Essa prática é mais comum do que se pensa. Mas, há outras práticas funestas
como produzir coisas que não inovam em nada, mas apenas coligem resultados
de outros, em nome da solidez do saber.

Em 7 de maio de 2013 15:26, Daniel Durante <[email protected]> escreveu:

> Para pensarmos um pouco.
>
> Saudações,
> Daniel.
>
> +++++++++++++++++++
>
> Darwin e a prática da 'Salami Science'
>
> 27 de abril de 2013
> FERNANDO REINACH - O Estado de S.Paulo
>
> Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a
> expressão "Salami Science". Um de nós estava com uma pilha de trabalhos
> científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo
> trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou:
> "Salami Science, espero que não chegue aqui". Mas a praga se espalhou pelo
> mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.
> "Salami Science" é a prática de fatiar uma única descoberta, como um
> salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O
> cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito
> produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As
> revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil.
> Apesar disso, a "Salami Science" se espalhou, induzido pela busca obsessiva
> de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.
> No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios
> Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor
> intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa
> para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era
> desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de
> um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova
> descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a
> ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a
> estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de
> uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu... Os três
> pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e
> Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade
> (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter
> certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.
> Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos
> e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos
> publicou no último ano - e onde. Querem saber como serão classificados.
> "Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto
> impacto no ano passado, não poderia ser diferente." "O departamento de
> beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano
> passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto..." Não que os
> olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o
> relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço
> que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.
> Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas
> instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em
> conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de
> trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na
> literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a
> trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras
> como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata
> da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira
> objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein,
> Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas
> pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil.
> O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de
> orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras
> o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos
> tenham sido aceitos para publicação.
> Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um
> cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva
> de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é
> caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que
> realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os
> responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual
> escondida por trás de algoritmos matemáticos.
> Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das
> características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar
> aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano.
> Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar
> "Salami Science". É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas
> fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me
> citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas
> citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E,
> aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa
> a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco
> importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o
> de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais
> longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele
> descobriu...
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