaristas. Outros "filósofos" simplesmente acreditam que podem ser religiosos e não questionar isso. Enfim... Alessio, talvez não seja exagero dizer que em "filosofia profissional", no Brasil, essencialmente faz-se e fez-se "história da filosofia" ou "comentários à filosofia do autor X": há positivistas (à la Auguste Comte, há tanto tempo superado aí na França!) como Teixeira Mendes e Miguel Lemos, há kantianos, heideggerianos, nietszcheanos, platonianos, spinozanos, husserlianos, sartrianos, "psicanalósofos" (principalmente da vertente lacaniana, elevada a um expoente inusitado aí na França), há espiritualistas (herdeiros do Allan Kardec, praticamente desconhecido aí na França!), há neomarxistas e marxianos, há teólogos e pedagogos da libertação. Atualmente há também uma boa quantidade de wittgensteinianos e alguns pragmatistas. Faut-ils brûler? Quais escolas filosóficas imprimiram marca mais profunda na ideologia brasílica? O positivismo (está já na bandeira!) e o integralismo, eu ousaria dizer... Alessio pediu contudo para _listarmos_ filósofos brasileiros, demonstrando a sua existência por enumeração ostensiva. Vou oferecer assim alguns nomes mais conhecidos, sem nenhuma pretensão de completude (ou sequer indicar com isso que valha a pena "comprar os livros deles"). Vou, ainda, me limitar a nomes de filósofos já falecidos, para evitar disputas bizarras com gente que possa se chatear por não aparecer na lista. Não vou tão longe quanto a pré-história da nossa Filosofia e citar gente como Domingos José Gonçalves de Magalhães, romântico, nacionalista literário, médico e diplomata, ou Padre Antonio Vieira, sermonista de plantão. Não: concentremo-nos em alguns nomes mais contemporâneos (não será tão difícil citar alguns --- seria na verdade difícil citar muitos!). Vamos lá: (1) Benedito Nunes, heideggeriano, filósofo da arte (2) Bento Prado Jr, filósofo da psicanálise e da linguagem (3) Caio Prado Jr, historiógrafo marxista (4) Claudio Ulpiano, deleuziano (5) Gerd Bornheim, heideggeriano (e sartriano) (6) Gilda de Mello e Souza, crítica literária (7) Henrique Cláudio de Lima Vaz, jesuíta, hegeliano, trabalhou em antropologia filosófica (8) José Augusto Merquior, culturólogo, historiador das ideias (9) José Bonifácio de Andrada e Silva, Patriarca da Independência, civilizador de índios bravos e agricultor das selvas (10) Júlio de Castilhos, político, disseminador nacional do ideário positivista (11) Mário Ferreira dos Santos, criador da filosofia concreta ("completamente baseada na lógica") (12) Miguel Reale, jurista tridimensional (fato, valor, norma) (13) Paulo Freire, pedagogo da opressão e da libertação (14) Plínio Salgado, criador da Ação Integralista Brasileira, inspirado no fascismo italiano (15) Vilém Flusser, fenomenólogo, filósofo da comunicação e da história --- conta como filósofo brasileiro? Não se chateie, Alessio, se você não tiver ouvido falar ainda na maior parte deles. Eu, por exemplo, trocaria facilmente alguns destes nomes por: (A) Barão de Itararé, nosso mais modesto e democrata pensador (B) Oswald de Andrade, escritor antropófago, comedor de europeus [Isso foi outra piada, tá?] * * * Por fim, com relação à escola fundada por nosso amigo brito-australiano (por quem também não nutro nenhum fetiche, mas cuja competência filosófica sei reconhecer), não posso dizer que esteja de pleno acordo com o alcance *filosófico* do trabalho de alguns deles (penso especificamente em um aluno de Graham, que testemunhei ter uma dificuldade muito elementar em Lógica --- e ainda por cima publicar a bobagem!). Mas você tem toda a razão, Alessio, em chamar a atenção para o fato de que a "escola australiana" tem tido razoável sucesso em formar "filósofos de verdade"! Abraços sempre lógicos, mas não necessariamente filosóficos, Joao Marcos -- http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
