A analogia com a escavadeira é péssima, por duas razões: subtrai muito da
capacidade efetiva desses modelos mais avançados, e a palavra "escavação"
carrega implícita um tipo de realismo/platonismo: o conhecimento já estava
lá, precisava apenas ser escavado. Isso, no meu modo de entender
matemática, é falso.

A máquina funciona, a rigor, como uma extensão da inteligência do homem,
quase como uma prótese cerebral que amplifica o poder mental do homem.

E o que a máquina encontra e que é novo foi criado pela colaboração
homem-máquina. É uma criação. Proveniente de cognição híbrida.

No entanto, até o momento, os progressos que vimos são do tipo revolução
por "mecanização", revolução industrial... Mais quantidade do que
qualidade. Não houve ainda um salto que mude o nosso modo de pensar em
matemática... Ainda. Nada impede que aconteça amanhã ou depois.

Acho que o Carl Sagan está certíssimo na maneira dele de ver as coisas...

M.



Em segunda-feira, 20 de julho de 2026, Márcio Palmares <
[email protected]> escreveu:

> Olá, pessoal!
>
> Parece que as escavadeiras encontraram mais coisas até então inacessíveis
> ao nosso trabalho manual com pás e picaretas... (Isso não significa,
> obrigatoriamente, que um matemático suficientemente talentoso e imaginativo
> não pudesse obter tais resultados sem usar escavadeiras. Mas parece fora de
> dúvida que o uso de escavadeiras pode acelerar bastante a obtenção de
> contraexemplos, ao menos em áreas onde há certa prevalência de métodos meio
> combinatórios... Em todo caso, estou fazendo a comparação com escavadeiras
> para ressaltar que, até o momento, as evidências mostram uma revolução por
> mecanização, isto é, aceleração brutal do trabalho que, em princípio,
> poderíamos fazer sem as máquinas. Até o momento, não parece tratar-se de
> uma revolução de tipo "mudança de paradigma").
>
> Não sei quem é Jared Duker Litchtman, mas ele disse ontem, no X (parece
> que o resultado foi obtido durante a final da Copa do Mundo):
>
> "This is quite a remarkable result:
>
> Posed in 1939, the Jacobian conjecture is one of the central open problems
> in algebraic geometry, but was just disproved by Alpoge, Matthew, and
> Claude Fable 5.
>
> The Jacobian conjecture roughly says that a multivariable polynomial F has
> an inverse function (made out of polynomials) provided the Jacobian is
> non-singular (i.e. matrix of partial derivatives has non-zero determinant).
> This condition is neccessary by the Inverse Function Theorem from
> multivariable calculus. The hard question is whether it is also sufficient.
>
> Evidently, Fable found that
>
> F(x,y,z) = ((1+xy)^3 z + y^2 (1+xy) (4+3xy), y + 3 x (1+xy)^2  z + 3 x y^2
> (4+3xy), 2 x - 3 x^2 y - x^3 z)
>
> has det(J_F) = -2 non-zero. However F is not invertible, since F sends
> three different pts (0, 0, -1/4), (1, -3/2, 13/2), and (-1, 3/2, 13/2) to
> the same image (-1/4, 0, 0).
>
> Beyond the disproof itself, it would be value to know if a suitably
> refined conjecture is recoverable. Per @Acer, GPT5.6 has proposed:
> "A constant-Jacobian polynomial local biholomorphism with no loss of
> sheets at infinity—e.g. a proper Keller map—is an automorphism."
> I would be interested to know if any algebraists (e.g. @levent @littmath)
> have a reaction to this...
>
> A further twist to the story:
> Not only was the Jacobian conjecture one of the central open problems in
> algebraic geometry, it was (a special case of) Yitang Zhang's PhD problem!
>
> The catch was that Zhang's advisor had him solve it, assuming a lemma of
> his advisor. But that lemma turned out to be false! As a result, Zhang's
> thesis crumbled and he then struggled to get recommendation letters and a
> permanent academic position. Despite all this, Zhang went on to prove
> bounded gaps between primes!
>
> This is one of the most inspiring stories in modern mathematics, and was a
> motivation for me to work in the same area for my doctorate."
>
> Mais uma evidência de que criamos máquinas que produzem conhecimento.
> Mesmo que seja um tipo de escavação, é um conhecimento (supondo que não se
> trate de algum mal entendido).
>
> Agora, a questão verdadeiramente interessante.
>
> Há um par de capítulos no "Pálido Ponto Azul" (1994), "As grandes
> humilhações" seguido de "Um universo que não foi feito para nós", em que
> Sagan descreve o processo de queda do homem, metaforicamente falando: sua
> expulsão do paraíso, a perda de sua centralidade. De uma criatura feita à
> imagem e semelhança de Deus, convivendo com Deus no paraíso, para um ser
> vivo entre os demais, perdido num canto remoto de uma galáxia comum,
> vagando sem destino em um universo essencialmente vazio, escuro, frio e
> indiferente ou diretamente hostil à vida.
>
> Se encontrássemos vida extraterrestre, a centralidade humana, nosso
> antropocentrismo, sofreria mais uma dentre a série implacável de
> humilhações.
>
> E então Sagan prevê com grande exatidão o ponto em que estamos agora (p.
> 42-43, Companhia das Letras, tradução de Rosaura Eichenberg):
>
> "E o que dizer da questão correlata de sermos capazes de criar
> inteligências mais sagazes que a nossa? Os computadores realizam
> rotineiramente operações matemáticas que nenhum der humano poderia fazer
> sem ajuda, superam campeões mundiais de damas e xadrez, falam e entendem
> inglês e outras línguas, escrevem contos e composições musicais razoáveis,
> aprendem com seus erros, e pilotam navios, aviões e naves espaciais. Sua
> capacitação aumenta continuamente. Estão ficando menores, mais rápidos e
> baratos. A cada ano, a maré do progresso científico avança um pouco sobre a
> ilha da singularidade intelectual do ser humano com seus náufragos em
> posição de batalha. Se nessa fase primitiva de nossa evolução tecnológica
> conseguimos criar inteligência com silício e metal, o que não faremos nas
> próximas décadas e séculos? O que acontece quando máquinas inteligentes
> fabricam máquinas mais inteligentes?".
>
> Que imagens!
>
> Náufragos em disposição de batalha... Matemáticos e programadores, na ceia
> de Natal com a família, vendo seus sobrinhos de 12 anos exibindo programas
> feitos com IA, algo que antes era exclusividade do tio programador, que
> ocupava o posto de inteligência singular da família... O professor de
> matemática que vê uma máquina sendo capaz de dar a seus alunos explicações
> melhores do que as que ele possui... Essas duas criaturas humilhadas
> representam todos nós, mas esse processo de humilhação é necessário, pois
> corresponde à perda de nosso egocentrismo radical, não somos o centro do
> universo.
>
> A imagem da ilha da exclusividade humana sendo tomada pela maré do
> progresso científico é a imagem dual de uma célebre sentença de não lembro
> quem, citada por Sagan na abertura do Cosmos, em que se diz que avançamos
> lentamente contra um mar de ignorância reivindicando a cada geração um
> pouquinho mais de terra firme.
>
> Abraços,
>
> M.
>
>
>
>
>

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LOGICA-L
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