Caro João Marcos: Primeiramente, obrigado por seus comentários.
É incrível, mas, até onde me lembro, Lukasiewicz não se debruça sobre a passagem dos *Analíticos Anteriores* B15; ele a cita de passagem, mas quase não a explora. Ele dá maior ênfase à celebre passagem dos *Analíticos Posteriores* A11, que é premissa maior de sua proposição de um projeto de pesquisa de lógicas não-aristotélicas que se coadunaria, mais tarde, à paraconsistência. Infelizmente, ainda não conheço as discussões do Fred Seddon. Obrigado pela indicação. Lukasiewicz é muito criticado por alguns estudiosos de Aristóteles, algumas vezes com razão, outras nem tanto. Barbara Cassin e Michel Narcy, por exemplo, consideram anacrônica a leitura de Lukasiewicz, pois acusam-no de impor ao *corpus aristotelicum,* uma chave de leitura estranha ao espírito da filosofia e aos propósitos pragmáticos da apologia do princípio da não-contradição levada a cabo pelo Estagirita no livro Gamma da Metafísica. Há, sem dúvida, um viés estoicizante no *Aristotle's syllogistic from the standpoint of modern formal logic*, o qual John Corcoran, por exemplo, critica muito, que se deve ao fato de se antepor a lógica proposicional clássica na base dessa reconstrução da silogística. Todavia, em História, que não é uma ciência exata, há sempre um ponto de vista diferente que pode ser justificado desde que haja evidência em suporte. Em resposta a sua pergunta, eu diria que há um viés um pouco formalista ou logicista demais que permeia esse trabalho de Lukasiewicz e em seu projeto de releitura modernista da silogística aristotélica. Mas o que poderia ser criticado do ponto de vista historiográfico é incrível do ponto de vista lógico-teórico. É ele o responsável por inaugurar, reorganizar e a sistematizar seriamente a silogística de "Aristóteles", o que foi fundamental para o renascimento e a aparição de estudos posteriores muito bons sobre o tema. Acredito que o texto de Lukasiewicz continuará, por muito tempo ainda, uma leitura obrigatória para os estudiosos de lógica, filosofia antiga e história da lógica. Quanto à identidade do João de Cornuália ser o Pseudo-Escoto, a historiografia da lógica tem acatado à hipótese/conclusão de Etienne Gilson, que é repercutida por Bochenski, os Kneales, Blanché e tantos outros historiadores da lógica. Conto em detalhe essa e outras histórias em minha tese. Abraço, Evandro Gomes. 2013/1/5 Joao Marcos <[email protected]> > [Retornando ao "subject" anterior, mais esclarecedor.] > > > Esse é realmente um texto-chave para aquilatar paraconsistência lato > sensu > > em Aristóteles. Tive o primeiro contato com esse texto em 2005, quando > > preparava um curso de história da lógica que ministrei aqui na > Universidade > > Estadual de Maringá. > > Sobre este assunto parece importante também levar em consideração ao > menos o competente texto de Lukasiewicz sobre "o princípio da > contradição em Aristóteles". > > > O resultado do Estagirita é surpreendente e o fato de ter ficado tanto > > tempo sem ser debatido resulta, provavelmente, de um certo viés > equivocado > > na interpretação da lógica de Aristóteles, excessivamente > > clássico. Apresento uma proposta de interpretação e contextualização > desse > > texto num paper de 2008, que publiquei com a professora Itala. Segue o > > link: > > > > > http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/principia/article/view/1808-1711.2010v14n1p71 > > Uma curiosidade: você classificaria também o viés de Lukasiewicz, que > vocês analisam no artigo de vocês, como "excessivamente clássico"? E > o que você acha do livro de Fred Seddon criticando a abordagem > lukasiewicziana? > > > Em minha tese - que logo estará pronta - conto melhor essas e outras > > histórias. Outro equívoco dessa história é atribuir o ex falso ao > > Pseudo-Escoto. > > É de fato interessante esclarecer isso. Parece-me absolutamente > essencial, neste sentido, ler com carinho o livro de Andrés > Bobenrieth, "Inconsistencias ¿Por qué no? Un estudio filosófico sobre > la lógica paraconsistente". Andrés mostra como uma reedição dos > comentários dos Analíticos Anteriores/Primeiros Analíticos tornaram > visível o princípio do Pseudo-Escoto, atribuído erroneamente a João > Duns Escoto (1266-1308), nos doze livros da Opera Omnia, 1639 > (reimpresso em 1968), e aponta para a conjectura moderna mais > plausível sobre a autoria destes livros, que os liga a João da > Cornuália, por volta de 1350. > > Abraços, > Johannes Marcus > > -- > http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ > _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
