Ois,

Duas sugestões de leitura:

  1) Este artigo curto - "Mandating AI drills: a contrarian cure for
  India's English inequality", do Arijit Ghosh,

    https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2 (2025)
    https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02619-w

  que tem este trecho:

    One student, who was at first embarrassed by her mistake-filled
    chats, told me the AI's patience helped her build confidence in a
    way my red ink on her papers never could

  2) O livro "Young Children Reinvent Arithmetic: Implications of
  Piaget's Theory", da Constance Kazuko Kamii, que é bem fácil de
  baixar dos lugares óbvios - principalmente o capítulo 3 dele, "3.
  Autonomy: The Aim of Education for Piaget".

Parece que o pessoal de Pedagogia tem uma noção bem detalhada do que é
"autonomia" e de como as pessoas a desenvolvem... e a gente desenvolve
autonomia relativamente rápido interagindo com humanos e aprendendo a
fazer boas boas perguntas e bons comentários, mas a minha impressão,
pela minha convivência com os alunos zumbis daqui, é que interagir
principalmente com IAs tem resultados catastróficos...

  [[]],
    Eduardo


On Sat, 23 May 2026 at 16:03, Márcio Palmares <[email protected]>
wrote:

> Boa tarde, pessoal!
>
> Uma vantagem da discussão ou interlocução com as máquinas, e que está
> empurrando os estudantes em massa na direção dos LLMs é que uma máquina
> nunca perde a paciência com o usuário, nunca desmerece suas dúvidas, nunca
> se coloca numa posição superior... É um exercício bacana para nós tentarmos
> discutir mais ou menos num padrão assim, de modo que o debate seja
> instrutivo para todos... Se não fizermos esse esforço, a interlocução entre
> humanos vai continuar diminuindo.
>
> Dito isto, eu gosto de debates polêmicos, é onde me sinto à vontade. E
> nunca me irrito com uma posição oposta à minha, porque no ambiente de luta
> política e ideológica onde cresci as discussões sempre foram muito mais
> pesadas e geralmente com consequências sérias no dia seguinte...
>
> Bem. A matemática sempre foi um esporte de elite (metaforicamente
> falando). São poucos os estudantes que conseguem cursar um bacharelado,
> depois mestrado e doutorado em matemática. Um número ainda menor chega aos
> postos nas universidades, como professores, ou são empregados em institutos
> de pesquisa ou empresas. Tenho um amigo que fez doutorado, trabalhou em
> duas temporadas como professor substituto na UFPR, é um sujeito
> excepcional, mas depois não conseguiu mais emprego. Passou bastante tempo
> desempregado e eu já o vi vendendo móveis e o carro no Facebook.
>
> Convenhamos: matemática profissional é para poucos.
>
> De modo que quando chegamos ao topo, nas universidades ou institutos como
> o IMPA, é como se tivéssemos vencido uma corrida dificílima pela
> sobrevivência, por uma "posição". E é natural querermos preservar esse
> domínio conquistado.
>
> Surge então uma máquina controlada pelo capital privado, fora do circuito
> estado/universidade pública, capaz de, aparentemente, fazer matemática de
> alto nível e isso parece deslocar o financiamento da pesquisa.
>
> E então descobrimos que o capitalismo existe. Que nossas sólidas posições
> acadêmicas podem se desmanchar no ar se perdermos o financiamento de nossos
> projetos de pesquisa, de nossos programas de pós-graduação.
>
> Acho que daí vem a nossa reação conservadora... Estamos meio ameaçados de
> extinção... Somos como artesãos que mantiveram o monopólio de uma prática
> em nossas corporações, exigindo rituais dificílimos de passagem para a
> concessão de títulos, vendo a grande indústria mecanizar nossa atividade e
> retirar nossa exclusividade.
>
> Agora, um porém: Bolsonaro ou Milei são mais ameaçadores para a pesquisa
> básica e para as universidades públicas do que o redirecionamento do fluxo
> de capital, que está sendo absorvido pelas grandes corporações de IA.
>
> Outra: será que realmente conseguiríamos separar o financiamento da
> pesquisa dos interesses do capital? Me parece que toda a história do
> nascimento da ciência moderna entraria como um capítulo da transformação do
> capital comercial em industrial. A exploração das colônias mandava no fluxo
> de dinheiro, que mandava nas navegações, que mandava na pesquisa
> científica. É difícil ver a ciência sendo produzida independentemente dos
> interesses imediatos do capitalismo.
>
> Agora, o problema filosófico: uma máquina realmente conseguiu produzir
> matemática de ponta, inédita, relevante?
>
> Se sim, uma importante transformação ocorreu, e ela nos obriga a
> reavaliarmos o que entendemos por inteligência matemática, criatividade
> matemática.
>
> Ao meu ver, o Tim Gowers tem razão. Será que, agora, ainda somos capazes
> de dizer que há algo no pensamento matemático humano que não possa ser
> feito por máquinas? É difícil sustentar essa tese sem metafísica, sem uma
> posição que, coerentemente defendida nos levaria a Tomás de Aquino. E é
> difícil porque uma montanha de evidência empírica está se acumulando contra
> ela.
>
> E para quem quiser começar agora a lutar contra o capitalismo, nós que
> estamos nesse ofício há muito tempo só temos a dizer: sejam bem-vindos!
> Antes tarde do que nunca.
>
> Abraços!
>
> M.
>
>
>
>
>
>
>
>
>
> Em sábado, 23 de maio de 2026, Gisele Dalva <[email protected]>
> escreveu:
>
>> Olá,
>>
>> Não acho que essa troca de mensagens tenha nada de polêmico: estamos, em
>> modo *free ride*, dando opiniões acerca de coisas sobre as quais
>> sabemos, uns mais outros menos. Naturalmente, portanto, a "conversa" tende
>> a ser confusa. O que custo a admitir é que a frase que eu destaquei (e o
>> fato de eu a ter destacado) tenha sido lida como uma espécie de ataque
>> contra um espantalho; tampouco me soa plausível a analogia com a Coca-Cola
>> vendendo água para contestar a plausibilidade da frase. Do fato de que
>> empresas visam lucro ao anunciar seus produtos não se segue que isso seja
>> irrelevante na discussão sobre o modo como o produto é produzido, como suas
>> virtudes anunciadas e quais os impactos disso para as práticas que incluem
>> o uso de tais produtos.
>>
>> Mas hoje estou cansada para temas de introdução à lógica.
>>
>> *À tout,*
>> G.
>>
>> On Sat, May 23, 2026 at 2:57 PM Gisele Dalva <[email protected]>
>> wrote:
>>
>>> Saudações, pessoal,
>>>
>>> João Marcos, eu não disse que não vejo potencial para mudancas radicais
>>> e profundas; disse que me parece filosoficamente plausível, antes de
>>> defendê-las (como definitivas, inevitáveis, positivas, o que for) ou
>>> atacá-las (como imposições do grande capital, como evitáveis, negativas,
>>> igualmente o que for), buscar precisão na descrição dos fenômenos em
>>> questão e no uso dos conceitos mobilizados nessas descrições. Por isso
>>> falei que ser matemático não garante "filosoficidade" ao que se diz sobre
>>> sua prática como matemático (ou lógico, *for what matters*); cada
>>> manifestação de um matemático sobre esses desenvolvimentos com LLMs contem
>>> conceitos como *prova*, *evidência*, *descoberta*, *intuição*, etc..
>>> cujo sentido não é o mesmo, o que faz com que a "conversa" fique confusa. E
>>> é para isso, creio, que estamos, as filósofas, na conversa: para mapear
>>> esses usos dos conceitos e tentar fazer distinções que nos ajudem a
>>> compreender melhor os fenômenos (e nossas narrativas sobre eles). Eu gosto
>>> de fazer perguntas meio tolas, tipo: quem é o "nós" em "nunca mais
>>> voltaremos a fazer busca..."? Quais as implicações de uma eventual
>>> diferenciação mais finas do "nós" em questão (em termos de pedagogia da
>>> matemática, por exemplo)?
>>>
>>> Considero fascinante o tema das implicações antropológicas do avanço das
>>> "IAs" sobre todas as dimensões de nossas vidas, por certo, mas meu ponto
>>> aqui é muito mais prosaico: do que estamos falando mesmo?
>>>
>>> Um abraço,
>>> G.
>>>
>>> On Thu, May 21, 2026 at 10:52 PM Joao Marcos <[email protected]> wrote:
>>>
>>>> Márcio Palmares escreveu:
>>>> >
>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas,
>>>> máquinas, tecnologia.
>>>> >
>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas porções
>>>> dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer matemática...
>>>> Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E ela pode se
>>>> sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma escavadeira
>>>> se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata de força
>>>> bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: exteriorização de
>>>> faculdades humanas.
>>>> >
>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é surpreendente
>>>> em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida e consciência
>>>> (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível construir
>>>> máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas (inteligência
>>>> matemática), então nós não existiríamos.
>>>>
>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das
>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo:
>>>>
>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence
>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5
>>>>
>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo,
>>>> em detrimento do cognitivismo?
>>>>
>>>>
>>>> Gisele Dalva escreveu:
>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar uns
>>>> passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma
>>>> prática científica pode ser uma boa atitude.
>>>>
>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à
>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais.
>>>>
>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como
>>>> fazíamos outrora.  E isso me faz recordar o clássico artigo
>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da
>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas
>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of
>>>> various kinds of search".  Pois a coisa está funcionando, e está, sim,
>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das
>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades
>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante parcimônia.
>>>>
>>>> []s, João Marcos
>>>>
>>>> --
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>>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
>>>> Lógica <[email protected]>
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