Caro Evandro,

Lagerlund no verbete sobre silogística medieval para a Stanford aponta para
duas dificuldades dos medievais que hoje pouco consideramos. Primeiro que
não havia muitas cópias dos livros do Organon em circulação, era difícil
conseguir uma, de forma que se considera que esses livros desapareceram do
ocidente. Segundo que não havia traduções para o latim, o que já tornava
quase inútil para a maioria ter uma cópia em mãos: simplesmente, o grego
era bem menos conhecido. Demoraram para reaparecer os livros do Organon no
Ocidente e serem traduzidos para o latim.
O que aconteceu é que, por exemplo, a confusão e redução da lógica a uma
teoria dos silogismos deveu-se justamente a isto. Buridan é considerado
quem no ocidente propôs ampliar a lógica para além do estudo dos
silogismos, possivelmente ignorando que Aristóteles já tinha essa proposta.
Os lógicos medievais então tiveram de criar novos conceitos e pensar saídas
para os problemas que viram, já que não tinham o velho Aristóteles à mão
para responder suas dúvidas.

Então, de fato, a lógica clássica moderna não está fora da tradição
aristotélica, porque tudo nela foi instaurado por Aristóteles, mas não
deriva direta e exatamente da lógica aristotélica. Ela é derivada da lógica
medieval, que é uma releitura e reconstrução com ampliação de parte do
legado de Aristóteles.

Em 7 de janeiro de 2013 14:59, Evandro L. Gomes <[email protected]>escreveu:

> Caro João Marcos:
>
> Primeiramente, obrigado por seus comentários.
>
> É incrível, mas, até onde me lembro, Lukasiewicz não se debruça sobre a
> passagem dos *Analíticos Anteriores* B15; ele a cita de passagem, mas quase
> não a explora. Ele dá maior ênfase à celebre passagem dos *Analíticos
> Posteriores* A11, que é premissa maior de sua proposição de um projeto de
> pesquisa de lógicas não-aristotélicas que se coadunaria, mais tarde, à
> paraconsistência.
>
> Infelizmente, ainda não conheço as discussões do Fred Seddon. Obrigado pela
> indicação. Lukasiewicz é muito criticado por alguns estudiosos de
> Aristóteles, algumas vezes com razão, outras nem tanto. Barbara Cassin e
> Michel Narcy, por exemplo, consideram anacrônica a leitura de Lukasiewicz,
> pois acusam-no de impor ao *corpus aristotelicum,* uma chave de leitura
> estranha ao espírito da filosofia e aos propósitos pragmáticos da apologia
> do princípio da não-contradição levada a cabo pelo Estagirita no livro
> Gamma da Metafísica. Há, sem dúvida, um viés estoicizante no *Aristotle's
> syllogistic from the standpoint of modern formal logic*, o qual John
> Corcoran, por exemplo, critica muito, que se deve ao fato de se antepor a
> lógica proposicional clássica na base dessa reconstrução da
> silogística. Todavia, em História, que não é uma ciência exata, há sempre
> um ponto de vista diferente que pode ser justificado desde que haja
> evidência em suporte.
>
> Em resposta a sua pergunta, eu diria que há um viés um pouco formalista ou
> logicista demais que permeia esse trabalho de Lukasiewicz e em seu projeto
> de releitura modernista da silogística aristotélica. Mas o que poderia ser
> criticado do ponto de vista historiográfico é incrível do ponto de vista
> lógico-teórico. É ele o responsável por inaugurar, reorganizar e a
> sistematizar seriamente a silogística de "Aristóteles", o que foi
> fundamental para o renascimento e a aparição de estudos posteriores muito
> bons sobre o tema. Acredito que o texto de Lukasiewicz continuará, por
> muito tempo ainda, uma leitura obrigatória para os estudiosos de lógica,
> filosofia antiga e história da lógica.
>
> Quanto à identidade do João de Cornuália ser o Pseudo-Escoto, a
> historiografia da lógica tem acatado à hipótese/conclusão de Etienne
> Gilson, que é repercutida por Bochenski, os Kneales, Blanché e tantos
> outros historiadores da lógica. Conto em detalhe essa e outras histórias em
> minha tese.
>
> Abraço,
> Evandro Gomes.
>
>
> 2013/1/5 Joao Marcos <[email protected]>
>
> > [Retornando ao "subject" anterior, mais esclarecedor.]
> >
> > > Esse é realmente um texto-chave para aquilatar paraconsistência lato
> > sensu
> > > em Aristóteles. Tive o primeiro contato com esse texto em 2005, quando
> > > preparava um curso de história da lógica que ministrei aqui na
> > Universidade
> > > Estadual de Maringá.
> >
> > Sobre este assunto parece importante também levar em consideração ao
> > menos o competente texto de Lukasiewicz sobre "o princípio da
> > contradição em Aristóteles".
> >
> > > O resultado do Estagirita é surpreendente e o fato de ter ficado tanto
> > > tempo sem ser debatido resulta, provavelmente, de um certo viés
> > equivocado
> > > na interpretação da lógica de Aristóteles, excessivamente
> > > clássico. Apresento uma proposta de interpretação e contextualização
> > desse
> > > texto num paper de 2008, que publiquei com a professora Itala.  Segue o
> > > link:
> > >
> > >
> >
> http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/principia/article/view/1808-1711.2010v14n1p71
> >
> > Uma curiosidade: você classificaria também o viés de Lukasiewicz, que
> > vocês analisam no artigo de vocês, como "excessivamente clássico"?  E
> > o que você acha do livro de Fred Seddon criticando a abordagem
> > lukasiewicziana?
> >
> > > Em minha tese - que logo estará pronta - conto melhor essas e outras
> > > histórias. Outro equívoco dessa história é atribuir o ex falso ao
> > > Pseudo-Escoto.
> >
> > É de fato interessante esclarecer isso.  Parece-me absolutamente
> > essencial, neste sentido, ler com carinho o livro de Andrés
> > Bobenrieth, "Inconsistencias ¿Por qué no? Un estudio filosófico sobre
> > la lógica paraconsistente".  Andrés mostra como uma reedição dos
> > comentários dos Analíticos Anteriores/Primeiros Analíticos tornaram
> > visível o princípio do Pseudo-Escoto, atribuído erroneamente a João
> > Duns Escoto (1266-1308), nos doze livros da Opera Omnia, 1639
> > (reimpresso em 1968), e aponta para a conjectura moderna mais
> > plausível sobre a autoria destes livros, que os liga a João da
> > Cornuália, por volta de 1350.
> >
> > Abraços,
> > Johannes Marcus
> >
> > --
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