As expressões “feito nos joelhos” e “atamancado” também se usam no Brasil para coisa mal feita. São alternativas mais polidas. “Feito nas coxas” não é, como alguns sugerem erradamente, uma expressão racista. Mas, é sim uma forma vulgar e ríspida para dizer que algo é uma porcaria ou um excremento. Hoje em dia, porém, inventaram alternativas ainda mais grosseiras e deselegantes de dizer a mesma coisa.
https://independent.academia.edu/TonyMarmo > On 9 Jun 2020, at 22:21, Joao Marcos <[email protected]> wrote: > > >> >> Eu próprio só sei fazer o papel de advogado do diabo! > > Estes dias também recebi da minha sobrinha no WhatsApp uma daqueles > links de Instagram bem populares: > > "Muitas palavras e expressões da nossa língua tem uma origem > preconceituosa, e quando as usamos acabamos reproduzindo o racismo, > mesmo que não seja nossa intenção. Passa pro lado pra descobrir > alguns desses termos e alternativas pra substitui-los no dia a dia!" > https://www.instagram.com/p/CAp9cAJlMm_/?igshid=w7fnrcv5ddep > > Respondi assim a ela: > > %%% > Interessante! > > Alguns comentários: > > - "boçal": surpreendeu-me a ligação com os escravagistas brasileiros! > A palavra já existia, contudo, bem antes de ser sequestrada em terras > tupiniquins: > https://dicionario.priberam.org/bo%C3%A7al > Há até mesmo um significado positivo para a palavra, tal como foi > usada por Bocage: > https://pt.wiktionary.org/wiki/bo%C3%A7al > Talvez não muitos se lembrem mais hoje desta associação mais recente > (a saber, com o africano recém-chegado)? Isto que eu chamo de > "sequestro linguístico" é um fenômeno comum, e afetou particularmente > a Alemanha nazista, por exemplo. > > - "criado-mudo": eu só me dei conta do quão estranha era esta palavra > quando vivi em Portugal e descobri que o termo não existia por lá! Eu > até então achava que o termo brasileiro era uma adaptação de > dumbwaiter: > https://en.wikipedia.org/wiki/Dumbwaiter > (A propósito, ainda falando dos garçons, também achei estranha em > Portugal a ausência de uma palavra de origem latina que inventamos no > Brasil: "cardápio".) > > - "feito nas coxas" > Em Portugal se diz que é "feito em cima dos joelhos", "feito às três > pancadas", ou "atamancado". As expressões não têm, obviamente, a mesma > origem. O curioso é que também se diz que os charutos cubanos são > "feitos nas coxas" das mulheres cubanas, e supostamente isto serviria > para valorizar o produto. > > - "denegrir" > Que judiação! > > - "mulata" > Sobre sermos eternamente reféns da etimologia: > https://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/8216-mulata-8217-veio-de-8216-mula-8217-isso-torna-a-palavra-racista/ > A seguinte alternativa etimológica também trata de mestiçagem (que na > cultura brasileira não é exatamente algo visto como negativo): > https://bahia.ba/entretenimento/historiadora-defende-que-palavra-mulata-nao-vem-de-mula/ > > - "mercado negro": > A acepção racista não parece encontrar suporte etimológico: > https://www.etymonline.com/word/black%20market > > - "lista negra": > Novamente, vale conferir: > https://en.wikipedia.org/wiki/Blacklisting#Origins_of_the_term > > - "humor negro": > Mais uma vez, parece um equívoco associar "negro" com "ruim", e também > não parece haver conexão etimológica clara neste caso: > https://en.wikipedia.org/wiki/Black_comedy#History_and_etymology > Note-se, com referência às três expressões anteriores, que o uso de > "negro" para fazer referência a pessoas de pele preta é razoavelmente > recente. Em Portugal (país também bastante racista), ainda se usa > "preto" (eles alegam que este é o nome da cor; não existe lápis-de-cor > "negro"). > > - "não sou tuas negas" > Nem é preciso comentar... Racista + sexista. > > - "inveja branca" > Confesso que sempre fiz um paralelo disto com a "magia negra" e seu > oposto no espectro das cores. Como todo mundo sabe (hahaha), a inveja > de verdade é um "monstro de olhos verdes": > https://www.sensationalcolor.com/green-with-envy/ > Isto não chega, de todo modo, a ser tão terrível quanto "negro de alma > branca", que eu próprio já vi ser usado por gente que se pensa "muito > branca"... > > - "a coisa tá preta" > Quando eu era pequeno a gente dizia com mais frequência "a coisa tá > russa". Confesso que não fiquei com preconceito com os soviéticos por > causa disso. Mas agora o mundo todo tá "cheio de comunistas", né? > > Nota de pé-de-página: > As línguas têm um monte de palavras cujas associações se perderam ao > longo dos tempos. Basta lembrar da origem da palavra "bárbaro", usada > pelos gregos para designar todos os povos estrangeiros ---por > extensão, gente selvagem e inculta--- que balbuciavam coisas > incompreensíveis como bar-bar-bar, ao invés do grego clássico. Muito > racistas, aqueles gregos! > (Como vingança, talvez, a palavra "gringo", que também tem um > significado depreciativo, vem do espanhol "griego".) > %%% > > Isto tudo pode até ser _urgente_, nestes nossos tempos, mas vai bem > além da Lógica, então é a minha última mensagem sobre isto nesta > lista. Alguém quer acrescentar algo? Teremos para isto um momento > mais _inclusivo_ online, amanhã! > > JM > > -- > Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um > e-mail para [email protected]. > Para ver esta discussão na web, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_Li2cHpAguP21JwmCm008LfyZoxBPedrognRZjBn2VJJeQ%40mail.gmail.com. -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um e-mail para [email protected]. Para ver esta discussão na web, acesse https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/15723B12-AAC5-4106-AFCF-71752F5DE379%40gmail.com.
