Fiz um experimento alguns dias atrás... Estou aprendendo a jogar esse jogo
aqui, quase estritamente lógico, "Kakuro":

https://krazydad.com/play/kakuro/

É parecido com Sudoku, mas tem mais matemática, um pouco de combinatória e
um pouco de aritmética, tudo num nível fundamental, elementar, porém
interessante.

Em cada coluna e em cada linha delimitadas, só podem aparecer os dígitos de
1 a 9, sem repetição, como no Sudoku.

A chave para a resolução dos problemas, em geral, além da 'lógica' que já
usamos no Sudoku, é a decomposição única dos valores em um número
predeterminado k de parcelas.

Por exemplo, o 6 se decompõe de modo único em k = 3 parcelas:

6 = 1 + 2 + 3,

porque não pode haver repetição de dígitos.

O 10 se decompõe de modo único em k = 4 parcelas:

10 = 1 + 2 + 3 + 4,

porque só podemos usar os dígitos de 1 a 9 e não pode haver repetição.

Isso limita bastante o problema geral de particionar números inteiros...
Existe aquele ramo da teoria dos números que estuda partições num sentido
mais geral. Por exemplo, 6 = 4 + 1 + 1 seria uma partição legítima, mas no
Kakuro ela é proibida.

Sendo assim, haveria alguma estrutura por trás, organizando esses números e
suas partições admissíveis no Kakuro?

Observando o comportamento das partições admissíveis, encontrei o seguinte:

Para k = 2, duas parcelas, as decomposições se organizam em pares de
valores:

Decomposição única: (3, 4) e (16, 17)

Note: são pares da forma (antecessor, sucessor) e os extremos e os meios
são complementares em relação a 20 = k × 10 = 2 × 10, isto é,

3 + 17 = 20 (soma dos extremos)
4 + 16 = 20 (soma dos meios)

Duas decomposições: (5, 6) e (14, 15)

Três decomposições: (7, 8) e (12, 13)

Quatro decomposições: (9, 10) e (10, 11).

A mesma análise ou organização dos valores pode ser feita para qualquer
número k admissível de parcelas...

Há muita coisa legal nesses pares de valores, padrões, simetrias. Nosso
cérebro evoluiu de modo a detectar padrões com certa facilidade (alguns se
mostram incorretos).

Por exemplo, o par inferior é sempre formado pelo número triangular T_k,
calculado pela conhecida fórmula:

T_k = [k(k + 1)]/2

Os primeiros números triangulares são, como sabemos, 1, 3, 6, 10, 15...
Representam a soma dos k primeiros números naturais, e formam a menor
combinação válida possível para k parcelas (é um exercício verificar isso).

Então, o par inferior é sempre o triangular T_k e seu sucessor, e o par
superior é o complemento para 20 (no caso k = 2). Isso já dá um algoritmo
para organizar os valores sem precisar anotar nada, fazendo tudo
mentalmente.

Bem. Conversei sobre isso com o ChatGPT, mostrando a ele a tabela de
valores que eu construí por simples inspeção, organizados pelo critério de
quantidade de decomposições para um k fixado, e perguntei a ele se seria
possível sairmos do domínio da combinatória e da aritmética, transportando
o problema para a geometria, já que os pares ordenados e as simetrias
sugerem automaticamente alguma figura geométrica (talvez uma reta
intersectando alguma figura familiar)...

E então aconteceu o seguinte: o ChatGPT liquidou o problema em poucos
minutos. Escreveu tudo de maneira super formal, transformou as propriedades
que eu identifiquei em teoremas, fez as demonstrações, e sugeriu três
interpretações geométrico-algébricas distintas (fez até uns gráficos
razoáveis como primeira aproximação).

Em suma, estragou a brincadeira. Me arrependi de não ter ido até o final
sozinho.

Mas não havia nada errado no que ele escreveu.

Moral da história: por enquanto, a máquina não escolhe sozinha um estilo de
pensar, não possui (ainda) intuição, não detecta sozinha os padrões
relevantes, a menos que seja empurrada numa determinada direção. Mas uma
vez que esse trabalho prévio tenha sido feito, ela pode prestar uma ajuda
excepcionalmente boa para escrever e até demonstrar aquilo que imaginamos.

Mas a parte relevante não é escrever e demonstrar. A parte relevante é o
que vem antes. Matemática não se resume a escrever e demonstrar. Essas
atividades são, a rigor, secundárias, não porque sejam menos importantes do
que imaginar, intuir, prever, mas porque decorrem de nossa necessidade de
comunicar resultados, como diziam Brouwer e seus seguidores. Escrever e
demonstrar é algo até meio mecânico, e justamente por isso pode ser feito
por uma máquina.

Isso nos deixa, por ora, ainda numa posição meio confortável. Mas é também
provável que sejamos artesãos, isto é, praticantes de um ofício restrito,
alarmados com o aparecimento da manufatura e da grande indústria, vendo o
fim do monopólio sobre a arte que praticamos anunciar a ruína de nossas
vidas... (hahaha, final tragicômico).

M.



Em seg., 11 de mai. de 2026 às 13:26, Márcio Palmares <
[email protected]> escreveu:

> Muito legais essas ponderações do João Marcos às ponderações do Chad
> Topaz. :-)
>
> Como começou outra thread, vou deixar aqui de novo os links para o artigo
> do Walter e o artigo do Bessis, caso alguém fique perdido:
>
> Bessis: https://davidbessis.substack.com/p/the-fall-of-the-theorem-economy
>
> Walter: https://revistas.pucsp.br/index.php/circumhc/article/view/55033
>
> O artigo do Walter tem muitos pontos que poderiam/deveriam ser
> desdobrados, é panorâmico... Não consigo abordar a paisagem inteira de uma
> vez. Vou me concentrar em um ponto apenas: a passagem da IA
> simbólico-lógica para a IA estatístico-probabilística, a controvérsia entre
> a hipótese de Putnam sobre os marcianos e a crítica de Judea Pearl à
> correlação sem causalidade (este me parece ser o problema central, pois
> sugere o perigo da emergência de uma "nova" forma de cognição. O problema
> é: será que é de fato nova?).
>
> Sempre que discutimos o que é o pensamento lógico, o pensamento racional,
> sobre como fazemos inferências, fazemos distinção entre o que realmente
> acontece em nosso cérebro e o que é posteriormente descrito sob a forma de
> um argumento válido, por exemplo. Ao resolvermos um problema lógico, como o
> problema dos brincos e das princesas no livro do Cezar Mortari, usamos
> nossa "inteligência", nossa "razão", nossa "intuição": imaginamos,
> ensaiamos, chutamos, adivinhamos, erramos várias vezes primeiro, tentamos
> de novo... Quando finalmente estamos seguros da solução, escrevemos a
> resolução do problema sob a forma de um argumento válido. Mas essas fases
> do pensamento, condensadas sob a forma de proposições numa estrutura não
> são o próprio pensamento dedutivo, não se identificam com o que realmente
> acontece em nossa mente. São uma fase posterior do trabalho, que consiste
> em convencer alguém da resolução que encontramos mostrando os cumes, apenas
> as pontas do iceberg do que realmente fizemos no rascunho.
>
> Todo lógico é suficientemente esperto para não confundir o pensamento
> racional com a reconstrução lógica posterior dos cumes, dos produtos desse
> pensamento.
>
> Matemáticos raramente são espertos assim. E muitos matemáticos gostam de
> confundir o pensamento matemático com a reconstrução escrita dos resultados
> desse pensamento. Algumas pessoas acreditam que a matemática é a própria
> manipulação de símbolos, coincide ou se identifica com a escrita dos
> resultados, ou com a lógica que sustenta o argumento usado na
> demonstração...
>
> Não estou com meu livro em mãos, mas acho que todo mundo já leu aquela
> célebre advertência do Richard Courant no "What is Mathematics" (vou citar
> de memória):
>
> "Uma séria ameaça para a verdadeira vida da ciência aparece contida na
> ideia de que a matemática não seria nada mais do que a mera manipulação de
> símbolos sem conteúdo, ou de afirmações que não sabemos serem verdadeiras
> ou não, como se a matemática fosse apenas um jogo simbólico. Se assim
> fosse, a matemática não poderia interessar a nenhuma pessoa inteligente."
>
> Ele estava se opondo a certos slogans do logicismo e do formalismo, que
> todo mundo conhece.
>
> Por que "séria ameaça para a verdadeira vida da ciência"? O que havia de
> ameaçador no logicismo ou em versões radicais ou muito simplificadas do
> formalismo?
>
> Courant defende nesse mesmo texto, que é de 1941, se não me engano (a
> introdução da obra), o método axiomático moderno: abrir mão da "substância
> última", da "natureza" dos entes matemáticos, em favor de "estrutura e
> relação" (ele é quase profético em antever o surgimento do pensamento
> categorial ou do estruturalismo). Defende que a matemática é um todo
> orgânico, citando Hilbert. Não poderíamos acusá-lo, portanto, de nenhuma
> forma de psicologismo ou "intuicionismo" ingênuos...
>
> Ora, é justamente essa "ameaça para a verdadeira vida da ciência" que está
> nos assombrando agora, com o surgimento dessas máquinas que podem fazer
> algo que, supostamente, somente humanos fariam. Esse assombro começa porque
> aprendemos, infelizmente, a identificar a matemática real ("secreta",
> usando o termo do Bessis) com a forma canônica de exposição dos resultados:
> escrita formal + demonstração de teoremas.
>
> O problema é que as máquinas podem jogar esse jogo formal de manipulação
> de símbolos melhor do que nós.
>
> Então, se a matemática fosse o que as caricaturas do logicismo e do
> formalismo esperariam que ela fosse, o jogo estaria terminado para os
> humanos, mais ou menos no mesmo sentido em que humanos não vencem mais
> programas que jogam xadrez (nem por isso o interesse pelo jogo diminuiu. É
> mais frustrante a existência de um humano praticamente invencível
> --Carlsen-- do que a existência de máquinas invencíveis).
>
> Mas todos nós que já praticamos alguma matemática nova sabemos que aquilo
> que exibimos nos nossos artigos acabados não coincide com o que realmente
> enfrentamos "no rascunho", "secretamente", no laboratório, sujando as mãos:
> erramos diversas vezes, damos chutes, palpites, usamos adivinhação,
> sonhamos coisas, sentimos coisas, temos uma "sensação" de que um caminho
> pode ser mais promissor que o outro, fazemos testes, pensamos
> probabilisticamente...
>
> Probabilisticamente: "esse caminho provavelmente é melhor". Identificamos
> padrões. Nosso cérebro é particularmente adequado para identificar padrões
> (várias dessas identificações são improdutivas, mas somos bons nisso).
>
> E aqui está o tema. O que os LLMs estão mostrando, com probabilidade,
> estatística, é uma *implementação* (diferente, por certo, da química do
> nosso cérebro) do que nós fazemos "no rascunho".
>
> Ou seja, estamos diante do espelho, olhando para nós mesmos, mas o reflexo
> é produzido por uma máquina. Isso o que a máquina faz é uma imitação do que
> nós fazemos organicamente.
>
> Para mim, este é o maior assombro. Fabricamos um espelho onde estamos
> vendo agora que probabilidade, heurística, analogia, que anteriormente eram
> vistas como formas inferiores de raciocínio, produzem conhecimento. Mas
> isto não é muito diferente do que nós fazemos no rascunho.
>
> Voltando ao Richard Courant. Ele começa o livro dizendo (citando mais uma
> vez de memória): matemática tem a ver com vontade ativa, busca de sentido
> estético... Por enquanto, nenhuma máquina acorda pensando: "Hoje vou tentar
> resolver esse problema aqui... Faz tempo que estou com isso na cabeça." A
> própria sugestão do problema pelo Tim Gowers empurra a máquina em
> determinada direção. E as máquinas não parecem preocupadas com sentido de
> beleza, por enquanto.
>
> Ainda temos um pouco de exclusividade biológica.
>
> Mas o fato verdadeiramente espantoso é que as máquinas mostram parte do
> que nós realmente fazemos, no rascunho, secretamente: pensar
> probabilisticamente, detectar padrões em enormes massas de dados (fazemos
> isso automaticamente), e depois escrever uma versão acabada que raramente
> tem alguma coisa a ver com o modo como descobrimos a coisa.
>
> É o velho dilema enfrentado por Arquimedes. Ele sujava as mãos no
> laboratório secreto, usando os indivisíveis de Demócrito para resolver os
> problemas de quadratura. Depois, escrevia no formato canônico aceito em
> Alexandria: usando o método de exaustão para a demonstração, ocultando não
> apenas a gênese, a heurística, mas higienizando o raciocínio, tentando
> banir o infinito atual e os indivisíveis. Hoje sabemos, no entanto, que
> Arquimedes valorizava o seu método de descoberta, a matemática secreta,
> indutiva, experimental...
>
> Não precisamos temer as máquinas, pois elas apenas mostram uma versão
> implementada do que nós realmente somos.
>
> []'s
>
> M.
>
>
>
>
>
>
>
>
>
> Em seg., 11 de mai. de 2026 às 10:32, Joao Marcos <[email protected]>
> escreveu:
>
>> As três perguntas do Tao ("what counts as a proof, what counts as a
>> paper, and what the profession is for") são muito boas, e precisamos
>> realmente refletir sobre elas.
>>
>> Sobre o post do Topaz, eu fico com vontade de dizer muitas coisas,
>> entre as quais:
>>
>> > There isn’t a matching blog post called “ChatGPT 5.5 Pro spent an hour
>> producing a confident, plausible, but subtly wrong proof of a small open
>> problem and I almost believed it.”
>>
>> Podemos trocar isso pela frase
>> “(The human) John Doe spent four years producing a confident,
>> plausible, but subtly wrong proof of a small open problem and I almost
>> believed it.”
>>
>> > Cases like that almost certainly exist, but we don’t see them because
>> people rarely write up failures with the same care.
>>
>> Na área de Matemática praticamente não há literatura (escrita por
>> humanos) sobre falhas. Mas as LLMs, curiosamente, estão ficando cada
>> vez melhores em encontrar e evidenciar falhas nos raciocínios dos
>> humanos!
>>
>> > We don’t know how many similar problems the model would fail on, or how
>> much the success depended on how the problem was presented.
>>
>> Podemos trocar aí "the model" por "the student", ou mais geralmente
>> "the human mathematician".
>>
>> > These are real questions. Any claim about “AI doing research-level
>> mathematics” needs to answer them to be meaningful.
>>
>> Isto provavelmente vale para "any claim about John Doe doing
>> research-level mathematics".
>>
>> > The cost of checking proofs doesn’t get enough attention. In theory,
>> math has an advantage: a careful reader can spot a wrong proof.
>>
>> O folclore anedótico da área de Matemática é de que a maior parte dos
>> papers que se publicam (após revisão por pares) contém erros de várias
>> magnitudes...
>>
>> > That helps protect against mistakes from AI. But checking proofs takes
>> expert time, and that doesn’t scale as quickly as AI can generate new work.
>> If thousands of AI-assisted papers start showing up on arXiv, the main
>> challenge will shift from creating proofs to checking them. The informal
>> trust systems math has relied on may not keep up either.
>>
>> Um dos principais usos dos computadores é justamente na tarefa de
>> *verificação formal* de demonstrações, para diminuir o custo sobre os
>> ombros dos humanos e garantir *segurança*.
>>
>> Uma nova versão do excelente "Mechanizing Proof: Computing, Risk, and
>> Trust", do Donald Mackenzie, seria muito bem-vinda!
>>
>> > Most of the discussion so far has ignored the issue of access.
>>
>> Sim!  E isso vale igualmente para o custo de acesso a grandes
>> universidades, e o custo de pagar um humano para fazer sua formação em
>> pesquisa durante anos a fio, muitas vezes resultando em um output
>> medíocre.
>>
>> > If graduate students use AI to skip the slow process of making mistakes
>> and learning from them, the field might see a short-term boost in
>> productivity but lose the deep expertise needed to guide and check AI’s
>> work.
>>
>> É um argumento muito relevante, mas também se parece muito com alguns
>> argumentos que foram usados quando as calculadoras foram inventadas...
>>
>> Mas um dos grandes desafios parece estar aí: como *educar* humanos em
>> situações em que trapacear é muito mais fácil do que fazer o trabalho
>> duro de aprender?
>>
>> Joao Marcos
>>
>> On Sun, May 10, 2026 at 5:48 PM Gisele Dalva <[email protected]>
>> wrote:
>> >
>> >
>> > Saudações,
>> >
>> > Gostei dessas ponderações sobre as recentes manifestações de Gowers e
>> Tao sobre os chats na matemática:
>> >
>> > Cheap production, scarce judgment — Chad M. Topaz
>> https://www.chadtopaz.com/essays/gowers-response.html
>> https://chadtopaz.com/essays/gowers-response
>> >
>> > Cordial,
>> > G.
>> >
>> > --
>> > LOGICA-L
>> > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
>> Lógica <[email protected]>
>> > ---
>> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos
>> Grupos do Google.
>> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele,
>> envie um e-mail para [email protected].
>> > Para ver esta conversa, acesse
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAOmQKJfTHKHKWwtCLLbzv8Y5tv1L0BWJi%3Dx0c%2BTf2rQNkrstvA%40mail.gmail.com
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>> https://sites.google.com/site/sequiturquodlibet/
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>> LOGICA-L
>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
>> Lógica <[email protected]>
>> ---
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>> dos Grupos do Google.
>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele,
>> envie um e-mail para [email protected].
>> Para ver esta conversa, acesse
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