Oi, Eduardo...

Interessantíssima a sua mensagem e a sua fundamentação... Não resisto, vou
me intrometer como ignorante.

Não conheço nada sobre teoria literária ou semiótica... Achei surpreendente
você recorrer a um fundamento teórico como esse, porque a maioria das
pessoas (que eu conheço) que escrevem sobre matemática fazem isso de forma
espontânea, intuitiva, sem amparo ou referencial.

Meu palpite de mesa de bar:

Existem coisas que chamamos "livros" e coisas que chamamos "apostilas".

A maioria dos assim chamados "livros-textos" de matemática são, na verdade,
apostilas.

Uma apostila é uma coleção de definições, teoremas, demonstrações,
exemplos, exercícios... Às vezes aparecem resumos curtos de algum tópico
teórico.

Um livro é algo muito superior.

Às vezes os problemas são tão bem escolhidos, os exemplos, enunciados de
demonstrações, são tão bem escritos, que certas apostilas se passam por
livros.

Exemplo: o Joseph J. Rotman escreveu um livro chamado "A First Course in
Abstract Algebra". Alcançou três edições. Os primeiros capítulos, que
cobrem o básico da teoria dos números, estão escritos num estilo de
narrativa histórica... Há claramente um clima literário, o autor conversa
com o leitor, mostra um panorama amplo e em diversos momentos mostra o
quanto as demonstrações são importantes. Temos a impressão de estar diante
de uma narrativa.

Porém, quando começa a teoria de grupos, o texto sai do ambiente de
narrativa histórica e volta para o clima de apostila. É meio decepcionante,
a despeito do conteúdo que é muito bom. Mas há uma mudança brusca na forma
de exposição.

Depois de anos descobri o motivo. Os primeiros capítulos desse "A First
Course in Abstract Algebra" foram retirados de um livro dele chamado
"Journey into Mathematics: An Introduction to Proofs". Este último é um
livro mesmo.

Então, do alto do meu amadorismo, eu diria que deveríamos sempre tentar
escrever livros, e não apenas apostilas (embora as apostilas tenham também
sua utilidade).

O trabalho do Apostol que eu citei é um livro. Para mim, é literatura
didático científica. Claramente tem estrutura, identidade: o autor conta
uma história. Não necessariamente no sentido de história da matemática. Ele
conta uma história de conceitos.

E sobre a relação do autor com o leitor, eu diria que o essencial é
permitir que o leitor participe da construção dos conceitos e tenha a
sensação da descoberta. Pois quando apreciamos uma obra de arte, a
apreciação é de certo modo uma reprodução do ato de criação do artista
(Bronowski). Os conceitos científicos são criações também, e para nos
apropriarmos deles precisamos reviver o ato de criação, participar da
invenção, da descoberta (Bronowski).

E justamente esse deleite estético é roubado do leitor em quase todas as
exposições que seguem a forma: "axiomas, definições, teoremas, exemplos,
exercicios", porque aqui não há nenhuma aventura intelectual, há apenas uma
espécie de anatomia de uma criatura (um corpo de conhecimentos) já morta,
mumificada.

Bem, não ajudei nada, mas talvez ajude um pouco...

Abraço,

M.





Em domingo, 28 de junho de 2026, Eduardo Ochs <[email protected]>
escreveu:

> Oi lista,
>
> eu tava tentando escrever uma introdução pra umas notas de seminário,
> pra explicar o estilo dessas notas e explicar que elas vão lidar com
> "dúvidas do leitor" de um jeito muito diferente dos textos "normais"
> de Matemática, e resolvi procurar de novo na Internets algum scan do
> "Lector in Fabula", do Umberto Eco, que me marcou muitíssimo quando eu
> era adolescente... e eu finalmente encontrei um scan no Scribd. Segue
> um trecho:
>
>
>   Para concluir, acrescentamos que os textos fechados resistem mais ao
>   uso do que os textos abertos. Concebidos para um Leitor-Modelo muito
>   definido, com o intuito de dirigir repressivamente a sua cooperação,
>   deixam espaços de uso bastante elásticos. Tomemos as histórias
>   policiais de Rex Stout e interpretemos a relação entre Nero Wolfe e
>   Archie Goodwin como uma relação "kafkiana": por que não? O texto
>   suporta muito bem este uso, nem se perde o entretenimento da fábula
>   e o gosto final da descoberta do assassino. Mas tomemos agora O
>   Processo de Kafka e Ieíamo-lo como se fosse uma história policial.
>   Legalmente é permitido, mas textualmente produz um resultado
>   infelicíssimo.
>
>   Proust podia ler o horário dos trens, reencontrando nos nomes dos
>   lugarejos do Valois doces e labirínticos ecos da viagem nervaliana
>   em busca de Sílvia. Mas não se tratava de interpretação do horário,
>   porém de um uso legítimo deste quase psicodélico. Por sua vez, o
>   horário prevê um único tipo de Leitor-Modelo, um operador cartesiano
>   ortogonal com um senso vígil da irreversibilidade das sucessões
>   temporais.
>
>
>
>   3.5. AUTOR E LEITOR COMO ESTRATÉGIAS TEXTUAIS
>
>   Num processo de comunicação, temos um Emitente, uma Mensagem e um
>   Destinatário. Com freqüência, tanto o Emitente quanto o Destinatário
>   são gramaticalmente manifestados pela mensagem: |Eu te digo que...|
>
>   Quando está às voltas com mensàgens de função referencial, o
>   destinatário utiliza estes traços gramaticais como Indices
>   referenciais (|eu| designará o sujeito empírlco do ato de enunciação
>   do enunciado em questão, e assim por diante). O mesmo pode acontecer
>   também com textos bastante compridos como cartas, páginas de diário
>   e, enfim, tudo o que é lido para adquirir informações a cerca do
>   autor e das circunstâncias da enunciação,
>
>   Mas, quando um texto é considerado enquanto texto e especialmente
>   nos casos de textos concebidos para uma audiência bastante vasta
>   (como romances, discursos políticos, instruções cíentffícas e assim
>   por diante), o Emitente e o Destinatário acham-se presentes no texto
>   não tanto como pólos do ato de enunciação, mas como papéis
>   actanciais do enunciado (cf. Jakobson, 1957). Nestes casos
>
>   o autor é textualmente manifestado apenas como (i) um estilo reco-
>   nhecível - que pode ser também um idioleto textual, ou de corpus, ou
>   de época hístôrica (cf. Tratado, 3.7.6); (ii) um puro papel
>   actancial (|eu| = "o sujeito deste enunciado") (iii) como ocorrencia
>   ilocutiva (|eu juro que| = "há um sujeito que realiza a ação de
>   jurar") ou como operador de força perlocutiva que denuncia uma
>   "instância da enunciação" ou então uma intervenção de um sujeito
>   estranho ao enunciado, mas de qualquer maneira presente no tecido
>   textual mais amplo (|imprevistamente acontece alguma coisa de
>   horrivel...|; |...disse a duquesa com voz de fazer tremer os
>   mortos...|). Esta evocação do fantasma do Emitente costuma ser
>   correlativa a uma evocação do fantasma do Destinatário (Kristeva,
>   1970). Vejamos este trecho extraído das Investigações Filosóficas,
>   de Wlttgenstem, § 66:
>
>   (11) Considere, por exemplo, os processos que chamamos de "jogos".
>        Entendo com isto jogos de xadrez, jogos de baralho, jogos de
>        bola, competições esportivas, e assim por diante. O que é comum
>        a todos estes jogos? - Não diga: "deve haver alguma coisa comum
>        a todos porque, se assim não fosse, não se chamariam 'jogos'" -
>        mas olhe se exíste alguma coisa comum a todos. - De fato se os
>        observar, decerto não verá algo que seja comum a todos, mas
>        verá semelhanças, parentescos, e, até, verá toda uma série
>        delas...
>
>   Todos os pronomes pessoais (implícitos ou explícitos) não indicam
>   absolutamente uma pessoa chamada Ludwig Wittgenstein ou um leitor
>   empírico qualquer: representam também estratégias textuais. A
>   interferência de um sujeito falante é complementar à ativação de um
>   Leitor-Modelo cujo perfil intelectual só é determinado pelo tipo de
>   operações interpretativas que se supõe (e se exige) que ele saiba
>   executar: reconhecer similiridades, tomar em consideração certos
>   jogos... Do mesmo modo, o autor não é senão uma estratégia textual
>   capaz de estabelecer correlações semânticas: |entendo...| (Ich
>   meine...) significa que no âmbito deste texto o termo |jogo| deverá
>   assumir certa extensão (abrangendo jogos de xadrez, jogos de baralho
>   e assim por diante), enquanto que se abstém propositalmente de fazer
>   deles uma descrição intencional. Neste texto, Wittgenstein não é
>   outra coisa senão um estilo filosófico e o Leitor-Modelo não é senão
>   a capacidade intelectual de compartilhar este estilo, cooperando
>   para atualízá-lo.
>
>   Fica claro, portanto, que, doravante, toda vez que usarmos termos
>   como Autor e Leitor-Modelo, sempre entenderemos, em ambos os casos,
>   tipos de estratégia textual. O Leitor-Modelo constitui um conjunto
>   de condições de éxito, textualmente estabelecidas, que devem ser
>   satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu
>   conteúdo potencial[7].
>
>
> A minha pergunta é meio vaga, e é pras pessoas que costumam pensar
> muito em termos do "leitor modelo" de cada texto, e que conhecem bem
> as diferenças entre o estilo dos textos de Matemática em que o leitor
> tem que se virar sozinho em cada um dos muitos trechos difíceis e
> estilo dos textos pra discussões e seminários em que a gente quer que
> os participantes fiquem à vontade pra dizer "não entendi isso aqui"...
>
> Quais são os textos preferidos de vocês sobre esses diferentes
> estilos?
>
>   [[]],
>     Eduardo...
>
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