Colegas, respondo apenas a um ponto aqui levantado pelo Walter. <<as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus resultados geraram bens comuns da humanidade, por bem ou até por mal.
A IA rompe com esse padrão >> Talvez eu tenha entendido mal, mas devo dizer q não posso concordar com a afirmação a respeito das grandes revoluções Científicas. Há bibliotecas sobre o tema da agenda burguesa capitalista sem a qual sequer a física newtoniana existiria. Basta pensar em Galileo. Além disso, é impossível pensar o nascimento da ciência e da tecnologia modernas separadamente da empresa colonialista. A não ser q a separação entre teoria e prática seja de um positivismo peircista, devo reconhecer. Copérnico podia estar preocupado com a verdade de Deus, mas jamais haveria preocupação com o calendário da Páscoa se a necessidade mais precisão na cronometragem não tivesse surgido com porque era necessário navegar por mares nunca dantes navegados. A Igreja nunca foi ingênua e a teologia se preocupa menos com o discurso divino do q com a maneira como os homens o usam. Copérnico podia não achar, mas estava a serviço de instituições econômica e socialmente interessadas no lucro. Sugiro a leitura dos capítulos historicos do *Capital, *sobre a formação da cooperação, da manufatura e da maquinaria, para entender o q era a Igreja em decadência já no séc. XIII. Além disso, se avançarmos um pouco no tempo e pensarmos na consecução do programa cartesiano por Newton, temos de reconhecer q Newton, na verdade, "era o mais proeminente matemático de um grupo de praticantes da matemática, professores, fabricantes de instrumentos, cartógrafos, astrônomos e inventores que formavam a base de seu trabalho", nas palavras de Ruy Gama. E eis aí a Sociedade mercantilista e o imperialismo inglês em expansão (como queria Francis Bacon): o q seria da cosmologia de Newton se não fosse o problema da longitude das marés? Problema aliás tb para Galileo e Huygens. Sem falar na hélice e nos projéteis. E os relógios. Etc. A Royal Society não era nem Cambridge nem Oxford, vivia às mínguas e buscava financiamento com qualquer um q pagasse. E a Companhia das Índias Ocidentais pagou bastante coisa. Ou seja: há muito mais entre o céu e a terra do q supõe a vã filosofia, ou a van da filosofia. Abraços. Cassiano Terra Rodrigues Prof. Dr. de Filosofia - IEF-H-ITA Presidente da Sociedade Brasileira de Lógica - SBL Rua Tenente Brigadeiro do ar Paulo Victor da Silva, F0-206 Campus do DCTA São José dos Campos São Paulo, Brasil CEP: 12228-463 Tel. (+55) 12 3305 8438 -- lealdade, humildade, procedimento Em sáb., 23 de mai. de 2026, 13:39, Walter Carnielli <[email protected]> escreveu: > Bon dias, > > acho muito bom que o debate continue! > > Existe um ponto central filosoficamente muito importante e esquecido > no caso das IAS: > as grandes revoluções científicas foram predominantemente financiadas > por instituições públicas, eclesiásticas ou filantrópicas, e seus > resultados > geraram bens comuns da humanidade, por bem ou até por mal. > > A IA rompe com esse padrão — não nas ideias (que continuam sendo > algoritmos, protocolos, etc), mas no controle, propriedade e > direcionamento > do desenvolvimento tecnológico. É uma questão que, penso eu, merece > debate público sério. Ninguém está falando sobre isso. > > O negócio agora são aplicações imediatas, comerciais, divertidas- nada > na direção da ciência básica. Isso está levando a um declínio no apoio > à pesquisa > fundamental, sem contar o declínio intelectual dos usuários em geral. > > A escala do financiamento privado é sem precedentes históricos, com > modelos, dados, e arquiteturas todos (ou na maioria) proprietários, > ao contrário das revoluções anteriores onde o conhecimento circulava > livremente. > > Vejamos: > > - Revolução Copernicana e mecânica clássica > > Copérnico, Galileu, Kepler e Newton foram financiados por > universidades, igrejas e patronos nobres, nunca por empresas > comerciais. > > – A eletricidade nasceu dos experimentos Michael Faraday e da teoria > de James Maxwell, ambos ligados a instituições acadêmicas e sociedades > científicas, > sem financiamento empresarial direto. > > --O caso da mecanica quântica: Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrödinger > trabalhavam em universidades europeias financiadas pelo Estado. Havia > bolsas de doutorado dr fundações como Rockefeller e Guggenheim . Mas > não eram **encomendas**. Eram bolsas de estudo. > > – A internet foi desenvolvida com recursos do DARPA (Defense Advanced > Research Projects Agency) do Departamento de Defesa dos EUA e da NSF, > (Nat. Sc. Foundation) com base em pesquisa do MIT, UCLA, etc. É um > produto essencialmente público (e militar). Mas não empresarial. > > Eu acho isso uma grande diferença, que formata todo o resto da > discussão: o conhecimento escapando das. > mãos dos cientistas, acadêmicos, pensadores, para as mãos do capital. > > Abraços, > Walter > > > > > Em sáb., 23 de mai. de 2026 às 11:22, Cassiano Terra Rodrigues > <[email protected]> escreveu: > > > > Bons dias, colegas. > > Posso estar um pouco atrasado na conversa, não tenho frequentado tanto a > lista, infelizmente. > > Permitam-me divulgar uma mesa sobre IA e Ética de que participei, > online, no final do ano passado. > > Creio que há ressonâncias com o que aqui se discutiu, principalmente as > últimas mensagens. > > A minha apresentação é a primeira, mas não necessariamente a mais > interessante, devo dizer. > > Pretendo reelaborar a fala para a conferência da SBL na 78ª reunião da > SBPC a acontecer em julho, em Niteroi. Assim, toda sugestão é bem vinda. > > Eis o enlace: > https://www.youtube.com/live/dM_c_M33bCs?si=EpwpWihC5eFYJdx7 > > Saudações, > > > > > > On Friday, May 22, 2026 at 9:43:54 AM UTC-3 marciopalmares wrote: > >> > >> Lembrei de uma coisa... > >> > >> O Adolfo disse que não gosta de ficção científica, tudo bem. Gosto é > gosto, não se discute. > >> > >> 'Solaris' foi um dos melhores livros que li na vida... Não vou dar > spoiler, pois pode haver alguém jovem aqui, acompanhando as discussões. > >> > >> Outro que gostei muito quando li, acho que com uns 15 anos, foi o > 'Esfera', do Michael Crichton. Este livro lembra o 'Solaris' em alguns > aspectos... > >> > >> No 'Esfera' um matemático ocupa um papel central em uma equipe > destinada a analisar uma nave alienígena encontrada no fundo do oceano. > >> > >> Um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores ocorre quando um > computador usado pela equipe adquire 'consciência', parece ter sido > invadido pela máquina alienígena. > >> > >> Nos dois casos é explorado o problema da exteriorização de nossas > faculdades subjetivas: inteligência, razão, consciência, sentimentos. > >> > >> Este tema é recorrente na literatura porque é realmente o que sempre > fizemos, desde o princípio: reunimos todas as nossas principais qualidades > (solidariedade, generosidade, amor, compaixão, bondade...), exteriorizamos, > objetivamos em um "outro" (deuses) e passamos a nos relacionar mentalmente > com este "outro". > >> > >> Reunimos nossos piores atributos coletivos (violência, egoísmo...), os > exteriorizamos, objetificamos em um "outro" (o mal, demônios, o que seja) e > passamos a acreditar que estamos de algum modo subjugados por este "outro", > que brotou de nossas próprias cabeças. > >> > >> Agora, conseguimos fabricar máquinas que fazem matemática sofisticada > de alto nível, inédita. É uma exteriorização de nossa criatividade. Somos > nós, porém exteriorizados, objetificados num "outro". Nos relacionamos com > esse "outro". > >> > >> É um tema velho, por isso tão recorrente. > >> > >> Não vou fingir aqui que li Hegel. Comprei essa edição em português da > Vozes, do "Ciência da Lógica" em dois volumes... Já comecei a ler e > abandonei diversas vezes. Acho tremendamente difícil, praticamente > ilegível. Mas alguns comentadores dizem que Hegel acreditava que o > "espírito humano" se exterioriza na História, em instituições... e então se > reconhece nelas. É uma boa ideia, eu acho (se for mesmo o que ele diz, não > posso confirmar porque não li). > >> > >> É isso o que estamos fazendo com essas máquinas: estamos assombrados > porque nos exteriorizamos num "outro". > >> > >> > >> > >> Em sexta-feira, 22 de maio de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]> > escreveu: > >>> > >>> Oi todos, > >>> > >>> > Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. > >>> > Muitos estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre > >>> > pessoas e debatendo apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão > >>> > preferindo conversar com as máquinas do que a interlocução com > >>> > humanos. (Acho que li no blog do Peter Smith, não tenho certeza, que > >>> > houve uma diminuição no fluxo de perguntas e respostas no Math Stack > >>> > Exchange...) > >>> > >>> Em 2025.2 eu tive uma turma em que uns 80% dos alunos eram estudantes > >>> de Computação de 2o e 3o período que eram assombrações... eu passava > >>> umas atividades de grupo em que eles tinham que calcular o resultado > >>> de coisas como isso aqui na mão, > >>> > >>> { (x,y) | x∈{-2,...,2}, y∈{-2,...,2}, y=sqrt(1-x^2) } > >>> > >>> e nos grupos de assombrações os alunos nem discutiam entre si e nem > >>> tentavam "pensar no papel" - eles dividiam os 50 exercícios da > >>> atividade entre as 5 pessoas de cada grupo, perguntavam algumas coisas > >>> pro ChatGPT, e pronto: eles tinham feito o exercício "do melhor jeito > >>> possível", e tinham chegado nos resultados bem rápido. > >>> > >>> Pra gente é bem claro que o "melhor jeito possível" de fazer o > >>> exercício depende da métrica, e que tem várias métricas diferentes, e > >>> que a métrica que esses alunos estavam usando era péssima, porque eles > >>> não aprenderam quase nada e não treinaram quase nada. Só que pra > >>> explicar pra eles quais são as métricas "melhores" a gente teria que > >>> ter boas explicações do como funcionam coisas como "pensar no papel", > >>> "aprender", "treinar até ficar fácil", "fazer boas perguntas", "fazer > >>> perguntas que sejam úteis pros outros", etc, que fazem pouco sentido > >>> pros xóvens... > >>> > >>> Alguém tem material sobre isso pra me recomendar? Eu acabei de > >>> baixar e ler uns 10 artigos curtos da "AI & Society", que o João > >>> Marcos recomendou e que eu não conhecia - > >>> <https://link.springer.com/journal/146/volumes-and-issues/41-2>... > >>> eu até tenho um monte de livros e artigos sobre isso que eu posso > >>> mandar pra quem quiser, mas são todos bem mais antigos, e talvez > >>> vocês tenham recomendações recentes... > >>> > >>> [[]], > >>> Eduardo Ochs > >>> Psicopata do CEFET > >>> https://anggtwu.net/2026-alguns-motivos-bel.html > >>> > >>> > >>> On Fri, 22 May 2026 at 08:29, Márcio Palmares <[email protected]> > wrote: > >>>> > >>>> Que bom que ainda temos esses debates polêmicos aqui na lista. Muitos > estudantes estão migrando dos fóruns de discussão entre pessoas e debatendo > apenas com o ChatGPT, Claude, etc. Estão preferindo conversar com as > máquinas do que a interlocução com humanos. (Acho que li no blog do Peter > Smith, não tenho certeza, que houve uma diminuição no fluxo de perguntas e > respostas no Math Stack Exchange...) > >>>> > >>>> Eu separo a dimensão sociológica, política, econômica, da dimensão > puramente teórica, matemática e filosófica. Acho que misturar as coisas > prejudica nossa compreensão. Sou comunista de carteirinha, desde os 17 > anos. Poderia discutir o aspecto sociológico também, mas não é tão > significativo, pois não tem nada de novo. Todas as tecnologias são > mercadorias. Na verdade, todo trabalho humano assume a forma mercadoria no > capitalismo. Toda tecnologia é explorada por corporações grandes ou > pequenas com o objetivo exclusivo de conseguir lucro, mais concentração de > poder, mais concentração de capital. > >>>> > >>>> "Parece que o resultado em questão se deve mais ao desejo da OpenAI > de concorrer com a Antrophic --publicidade, portanto-- do que de uma > verdadeira preocupação com a pesquisa matemática". > >>>> > >>>> Este contraponto é como dizer: "Parece que o fato de a Coca-Cola > estar vendendo água mineral se deve mais ao desejo de a empresa de obter > lucros do que uma verdadeira preocupação com a hidratação das pessoas." > >>>> > >>>> É um ataque contra um espantalho. Toda empresa busca lucro, faz > publicidade, vende sua mercadoria, concorre no mercado com outras empresas, > assedia o governo dos países onde está instalada para ter vantagens, > explora sua força de trabalho... > >>>> > >>>> Não há novidade alguma aqui. Talvez um aspecto meio novo: > normalmente, áreas de ponta em tecnologia estão ligadas a complexos > estatais-militares, como no caso da energia atômica. Aqui um setor privado > é o propulsor da ferramenta, e vem adquirindo cada vez mais poder e > influência sobre os governos (veja-se o 'artigo' recente da Anthropic sobre > 'geopolítica', onde a empresa prevê um apocalipse caso o 'ocidente' perca a > liderança em IA para a China. Realmente a Anthropic está preocupada com a > opressão dos chineses? Ou está de olho no fluxo de investimentos que pode > vir do governo dos EUA?). > >>>> > >>>> A IA na forma atual é um problema humano, ambiental? Claro que sim. > Tanto quanto os agrotóxicos, os microplásticos, os desastres climáticos... > Mas essa dimensão não é relevante filosoficamente. É relevante para a > política diária. Mas a escala de tempo dos problemas filosóficos é outra. > Sistemas econômicos mudam, a filosofia fica. > >>>> > >>>> A Profa. Tatiana Roque da UFRJ escreveu um artigo na Folha de São > Paulo fazendo esse contraponto sugerido pela Gisele na postagem anterior, > uma visão mais histórica, mais filosófica, menos 'entusiamo ingênuo' e mais > 'senso crítico'. Foi publicado no momento em que o Marcelo Viana estava > terminando a série de colunas dele sobre a IA na matemática. Claramente, > são pontos de vista opostos. Reproduzo abaixo, na íntegra, o artigo da > Tatiana Roque. É ilustrativo em vários aspectos. No entanto, em minha > opinião, expressa uma reação conservadora diante da novidade filosófica, > epistêmica. > >>>> > >>>> Peguei o termo "revolução científica" do ensaio do Bessis, divulgado > pela Valéria, com o qual começamos a discussão. Acho que ele está correto. > >>>> > >>>> Acho que estamos atravessando essa revolução e ainda tentando > entender o que será este mundo novo que emergirá dela, quando ela se > completar. Minha aposta: surgirá uma era de 'transcognitivismo' (para > confrontar com 'trans-humanismo'). Sem descartar a hipótese de ciborgues ou > coisas do tipo, o que parece estar surgindo é uma cognição híbrida: uma > colaboração cada vez maior do homem com a máquina. E o interessante é que, > agora, a máquina pode nos surpreender, criar matemática nova. Não é apenas > força bruta. É exteriorização de nossa criatividade. Essa colaboração > provavelmente mudará o modo como pensamos em matemática, fazemos matemática. > >>>> > >>>> Vou ler agora o artigo que o João Marcos sugeriu, sobre > comportamentalismo versus cognitivismo, para ver se entendo o ponto. > >>>> > >>>> Segue o artigo da Tatiana Roque: > >>>> > >>>> -x-x-x- > >>>> > >>>> 'Hype da IA' não pode rebaixar o pensamento humano e bloquear debate > sobre a tecnologia > >>>> > >>>> Com avanço da IA, a capacidade de máquinas passa a definir o > significado da inteligência humana > >>>> > >>>> Fase de superexcitação com a tecnologia está de volta, mas a história > mostra que destino não é inexorável > >>>> > >>>> Tatiana Roque > >>>> > >>>> [RESUMO] Em reflexão sobre as raízes históricas da inteligência > artificial, autora retoma a previsão do matemático Alan Turing, que propôs > que o debate sobre o significado do pensamento humano seria esquecido no > final do século 20 com o fim dos questionamentos sobre a inteligência das > máquinas. Hoje, a falta de humildade epistêmica em um período de > desenvolvimento acelerado da tecnologia pode causar grandes catástrofes. > >>>> > >>>> × > >>>> > >>>> Paris inteira correu para ver o flautista. Pessoas de todas as idades > tentavam achar um bom ângulo para assistir àquele espetáculo inusitado. > >>>> > >>>> Na grande estreia daquela noite, o músico era um autômato. A máquina > havia sido construída pelo mecânico francês Jacques de Vaucanson e fazia > movimentos contidos em cima de um pedestal. Mais do que um suporte, > escondia-se ali o mecanismo engenhoso que dava vida ao flautista. O público > saiu encantado com a precisão da performance, que foi destaque nos jornais > daquele janeiro de 1738. > >>>> > >>>> Sempre fui fascinada por brinquedos de corda, feitos de metal, com > pintura delicada e colorida. Na minha estante de livros, tenho um > carrossel, um pintinho, um elefante, um pião e um humanoide, todos com > aquela aura retrô. > >>>> > >>>> Quando chego cansada do trabalho, costumo dar corda no pintinho para > vê-lo ciscar compulsivamente em cima da mesa, até o mecanismo se exaurir. > Já o carrossel toca Edith Piaf enquanto gira cavalos e demoiselles. Em > nenhum momento, esqueço que são engenhos mecânicos. Ao contrário, é isso > que têm de encantador. > >>>> > >>>> Até que ponto as máquinas podem imitar seres humanos? Essa pergunta > vem de longe. Ninguém achava, no século 18, que o flautista iria superar um > músico de carne e osso. Para isso, seria preciso reproduzir a > característica humana mais singular: a inteligência. > >>>> > >>>> Ao longo do século 19, foram muitas as tentativas de imitar essa > faculdade, especialmente com a invenção das primeiras máquinas de calcular, > propostas por Charles Babbage para substituir o trabalho mental. O avanço > da computação, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou a questão mais > urgente ao fim do conflito. > >>>> > >>>> Em 1950, surgiu um teste para verificar se a inteligência dos > computadores pode se equiparar à humana. A proposta foi feita pelo > matemático Alan Turing, conhecido como um dos pais da computação, no artigo > "Máquinas de computação e inteligência". Apesar de celebrado como inventor > da "inteligência artificial", ele não usava esses termos. > >>>> > >>>> Sou historiadora da ciência e, nessa profissão, partimos da premissa > de que investigar a obra de um cientista exige recuperar as noções como por > ele empregadas, sem encaixá-las retrospectivamente nas denominações atuais. > Olhar o passado com os olhos do presente é anacronismo, vício a ser evitado > na prática da história. De fato, Turing queria saber se as máquinas podem > pensar, mas formulou a pergunta em termos peculiares, que podem passar > despercebidos aos olhares açodados de hoje. > >>>> > >>>> Antes de investigar se as máquinas podem pensar, seria preciso > responder à pergunta: o que caracteriza o pensamento humano? Mas essa > questão é difícil demais, e Turing faz um desvio: > >>>> > >>>> "Acredito que a pergunta original, 'as máquinas podem pensar?', é > insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no > final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas > instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensando > sem esperar ser contrariado." > >>>> > >>>> A previsão é espantosa, além de profética: a busca pelo significado > do que é pensar será esquecida até o final do século 20 e, só assim, será > possível falar de máquinas pensando sem ser contrariado. É exatamente o que > está acontecendo hoje. Não parece mais importar o que há de especial na > inteligência ou no pensamento ou até onde o ser humano pode levar o > exercício dessas faculdades. Basta saber como são percebidas em seu uso > mais comum. Chamamos esse fenômeno de demônio de Turing. > >>>> > >>>> A percepção é uma faculdade traiçoeira, contaminada por interesses. E > se estivermos enganados a cada vez que nossos sentidos nos fizerem crer que > observamos algo real? Esse é um dilema da filosofia desde a caverna de > Platão. > >>>> > >>>> A dificuldade se agrava com a pergunta de Descartes: e se estivermos > equivocados a cada vez que tivermos uma certeza? Um gênio maligno poderia > estar nos enganando, diz o filósofo francês. Mesmo verdades básicas e > aparentemente inquestionáveis, como as verdades matemáticas (2 + 3 = 5), > poderiam ser falsas e a certeza que experimentamos sobre elas talvez seja > obra do demônio. > >>>> > >>>> A hipótese do gênio maligno, o demônio de Descartes, é uma forma de > nos convencer sobre a necessidade de um método rigoroso para obter certezas. > >>>> > >>>> Turing não era filósofo. Preocupado com critérios práticos para > avaliar a performance dos computadores, propôs substituir a pergunta "as > máquinas podem pensar?" por um teste, chamado de jogo da imitação. Uma > máquina e uma pessoa humana devem responder a perguntas, posicionados de > forma que um júri, encarregado de avaliar as respostas, não consiga ver de > onde elas vieram. Se o júri errar, ou seja, se avaliar como humanas as > respostas fornecidas pela máquina, ela pode ser dita inteligente. > >>>> > >>>> Vejam a ironia: Turing não estava tentando desvendar os mistérios do > pensamento humano, apenas provar que isso não é necessário para dizer se > uma máquina se equipara a um ser humano na tarefa de responder a perguntas. > Diferente do flautista, que escondia seu maquinário dentro do pedestal, o > jogo da imitação requer um ser humano escondido. Rebatizado mais tarde de > teste de Turing, o desafio sugere que a máquina pode ser equiparada à > inteligência humana se conseguir iludir pessoas de carne e osso. > >>>> > >>>> A ideia de inteligência artificial surgiu um pouco depois, em 1956, > quando um professor do Dartmouth College, John McCarthy, convocou > pesquisadores de peso das áreas de computação, neurociências e cibernética > para uma conferência. Como estratégia para tornar o convite sedutor, > incluiu um termo chamativo na proposta: inteligência artificial. > >>>> > >>>> Tratava-se de um nome novo para os estudos sobre autômatos, mas não > só. O objetivo era avançar na conjectura de que qualquer característica da > inteligência pode ser descrita com tanta precisão que é possível treinar > uma máquina para simulá-la. Nessa época, o tipo predominante de > inteligência artificial era bem diferente da atual, mais influenciada pela > lógica do que pela estatística. > >>>> > >>>> Essa IA clássica costuma ser chamada de Gofai, um acrônimo para "good > old-fashioned AI" (digamos, a boa e velha IA). Dito de modo resumido, a IA > simbólica aprendia a partir de regras explícitas, ao contrário das técnicas > atuais, que se apoiam na enorme quantidade de dados disponíveis na internet. > >>>> > >>>> Naquela época, já se falava em redes neurais, ideia que está na base > da IA de hoje. Mas apenas nos anos 1990, com o avanço do poder > computacional, ela passou a exibir resultados satisfatórios. As diferenças > entre a Gofai e as redes neurais são difíceis de explicar, mas o > contraponto ajuda a lembrar que não existe apenas um caminho. > >>>> > >>>> A história da IA é marcada por surtos periódicos de superexcitação > intercalados com os chamados invernos da IA, nos quais os limites se tornam > aparentes, o entusiasmo se esvai e o financiamento é cortado. > >>>> > >>>> Durante a década de 1960, abordagens simbólicas obtiveram sucesso na > simulação de comportamentos inteligentes em jogos, matemática simbólica ou > demonstração de teoremas. Depois, o investimento declinou. O ano de 1973 > foi um marco, com publicações jogando um balde de água fria nos métodos > usados até ali e mudando o foco da pesquisa. O entusiasmo retornou, até que > as promessas não cumpridas culminaram em outra reação negativa na década de > 1980. > >>>> > >>>> Estaríamos retornando à fase de superexcitação? Será que ela vai > demorar? Parece que sim, mas o senso histórico ajuda a lembrar que não se > trata de um destino inexorável. > >>>> > >>>> Nossa definição de inteligência está mudando com o avanço da IA. É > normal que os conceitos mudem de sentido, mas precisamos estar atentos para > que essa mudança não acabe diminuindo o potencial da inteligência humana e > bloqueando um debate franco sobre os rumos da tecnologia. > >>>> > >>>> Na matemática, existe uma grande diferença entre resolver problemas e > formulá-los. Em geral, não se percebe isso, pois o ensino básico é > excessivamente focado em resolver problemas, como usar a fórmula de > resolução de equações do segundo grau, encontrar a soma dos termos de uma > progressão aritmética ou multiplicar matrizes. Um matemático profissional > não faz nada disso. Ele propõe novos problemas. Se forem bons, esses > problemas podem virar teoremas, motivar boas teses de doutorado ou ser > aplicados a outras áreas. Costumo dizer que os problemas são o motor da > matemática. > >>>> > >>>> Neste momento, grandes cientistas e empresários comemoram o sucesso > de uma ferramenta de IA na Olimpíada Internacional de Matemática. Os > entusiastas correm para dizer que estamos diante de uma inteligência > artificial comparável à dos humanos, já que a matemática é símbolo de > inteligência. > >>>> > >>>> De fato, a IA é uma ótima resolvedora de problemas, mas estamos longe > de vê-la inventar problemas consistentes, ofício de todo bom cientista. À > frente da empresa ligada ao Google que criou a ferramenta vitoriosa nas > olimpíadas, Demis Hassabis reconhece essa diferença entre resolver e > inventar problemas. Os grandes avanços da ciência dependem da formulação de > boas perguntas, não só das respostas certas. > >>>> > >>>> Luciano Floridi é um filósofo que tem refletido sobre as implicações > éticas da IA. Para ele, a inteligência artificial de hoje é uma dissociação > entre a resolução bem-sucedida de problemas e o comportamento inteligente. > Dissociação é uma palavra forte. Ela sugere que o comportamento inteligente > não está sendo mobilizado, em toda a sua amplitude, quando a IA executa as > tarefas necessárias para resolver problemas, pois estão ausentes a > consciência, a perspicácia, a sensibilidade, os insights, a experiência e a > sabedoria. > >>>> > >>>> Mesmo sem nenhuma dessas capacidades humanas, a IA fornece soluções > convincentes, mas graças às técnicas avançadas para processar enormes > quantidades de dados produzidos pelos seres humanos. > >>>> > >>>> O sucesso da IA depende de uma construção pouco explícita: foi criado > um ambiente favorável, no qual as tecnologias inteligentes se sentem em > casa. Vivemos agarrados a nossos celulares, os objetos da casa se tornam > smart, a TV e o fogão vêm com um assistente de bordo inteligente, os > veículos possuem chips e um GPS nos acompanha. Tudo isso deixa rastros em > dados e mais dados. > >>>> > >>>> Talvez o mundo esteja se adaptando à IA, e não o contrário, do mesmo > modo como nossas mãos adquirem a forma de um celular, nossas relações reais > refletem traços de nosso comportamento nas redes sociais e nosso cérebro > apodrece com o tempo gasto na internet, como descrito no chamado "brain > rot". > >>>> > >>>> O demônio de Turing é o gênio maligno que nos leva a avaliar nossa > própria inteligência a partir do que a máquina é capaz de fazer. Esse é um > risco invisível nas discussões sobre o futuro e o poder da IA. Uma > redefinição vai se firmando, sem que os termos estejam explícitos. Só então > "será possível falar de máquinas pensando sem esperar ser contrariado", > exatamente como Turing previu. > >>>> > >>>> As ideias vão se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem > sequer estranhamos quando um caminhão autônomo é considerado uma façanha da > inteligência artificial, mesmo que até há pouco tempo não achássemos que > dirigir fosse uma atividade inteligente. > >>>> > >>>> Os avanços dos próximos anos serão velozes e precisaremos de > critérios para avaliar se estamos realmente perto de uma inteligência > artificial equiparável à dos humanos. Pode ser útil examinar se ela sabe > inventar problemas tão bem quanto um bom matemático —e o mesmo vale para a > arte e outras áreas criativas, que dependem mais de perguntas consistentes > do que de respostas eficazes. > >>>> > >>>> Os debates sobre inteligência artificial são envolvidos por muito > hype. Isso atrapalha uma conversa franca sobre suas consequências, desde os > impactos no mundo do trabalho até o uso dos recursos naturais. Encantamento > e ocultamento são dois lados do mesmo demônio, distrações que terminam por > esvaziar nossa agência e desmobilizar a ação política necessária para > incidir nos rumos da IA. Não é uma tarefa fácil, mas a história nos lembra > que há técnicas diversas e algumas podem ser mais úteis do que outras se > fixarmos o bem comum como objetivo. > >>>> > >>>> "Não acredite no hype da IA" é o título de um artigo de Daron > Acemoglu, prêmio Nobel de Economia. Ele mostra, com riqueza de dados, que > os ganhos de produtividade, por enquanto, são modestos e a "automação pelo > prazer de automatizar" amplia as desigualdades sociais. Acemoglu é um dos > defensores mais eloquentes da ideia de que devemos direcionar o curso da > mudança tecnológica e não aceitar o caminho atual como inevitável. > >>>> > >>>> Húbris é um conceito de origem grega, comumente associado à soberba. > Os mitos antigos advertiam para o perigo de se superestimar a contribuição > humana diante de grandes conquistas. Quando obtêm sucesso importante em > algum feito, como vencer guerras ou inventar ferramentas poderosas, os > humanos correm o risco de subestimar o papel da fortuna e achar que tudo é > fruto de sua própria genialidade. > >>>> > >>>> Mais uma vez, o demônio está à espreita, só que o excesso de > confiança irrita os deuses. A sensação de invulnerabilidade e a falta de > humildade epistêmica que a húbris enseja podem despertar a ira dos deuses e > ocasionar grandes catástrofes. Precisamos evitá-las, e redirecionar o uso e > as prioridades no desenvolvimento da IA é parte dessa missão. > >>>> > >>>> *** > >>>> > >>>> Este texto é uma versão adaptada da introdução de "A Máquina e Nós: > Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial", que será publicado pela > Todavia em junho. > >>>> > >>>> > >>>> > >>>> > >>>> > >>>> > >>>> > >>>> Em quinta-feira, 21 de maio de 2026, Joao Marcos <[email protected]> > escreveu: > >>>>> > >>>>> Márcio Palmares escreveu: > >>>>> > > >>>>> > Seres humanos exteriorizam sua imaginação criando ferramentas, > máquinas, tecnologia. > >>>>> > > >>>>> > Agora, exteriorizamos nosso pensamento matemático, ou certas > porções dele. De um machado de pedra para uma máquina capaz de fazer > matemática... Podemos delegar à máquina a resolução de alguns problemas. E > ela pode se sair melhor do que nós em certos casos (do mesmo modo que uma > escavadeira se sai melhor do que um indivíduo com uma pá). Mas não se trata > de força bruta. Este caso mostra criatividade, engenhosidade: > exteriorização de faculdades humanas. > >>>>> > > >>>>> > Para um materialista no sentido filosófico, isso tudo é > surpreendente em um único sentido: somos matéria estelar que adquiriu vida > e consciência (Carl Sagan). Somos máquinas biológicas. Se fosse impossível > construir máquinas capazes de imitar certas faculdades humanas > (inteligência matemática), então nós não existiríamos. > >>>>> > >>>>> No que diz respeito ao advento das LLMs e a nossa reflexão acerca das > >>>>> suas capacidades, lembrei-me deste artigo: > >>>>> > >>>>> Cognitivism prevents us from understanding artificial intelligence > >>>>> https://link.springer.com/article/10.1007/s00146-025-02583-5 > >>>>> > >>>>> Será que é mesmo o caso de reavivarmos a chama do comportamentalismo, > >>>>> em detrimento do cognitivismo? > >>>>> > >>>>> > >>>>> Gisele Dalva escreveu: > >>>>> > Nem tudo o que reluz é ouro, já diz a cantiga de capoeira, e dar > uns passos atrás antes de preconizar grandes e radicais mudanças em alguma > prática científica pode ser uma boa atitude. > >>>>> > >>>>> Eu não hesitaria em afirmar que as mudanças trazidas pelas LLMs à > >>>>> prática matemática são, com efeito, grandes e radicais. > >>>>> > >>>>> Querendo ou não, nunca mais voltaremos a fazer buscas da forma como > >>>>> fazíamos outrora. E isso me faz recordar o clássico artigo > >>>>> "Intelligent machinery", escrito pelo patrono da "Filosofia da > >>>>> Inteligência", Alan Turing, no qual ele discute, entre outras tantas > >>>>> questões, "the idea that intellectual activity consists mainly of > >>>>> various kinds of search". Pois a coisa está funcionando, e está, > sim, > >>>>> desmistificando um bom bocado a ideia romantizada acerca das > >>>>> capacidades que nos tornariam singularmente humanos --- capacidades > >>>>> estas, aliás, que muitos humanos parecem usar com bastante > parcimônia. > >>>>> > >>>>> []s, João Marcos > >>>>> > >>>>> -- > >>>>> LOGICA-L > >>>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > >>>>> --- > >>>>> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo > "LOGICA-L" dos Grupos do Google. > >>>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, > envie um e-mail para [email protected]. > >>>>> Para ver esta conversa, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_Lj4d_L0%3DMr_ai9UbNhoxinqJ4KSyJwsa_6U_jBM9bMVEg%40mail.gmail.com > . > >>>> > >>>> -- > >>>> LOGICA-L > >>>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > >>>> --- > >>>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" > dos Grupos do Google. > >>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, > envie um e-mail para [email protected]. > >>>> Para ver esta conversa, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAA_hCxXKfspLgGUK1r%2B_AujcvM%3DAd_tPDhBxAAO95e_4dOsGNA%40mail.gmail.com > . > > > > -- > > LOGICA-L > > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de > Lógica <[email protected]> > > --- > > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos > Grupos do Google. > > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, > envie um e-mail para [email protected]. > > Para ver esta conversa, acesse > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4ffc1cb5-0e16-4292-936b-56680e8514fbn%40dimap.ufrn.br > . > > > > -- > ======================== > Walter Carnielli > CLE and Department of Philosophy > University of Campinas –UNICAMP, Brazil > > AI2- Advanced Institute for Artificial Intelligence > Blog https://waltercarnielli.com/ > -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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