Saudações, pessoal,

João Marcos, eu não disse que não vejo potencial para mudancas radicais e
profundas; disse que me parece filosoficamente plausível, antes de
defendê-las (como definitivas, inevitáveis, positivas, o que for) ou
atacá-las (como imposições do grande capital, como evitáveis, negativas,
igualmente o que for), buscar precisão na descrição dos fenômenos em
questão e no uso dos conceitos mobilizados nessas descrições. Por isso
falei que ser matemático não garante "filosoficidade" ao que se diz sobre
sua prática como matemático (ou lógico, *for what matters*); cada
manifestação de um matemático sobre esses desenvolvimentos com LLMs contem
conceitos como *prova*, *evidência*, *descoberta*, *intuição*, etc.. cujo
sentido não é o mesmo, o que faz com que a "conversa" fique confusa. E é
para isso, creio, que estamos, as filósofas, na conversa: para mapear esses
usos dos conceitos e tentar fazer distinções que nos ajudem a compreender
melhor os fenômenos (e nossas narrativas sobre eles). Eu gosto de fazer
perguntas meio tolas, tipo: quem é o "nós" em "nunca mais voltaremos a
fazer busca..."? Quais as implicações de uma eventual diferenciação mais
finas do "nós" em questão (em termos de pedagogia da matemática, por
exemplo)?

Considero fascinante o tema das implicações antropológicas do avanço das
"IAs" sobre todas as dimensões de nossas vidas, por certo, mas meu ponto
aqui é muito mais prosaico: do que estamos falando mesmo?

Um abraço,
G.

On Thu, May 21, 2026 at 10:52 PM Joao Marcos <[email protected]> wrote:

> Márcio Palmares escreveu:
> >
> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas, máquinas,
> tecnologia.
> >
> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções
> dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer matemática...
> Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E ela pode se
> sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma escavadeira
> se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata de força
> bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: exteriorização de
> faculdades humanas.
> >
> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente em
> um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e consciência
> (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível construir
> máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas (inteligência
> matemática), então nós não existiríamos.
>
> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>
> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>
> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
> em detrimento do cognitivismo?
>
>
> Gisele Dalva escreveu:
> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns
> passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma
> prática científica pode ser uma boa atitude.
>
> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>
> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está, sim,
> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia.
>
> []s, João Marcos
>
> --
> LOGICA-L
> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
> Lógica <[email protected]>
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> dos Grupos do Google.
> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie
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> Para ver esta conversa, acesse
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