Prezado Tony : Demorei em respondê-lhe porque fiquei pensando no assunto. Eu vejo as coisas do modo seguinte. Considere estas situações:
1) Um investigador de policia observa contradições no depoimento de um suspeito. Toma essa contradição como um sinal de que a fala do suspeito não corresponde aos fatos. Ele não se preocupa em identificar quais são as proposições falsas do depoimento. Basta-lhe considerar que o discurso globalmente não corresponde aos fatos. 2) Em algum momento do ano 450 AC Tísias e Córax disputam em Siracusa sobre quem é o dono de um terreno. No percurso da argumentação Córax se contradiz. Ele perde a disputa e deve entregar o terreno. 3) Sem estar em jogo nem a liberdade, nem dinheiro, nem poder, Antístenes e Górgias discutem sobre se a virtude é ou não é ensinável. Não percurso do diálogo Górgias se contradiz, e todos os participantes do debate dão a razão a Antístenes. Você observe que em todas estas situações se contradizer signfica perder algo: liberdade, dinheiro, o assentimento dos demais para o que se afirma. Haverá regras para evitar cair na contradição? 4)Em algum momento de sua vida Antifonte descobre que se houver tais regras, então as mesmas se aplicam ao diálogo que silenciosamente fazemos com nós mesmos. O diálogo deixa lugar para o discurso silencioso do silogismo. Tony, a Lógica surgiu da argumentação. E na argumentação seja com nós mesmos ou com outros devemos evitar cair na contradição. A dialética platônica e os Tópicos de Aristóteles precedem os Segundos Analíticos. Como se deu esse passo? Você deve considerar os enunciados proferidos como proposições, isto é, fazer abstração de suas condições de enunciação; depois outorga aos termos do seu discurso um significado unívoco; agora introduz variáveis; já tem um esqueleto e pode investigar a forma desse esqueleto. Como você tem proposições e não apenas enunciados, você as pode considerar como verdadeiras ou como falsas, segundo seja o caso. Agora você vai se interessar pelas regras que permitem passar de proposições verdadeiras a proposiçoes verdadeiras. Você já é um lógico. Gosto de livros como o de Strawson Introduction to Logical Theory e o de Toulmin os usos de argumento porque fazem surgir a Lógica da argumentação na linguagem ordinária. Você poder duvidar que esse processo histórico ocorreu do modo que eu o descrevo , mas pode considerar meu relato como uma hipótese explicativa, como a do estado de natureza de Rousseau. Por isso eu disse que para o estudante de Filosofia é mais interessante iniciar por um curso de Lógica informal ou Teoria da argumentação mais do que pelo estudo da Lógica formal. Sobretudo porque a argumentação filosófica na maioria dos casos não é formalizada. O caso dos matemáticos e cientistas da computação a coisa é distinta. A maioria deles se impacientariam com estas disquisições e achariam entendiante uma abordagem à Lógica formal como a que eu sugiro para os estudantes de Filosofía. Um abraço. Jorge Molina ________________________________ De: Tony Marmo [[email protected]] Enviado: segunda-feira, 9 de abril de 2012 18:37 Para: Jorge Alberto Molina; Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA Assunto: Re: [Logica-l] ENSINO DE LÓGICA, POR QUAL LÓGICA COMEÇAR? Caro Alberto Molina, Eu já não gosto de fazer essa separação. Na verdade, o bom e o ideal seria que os livros e os cursos de introdução à lógica primeiro recuperassem no começo dos capítulos ou seções as reflexões filosóficas que motivaram a abordagem e depois podem entrar nos formalismos cada vez mais. Por exemplo, em um primeiro capítulo, um livro pode falar da maiêutica, depois um pouco da escola megárica, do Organon e depois dos estóicos. Outro exemplo: quando se vai introduzir a noção de valoração, pode-se falar ainda que en passant do problema da batalha naval. Em 9 de abril de 2012 15:52, Jorge Alberto Molina <[email protected]<mailto:[email protected]>> escreveu: Prezado Tony: Sua sugestão é razoável se se trata de cursos de graduação em computação e em matemática. Para o caso de um curso de graduação em Filosofia eu me posiciono em contra. Aí eu começaria por um curso de Lógica informal e depois seguiria com um curso de Lógica clássica de primeira ordem. Extensões da lógica clássica e lógicas divergentes deixaria para pós-graduação. Um abraço. Jorge Molina ________________________________________ De: [email protected]<mailto:[email protected]> [[email protected]<mailto:[email protected]>] em nome de Tony Marmo [[email protected]<mailto:[email protected]>] Enviado: segunda-feira, 9 de abril de 2012 14:11 Para: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de LOGICA Assunto: [Logica-l] ENSINO DE LÓGICA, POR QUAL LÓGICA COMEÇAR? Aos mestres, colegas e amigos, Existe uma tradição, mesmo em centros onde lógicas não-clássicas são estudadas aprofundadamente, de iniciar o estudo da lógica por uma apresentação à lógica clássica. Depois, conforme a escola de pensamento seguida, estudam-se outras lógicas e apresenta-se inclusive a ideia de que a lógica clássica pode ser vista como um caso particular de outras lógicas. A pergunta que faço é a seguinte: por que não começar os cursos de introdução por uma lógica ou por uma perspectiva não-clássica. Por exemplo, por lógicas multi-valentes e mostrando como os sistemas bi-valentes são casos particulares? Ou então pela lógica intuicionista? Ainda que faltem em um ou outro caso textos mais acessíveis, deve ser possível confeccioná-los. O que acham? _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected]<mailto:[email protected]> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
