Prezado JM e lista,

Em primeiro lugar: obrigadão e obrigadíssimo. Os teus esclarecimentos
deixam claros problemas complexos.

Esta questão, além de dar lugar a "muitos comentários", daria lugar a
um paper (ou mais?). Assim vou comentar o mínimo indispensável.

O Γ para enfraquecer a regra "2)": eu esqueci.

Eu pensei nos livros introdutórios à logica quando falei que não me
lembrava de alguém usando "1)". Os de lógica modal tem de usar "2)"
para não complicar questões como a regra Nec.

Eu concordo que MP (local) e Detachment (global) devem ser claramente
distinguidas pelo simples fato de que *são* duas regras diferentes, de
modo que tratá-las ambiguamente, como se fossem só uma, é um *erro
conceitual" em lógica. Se são equivalentes em certos sistemas, então
são duas regras diferentes que são equivalentes nesses sistemas, como
P e ¬¬P são proposições equivalentes na lógica clássica.

Quando eu escrevo "É claro que a implicação estaria bastante mal
determinada" estou sendo pouco claro. O teu exemplo é pertinente,
porque isso não quer dizer que está mal determinada como operador
proposicional. O que eu queria dizer é que um conetivo assim é difícil
de ser visto com concordância com alguma noção intuitiva de
condicional. É mais para o lado:
>> "Sem dúvida faltaria neste caso à implicação
>> uma das suas propriedades mais fundamentais."

Toda esta discussão, começando com a confusão entre axioma e regra,
terminando nas propriedades estruturais dos sistemas formais e a
ambiguidade ao nomear certas regras, segundo a minha opinião, forma
parte de conceitos lógicos importantes e fundamentais que parecem
bastante omitidos, mas eu acho que deveriam ser esclarecidos,
inclusive nos livros introdutórios. E as relações entre as
propriedades estruturais dos sistemas formais e propriedades das
álgebras correspondentes também me parecem coisas fundamentais, mas a
um nível mais complexo.

Um 2013 cheio de realizações para vc e para todos os lógicos da lista.

Abraços

Carlos

2013/1/4 Joao Marcos <[email protected]>:
> Olá, Carlos:
>
>> Tenho medo de ter interpretado mal os teus comentários.
>
> Mas eu acho que você os interpretou muito bem!
>
>> Confirma isto, por favor:
>>
>> 1) A regra MP global é:
>> De ⊢P  e ⊢ (P => Q), obtém ⊢ Q
>>
>> 2) A regra local seria:
>> P, (P=>Q) ⊢ Q
>>
>> P e Q metavariáveis indicando fórmulas.
>
> Isso.  Na regra local eu incluiria ainda um contexto arbitrário (um
> conjunto de fórmulas) em meio às premissas.  Mas se você puder contar
> com a monotonicidade de ⊢, está resolvido.
>
>> Eu não me lembro de alguém usando 1), pois os livros que eu me lembro usam 2)
>> Vc lembra algum livro de texto de lógica usando 1) ?
>
> Quase todo livro de lógica modal (principalmente da "tradição
> filosófica")!  Veja por exemplo as regras do clássico Hughes &
> Cresswell:
>
> MP (The Rule of Modus Ponens, sometimes also called the Rule of
> Detachment): If α and α=>β are theorems, so is β.
> N (The Rule of Necessitation): If α is a theorem, so is Lα.
>
> Por isso mesmo eu sou a favor de separar "modus ponens" (a regra
> local) de "rule of detachment" (a regra global).
>
>> Com as definições habituais de dedução, etc., 2) implica 1) de maneira
>> quase imediata.
>
> Correto.  E (1) implica (2) se o sistema for *estruturalmente
> completo*, como é esclarecido naquele verbete que você enviou.
>
>> Num sistema consistente e completo da lógica proposicional clássica,
>> 1) tem de implicar 2). Mas 2) deveria ser demonstrada como metateorema
>> usando os recursos de cada sistema em particular.
>
> Correto, se estamos falando de sistemas axiomáticos usuais.  Em
> sistemas de Genten, por outro lado, em geral nem é preciso demonstrar
> tal metateorema.
>
>> Como seria de fraco um sistema que vale 1), mas não vale 2) ou,
>> incluso é possível mostrar um contraexemplo no qual P e (P=>Q) são
>> verdadeiras e Q falsa? É claro que a implicação estaria bastante mal
>> determinada.
>
> Sem dúvida faltaria neste caso à implicação uma das suas propriedades
> mais fundamentais.
>
> O que dizer, por outro lado, de:
>
> 3) A regra Nec global:
> De ⊢P obtém ⊢ LP
>
> 4) A regra Nec local:
> P ⊢ LP
>
> Na lógica modal temos (3) e não (4), certo?  E o conectivo L não está
> exatamente "mal determinado", está?
>
>> Eu não sei muito bem qual é a relação entre essas regras e o teorema ou 
>> axioma:
>> ⊢ ((P^(P=>Q))=>Q)
>> equivalentemente:
>> 3) ⊢ P=>((P=>Q)=>Q)
>> Claro que isso sai de 2) usando teorema da dedução.
>> Se vc tiver 1) e 3): o que precisaria para metademonstrar 2)?
>
> Boa pergunta!  As características da noção de consequência vão ter
> certamente o seu papel...
>
>> Eu mandei para o artigo da wikipedia pois não conheço livro de texto
>> que fale disso. Vc conhece?
>
> Não estou seguro.  Certamente não se encontra estas coisas nestes
> manuais antigos e antiquados de Lógica que continuam sendo estudados e
> recomendados pela turma da Velha Guarda. :-)  Talvez o "Admissibility
> of Logical Inference Rules", do Rybakov?  Talvez o "Structural Proof
> Theory", da Sara Negri?  O "Intermediate Logic", do Bostock?
>
> Abração, Feliz 2013, e fique à vontade para encaminhar a minha
> resposta para a lista, caso deseje.
> Joao Marcos
>
> --
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