Lembrei de uma coisa...

O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é gosto,
não se discute.

'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar spoiler,
pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões.

Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o 'Esfera',
do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns aspectos...

No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe destinada a
analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano.

Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um
computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido
invadido pela máquina alienígena.

Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas
faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos.

Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre
fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades
(solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos,
objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente
com este "outro".

Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), os
exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que seja) e
passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este "outro",
que brotou de nossas próprias cabeças.

Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada de
alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos nós,
porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com esse
"outro".

É um tema velho, por isso tão recorrente.

Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da
Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e
abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente
ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o
"espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se
reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não
posso confirmar porque não li).

É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados porque
nos exteriorizamos num "outro".



Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]>
escreveu:

> Oi todos,
>
> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista.
> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre
> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão
> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com
> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, que
> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math Stack
> > Exchange...)
>
> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes
> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava
> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado
> de coisas como isso aqui na mão,
>
>   { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) }
>
> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem
> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da
> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas coisas
> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito
> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido.
>
> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o
> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e
> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque eles
> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra
> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que
> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel",
> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer
> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido
> pros xóvens...
>
> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de
> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João
> Marcos recomendou e que eu não conhecia -
> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>...
> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso
> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez
> vocês tenham recomendações recentes...
>
>   [[]],
>     Eduardo Ochs
>     Psicopata do CEFET
>     https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html
>
>
> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]>
> wrote:
>
>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. Muitos
>> estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e debatendo
>> apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com as
>> máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do Peter
>> Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de perguntas e
>> respostas no Math Stack Exchange...)
>>
>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão
>> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas
>> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17
>> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão
>> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são
>> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no
>> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou
>> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de
>> poder, mais concentração de capital.
>>
>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI de
>> concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma
>> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática".
>>
>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola estar
>> vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter lucros
>> do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas."
>>
>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz
>> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas,
>> assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens,
>> explora sua força de trabalho...
>>
>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo: normalmente,
>> áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos estatais-militares,
>> como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado é o propulsor da
>> ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e influência sobre os
>> governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre 'geopolítica', onde
>> a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a liderança em IA
>> para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a opressão dos
>> chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode vir do governo
>> dos EUA?).
>>
>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim. Tanto
>> quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos... Mas
>> essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a política
>> diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra. Sistemas
>> econômicos mudam, a filosofia fica.
>>
>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São Paulo
>> fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior, uma
>> visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais
>> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava
>> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente,
>> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da
>> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha
>> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica,
>> epistêmica.
>>
>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, divulgado pela
>> Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está correto.
>>
>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando entender o
>> que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se completar. Minha
>> aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para confrontar com
>> 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou coisas do
>> tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma colaboração
>> cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que, agora, a
>> máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas força
>> bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração
>> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática.
>>
>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre
>> comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto.
>>
>> Segue o artigo da Tatiana Roque:
>>
>> -x-x-x-
>>
>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear debate
>> sobre a tecnologia
>>
>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o significado
>> da inteligência humana
>>
>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a história
>> mostra que destino não é inexorável
>>
>> Tatiana Roque
>>
>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência
>> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs
>> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no
>> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das
>> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de
>> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes.
>>
>> ×
>>
>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as idades
>> tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo inusitado.
>>
>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A máquina
>> havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e fazia
>> movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte,
>> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público
>> saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais
>> daquele janeiro de 1738.
>>
>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com
>> pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um
>> carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com
>> aquela aura retrô.
>>
>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho para
>> vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se exaurir.
>> Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e demoiselles. Em
>> nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao contrário, é isso
>> que têm de encantador.
>>
>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta vem
>> de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um
>> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a
>> característica humana mais singular: a inteligência.
>>
>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa
>> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular,
>> propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço
>> da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais
>> urgente ao fim do conflito.
>>
>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos
>> computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo
>> matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo
>> "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor
>> da "inteligência artificial", ele não usava esses termos.
>>
>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da premissa de
>> que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções como por
>> ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas denominações atuais.
>> Olhar o passado com os olhos do presente é anacronismo, vício a ser evitado
>> na prática da história. De fato, Turing queria saber se as máquinas podem
>> pensar, mas formulou a pergunta em termos peculiares, que podem passar
>> despercebidos aos olhares açodados de hoje.
>>
>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso responder
>> à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa questão é
>> difícil demais, e Turing faz um desvio:
>>
>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é
>> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no
>> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas
>> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando
>> sem esperar ser contrariado."
>>
>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado do
>> que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será
>> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que
>> está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na
>> inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o
>> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso
>> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing.
>>
>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. E se
>> estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer que
>> observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de
>> Platão.
>>
>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se estivermos
>> equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio maligno poderia
>> estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades básicas e
>> aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + 3 = 5),
>> poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas talvez seja
>> obra do demônio.
>>
>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de nos
>> convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas.
>>
>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para avaliar a
>> performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as máquinas
>> podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma máquina e uma
>> pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de forma que um
>> júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de onde elas
>> vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as respostas
>> fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente.
>>
>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios do
>> pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se
>> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas.
>> Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o
>> jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de
>> teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à
>> inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso.
>>
>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956,
>> quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou
>> pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética
>> para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor,
>> incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial.
>>
>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não só. O
>> objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da
>> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar
>> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de
>> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela
>> lógica do que pela estatística.
>>
>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para "good
>> old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, a IA
>> simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das técnicas
>> atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na internet.
>>
>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na base da
>> IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder computacional,
>> ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças entre a Gofai e
>> as redes neurais são difíceis de explicar, mas o contraponto ajuda a
>> lembrar que não existe apenas um caminho.
>>
>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação
>> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam
>> aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado.
>>
>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso na
>> simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica ou
>> demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973
>> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos
>> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que
>> as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de
>> 1980.
>>
>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai demorar?
>> Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se trata de
>> um destino inexorável.
>>
>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É normal
>> que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para que
>> essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e
>> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia.
>>
>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas e
>> formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é
>> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de
>> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma
>> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional
>> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses
>> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser
>> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da
>> matemática.
>>
>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso de
>> uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os
>> entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência
>> artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de
>> inteligência.
>>
>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos longe de
>> vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom cientista. À
>> frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta vitoriosa nas
>> olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre resolver e
>> inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da formulação de
>> boas perguntas, não só das respostas certas.
>>
>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as implicações
>> éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma dissociação
>> entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento inteligente.
>> Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o comportamento inteligente
>> não está sendo mobilizado, em toda a sua amplitude, quando a IA executa as
>> tarefas necessárias para resolver problemas, pois estão ausentes a
>> consciência, a perspicácia, a sensibilidade, os insights, a experiência e a
>> sabedoria.
>>
>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções
>> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes
>> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos.
>>
>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi criado um
>> ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem em casa.
>> Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam smart, a
>> TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os veículos
>> possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em dados e
>> mais dados.
>>
>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do mesmo modo
>> como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações reais
>> refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso cérebro
>> apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado "brain
>> rot".
>>
>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa
>> própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um
>> risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma
>> redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então
>> "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado",
>> exatamente como Turing previu.
>>
>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem
>> sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da
>> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que
>> dirigir fosse uma atividade inteligente.
>>
>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de critérios
>> para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência artificial
>> equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe inventar
>> problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a arte e
>> outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes do que
>> de respostas eficazes.
>>
>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito hype.
>> Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os
>> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento
>> e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por
>> esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para
>> incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra
>> que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se
>> fixarmos o bem comum como objetivo.
>>
>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron Acemoglu,
>> prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que os ganhos
>> de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo prazer de
>> automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos defensores
>> mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da mudança
>> tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável.
>>
>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à soberba. Os
>> mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a contribuição
>> humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso importante em
>> algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas poderosas, os
>> humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e achar que tudo é
>> fruto de sua própria genialidade.
>>
>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de confiança
>> irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de humildade
>> epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e ocasionar
>> grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e as
>> prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão.
>>
>> ***
>>
>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós:
>> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela
>> Todavia em junho.
>>
>>
>>
>>
>>
>>
>>
>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]>
>> escreveu:
>>
>>> Márcio Palmares escreveu:
>>> >
>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas,
>>> máquinas, tecnologia.
>>> >
>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções
>>> dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer matemática...
>>> Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E ela pode se
>>> sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma escavadeira
>>> se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata de força
>>> bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: exteriorização de
>>> faculdades humanas.
>>> >
>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente
>>> em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e consciência
>>> (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível construir
>>> máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas (inteligência
>>> matemática), então nós não existiríamos.
>>>
>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>>>
>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>>>
>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
>>> em detrimento do cognitivismo?
>>>
>>>
>>> Gisele Dalva escreveu:
>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns
>>> passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma
>>> prática científica pode ser uma boa atitude.
>>>
>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>>>
>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está, sim,
>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia.
>>>
>>> []s, João Marcos
>>>
>>> --
>>> LOGICA-L
>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
>>> Lógica <[email protected]>
>>> ---
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>> 3DAd_tPDhBxAAO95e_4dOsGNA%40mail.gmail.com
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>> .
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>

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LOGICA-L
Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica 
<[email protected]>
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