Bons dias, colegas. Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto a lista, infelizmente. Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei, online, no final do ano passado. Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente as últimas mensagens. A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais interessante, devo dizer. Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da SBPC a acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda. Eis o enlace: https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7 Saudações,
On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote: > Lembrei de uma coisa... > > O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é > gosto, não se discute. > > 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar > spoiler, pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões. > > Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o > 'Esfera', do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns > aspectos... > > No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe destinada a > analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano. > > Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um > computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido > invadido pela máquina alienígena. > > Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas > faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos. > > Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre > fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades > (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos, > objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente > com este "outro". > > Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), os > exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que seja) e > passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este "outro", > que brotou de nossas próprias cabeças. > > Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada de > alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos nós, > porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com esse > "outro". > > É um tema velho, por isso tão recorrente. > > Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da > Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e > abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente > ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o > "espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se > reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não > posso confirmar porque não li). > > É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados > porque nos exteriorizamos num "outro". > > > > Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]> > escreveu: > >> Oi todos, >> >> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. >> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre >> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão >> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com >> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, que >> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math Stack >> > Exchange...) >> >> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes >> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava >> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado >> de coisas como isso aqui na mão, >> >> { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) } >> >> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem >> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da >> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas coisas >> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito >> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido. >> >> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o >> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e >> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque eles >> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra >> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que >> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel", >> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer >> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido >> pros xóvens... >> >> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de >> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João >> Marcos recomendou e que eu não conhecia - >> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>... >> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso >> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez >> vocês tenham recomendações recentes... >> >> [[]], >> Eduardo Ochs >> Psicopata do CEFET >> https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html >> >> >> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]> >> wrote: >> >>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. Muitos >>> estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e debatendo >>> apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com as >>> máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do Peter >>> Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de perguntas e >>> respostas no Math Stack Exchange...) >>> >>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão >>> puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas >>> prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17 >>> anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão >>> significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são >>> mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no >>> capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou >>> pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de >>> poder, mais concentração de capital. >>> >>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI de >>> concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma >>> verdadeira preocupação com a pesquisa matemática". >>> >>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola estar >>> vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter lucros >>> do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas." >>> >>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz >>> publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas, >>> assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens, >>> explora sua força de trabalho... >>> >>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo: normalmente, >>> áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos estatais-militares, >>> como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado é o propulsor da >>> ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e influência sobre os >>> governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre 'geopolítica', onde >>> a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a liderança em IA >>> para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a opressão dos >>> chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode vir do governo >>> dos EUA?). >>> >>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim. >>> Tanto quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos... >>> Mas essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a >>> política diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra. >>> Sistemas econômicos mudam, a filosofia fica. >>> >>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São Paulo >>> fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior, uma >>> visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais >>> 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava >>> terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente, >>> são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da >>> Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha >>> opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica, >>> epistêmica. >>> >>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, divulgado >>> pela Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está correto. >>> >>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando entender o >>> que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se completar. Minha >>> aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para confrontar com >>> 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou coisas do >>> tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma colaboração >>> cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que, agora, a >>> máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas força >>> bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração >>> provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática. >>> >>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre >>> comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto. >>> >>> Segue o artigo da Tatiana Roque: >>> >>> -x-x-x- >>> >>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear debate >>> sobre a tecnologia >>> >>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o significado >>> da inteligência humana >>> >>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a história >>> mostra que destino não é inexorável >>> >>> Tatiana Roque >>> >>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência >>> artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs >>> que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no >>> final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das >>> máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de >>> desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes. >>> >>> × >>> >>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as idades >>> tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo inusitado. >>> >>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A máquina >>> havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e fazia >>> movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte, >>> escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público >>> saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais >>> daquele janeiro de 1738. >>> >>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com >>> pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um >>> carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com >>> aquela aura retrô. >>> >>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho para >>> vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se exaurir. >>> Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e demoiselles. Em >>> nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao contrário, é isso >>> que têm de encantador. >>> >>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta vem >>> de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um >>> músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a >>> característica humana mais singular: a inteligência. >>> >>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa >>> faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular, >>> propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço >>> da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais >>> urgente ao fim do conflito. >>> >>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos >>> computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo >>> matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo >>> "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor >>> da "inteligência artificial", ele não usava esses termos. >>> >>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da premissa de >>> que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções como por >>> ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas denominações atuais. >>> Olhar o passado com os olhos do presente é anacronismo, vício a ser evitado >>> na prática da história. De fato, Turing queria saber se as máquinas podem >>> pensar, mas formulou a pergunta em termos peculiares, que podem passar >>> despercebidos aos olhares açodados de hoje. >>> >>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso responder >>> à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa questão é >>> difícil demais, e Turing faz um desvio: >>> >>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é >>> insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no >>> final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas >>> instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando >>> sem esperar ser contrariado." >>> >>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado do >>> que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será >>> possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que >>> está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na >>> inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o >>> exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso >>> mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing. >>> >>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. E se >>> estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer que >>> observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de >>> Platão. >>> >>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se estivermos >>> equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio maligno poderia >>> estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades básicas e >>> aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + 3 = 5), >>> poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas talvez seja >>> obra do demônio. >>> >>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de nos >>> convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas. >>> >>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para avaliar >>> a performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as máquinas >>> podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma máquina e uma >>> pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de forma que um >>> júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de onde elas >>> vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as respostas >>> fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente. >>> >>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios do >>> pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se >>> uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas. >>> Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o >>> jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de >>> teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à >>> inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso. >>> >>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956, >>> quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou >>> pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética >>> para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor, >>> incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial. >>> >>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não só. >>> O objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da >>> inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar >>> uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de >>> inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela >>> lógica do que pela estatística. >>> >>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para "good >>> old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, a IA >>> simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das técnicas >>> atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na internet. >>> >>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na base da >>> IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder computacional, >>> ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças entre a Gofai e >>> as redes neurais são difíceis de explicar, mas o contraponto ajuda a >>> lembrar que não existe apenas um caminho. >>> >>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação >>> intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam >>> aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado. >>> >>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso na >>> simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica ou >>> demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973 >>> foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos >>> usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que >>> as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de >>> 1980. >>> >>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai >>> demorar? Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se >>> trata de um destino inexorável. >>> >>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É >>> normal que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para >>> que essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e >>> bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia. >>> >>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas e >>> formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é >>> excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de >>> resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma >>> progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional >>> não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses >>> problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser >>> aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da >>> matemática. >>> >>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso de >>> uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os >>> entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência >>> artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de >>> inteligência. >>> >>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos longe de >>> vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom cientista. À >>> frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta vitoriosa nas >>> olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre resolver e >>> inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da formulação de >>> boas perguntas, não só das respostas certas. >>> >>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as implicações >>> éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma dissociação >>> entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento inteligente. >>> Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o comportamento inteligente >>> não está sendo mobilizado, em toda a sua amplitude, quando a IA executa as >>> tarefas necessárias para resolver problemas, pois estão ausentes a >>> consciência, a perspicácia, a sensibilidade, os insights, a experiência e a >>> sabedoria. >>> >>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções >>> convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes >>> quantidades de dados produzidos pelos seres humanos. >>> >>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi criado um >>> ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem em casa. >>> Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam smart, a >>> TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os veículos >>> possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em dados e >>> mais dados. >>> >>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do mesmo >>> modo como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações reais >>> refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso cérebro >>> apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado "brain >>> rot". >>> >>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa >>> própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um >>> risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma >>> redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então >>> "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado", >>> exatamente como Turing previu. >>> >>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem >>> sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da >>> inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que >>> dirigir fosse uma atividade inteligente. >>> >>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de critérios >>> para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência artificial >>> equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe inventar >>> problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a arte e >>> outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes do que >>> de respostas eficazes. >>> >>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito hype. >>> Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os >>> impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento >>> e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por >>> esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para >>> incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra >>> que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se >>> fixarmos o bem comum como objetivo. >>> >>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron Acemoglu, >>> prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que os ganhos >>> de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo prazer de >>> automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos defensores >>> mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da mudança >>> tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável. >>> >>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à soberba. Os >>> mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a contribuição >>> humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso importante em >>> algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas poderosas, os >>> humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e achar que tudo é >>> fruto de sua própria genialidade. >>> >>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de confiança >>> irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de humildade >>> epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e ocasionar >>> grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e as >>> prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão. >>> >>> *** >>> >>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós: >>> Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela >>> Todavia em junho. >>> >>> >>> >>> >>> >>> >>> >>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]> >>> escreveu: >>> >>>> Márcio Palmares escreveu: >>>> > >>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas, >>>> máquinas, tecnologia. >>>> > >>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções >>>> dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer matemática... >>>> Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E ela pode se >>>> sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma escavadeira >>>> se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata de força >>>> bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: exteriorização de >>>> faculdades humanas. >>>> > >>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente >>>> em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e consciência >>>> (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível construir >>>> máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas (inteligência >>>> matemática), então nós não existiríamos. >>>> >>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das >>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo: >>>> >>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence >>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5 >>>> >>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo, >>>> em detrimento do cognitivismo? >>>> >>>> >>>> Gisele Dalva escreveu: >>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns >>>> passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma >>>> prática científica pode ser uma boa atitude. >>>> >>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à >>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais. >>>> >>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como >>>> fazíamos outrora. E isso me faz recordar o clássico artigo >>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da >>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas >>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of >>>> various kinds of search". Pois a coisa está funcionando, e está, sim, >>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das >>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades >>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia. >>>> >>>> []s, João Marcos >>>> >>>> -- >>>> LOGICA-L >>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >>>> Lógica <[email protected]> >>>> --- >>>> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo >>>> "LOGICA-L" dos Grupos do Google. >>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >>>> envie um e-mail para [email protected]. >>>> Para ver esta conversa, acesse >>>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_Lj4d_L0%3DMr_ai9UbNhoxinqJ4KSyJwsa_6U_jBM9bMVEg%40mail.gmail.com >>>> . >>>> >>> -- >>> LOGICA-L >>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >>> Lógica <[email protected]> >>> --- >>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos >>> Grupos do Google. >>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >>> envie um e-mail para [email protected]. >>> Para ver esta conversa, acesse >>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAA_hCxXKfspLgGUK1r%2B_AujcvM%3DAd_tPDhBxAAO95e_4dOsGNA%40mail.gmail.com >>> >>> <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAA_hCxXKfspLgGUK1r%2B_AujcvM%3DAd_tPDhBxAAO95e_4dOsGNA%40mail.gmail.com?utm_medium=email&utm_source=footer> >>> . >>> >> -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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