Fala, seu cyberpunk!

Saudade das hiperstórias do wikifiction.

ff


On 2/7/06, Daniel Pádua <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
> "Chove contra a janela. O suficiente pra alagar o quarto, se eu a deixasse
> aberta.
> Como naqueles filmes empolgantes de pirata, onde o céu fica mais cinza
> quando um saque
> acontece em alto-mar.
>
> Mas aqui, no silêncio abafado do apartamento vazio, apenas ouço a chuva
> precipitar de lá enquanto
> diversos sentimentos precipitam de cá. A resignação doída diante da
> precariedade em que eu me
> encontro - foi o que consegui, ao deixar a Rede. Depois, a saudade de poder
> avacalhar com a seriedade
> das coisas, como quem corre na chuva só para se divertir, vencendo o poder
> de um céu inteiro. E enfim,
> o medo de retomar a trilha - penso em recomeçar a caminhada, mas sucumbo à
> frustração de estar só
> e distante do que um dia já vivi... e perdi.
>
> Porém, de certa maneira, há um canto sendo entoado pelas nuvens. Uma energia
> no ar, que eu sequer
> recordava a existência (refrão de música), e vem eletrificando meus sentidos
> (Bzzzéeeu!). Minha memória
> jorra relances e recortes de uma época agitada e feliz (tchururu!)...pessoas
> num vale, casas de barro, cataventos
> enormes e placas negras sob o sol, árvores viçosas e muitas crianças em
> torno de engenhocas repletas de botões.
> Uma mulher desenha esquemas que dançam e se misturam num papel, como se
> estivessem se fundindo.
> Um pequeno lago, do qual subiam torres tubulares nas quais um velho
> desenhava peixes e pessoas...
> e acima deles cordas compridas nas quais deslizavam carrinhos, muitos deles,
> indo e vindo de várias direções.
> As pessoas sorridentes, e ao fundo, música. Acordes enlouquecidos de uma
> guitarra tocada por Hendrix.
>  Numa parede beeeeem alta, a figura feminina enorme de Maina ia sendo
> decorada, com penas, panos, placas e
> pinos. A comemoração sendo preparada... homens martelavam cipós enquanto
> garotos encenavas personagens sob
> as árvores... era a vida no Vale da Partilha. Como era antes de perdermos o
> direito de usar aquelas estruturas.
> Por um instante dói... era melhor dormir no saco de dormir feito com lona de
> guarda-chuva e espuma catada
> do que nessa cama comprada em 36 parcelas de um dinheiro. Fazíamos
> esculturas quântica da vida, com calda
>  de caramelo.
>
> O que eu posso fazer? Os fanáticos das "Células de Cristo" começaram a
> importunar as residências de
> "hereges" usando transmissores reciclados pelos quais enviavam 24 horas de
> leitura da Bíblia Sagrada.
> "Tá amarrado em nome de Jesus FM! É só sucesso!". Algumas congregações se
> especializaram em
> implementar remixes dos dispositivos para a "Guerra da Palavra". Quando o
> governo tentou agir e autuar
> congregações, a juventude das células ocupou as ruas e muitas demandas se
> misturaram. Favelados de todas
> as partes se uniram ao movimento e o Estado viu-se diante de dois caminhos:
> a Guerra Civil ou a
> condução de um novo projeto de integração social que minimamente permitisse
> a tolerância à diversidade
> e trouxesse a sensação de distribuição mais igualitária da riqueza. Dessa
> forma, fizeram um pacotão.
> Repensaram a maneira de registrar os indivíduos desta sociedade e
> articulá-los numa teia econômica,
> possibilitando a todos acompanhar o desempenho uns dos outros. Além disso,
> deveria ser possível
> interações prévias, à distância, para fins de consulta de interesses comuns.
> Uma grande campanha
> envolvendo mídia e escolas conseguiram, em dois anos, convenceu a população
> do valor da proposta.
> E o grande eixo viabilizador do projeto seria a unificação das redes de
> crédito, sob a coordenação
> tecnológica do Estado. Para tanto, aprovaram uma lei... a "maldita", como
> dizíamos... que permitia
> a fiscalização e controle dos padrões tecnológicos das chamadas "indústrias
> de base", como forma
> de impedir a disseminação de redes comerciais incompatíveis com a rede de
> crédito integrado, ou simplesmente Rede.
>
> Foi a Lei de Controle de Transformações Industriais e seu escritório de
> fiscalização, a ECOTi, que mais parece polícia,
> o que inviabilizou lugares como o Vale da Partilha. O governo ganha muito
> com os impostos da Federação Industrial e
> seu jogo mafioso, e os deu mais autonomia fiscal do que poderiam sonhar. Por
> sermos observados há tempos,
> não demorou até que uma "Indústria do Conhecimento" fosse declarada como de
> base, e por isso sujeita à Lei.
> Por mais que tentássemos resistir, não havia como lutar sem cair na
> marginalidade. A ECOTi tem hoje participação
> até nas associações de bairro, e meus vizinhos terão prazer em marcar
> negativamente meus índices caso
> eu pareça um cidadão menos entretido com a Rede do que eles...
>
> E sim, ela levou a uma comodidade sem precedentes...
> Cada pessoa registrada no nascimento ganha um cartão-chip. Até os mais
> miseráveis têm índices nela.
> Não restaram muitas pessoas interessadas em enfrentar tantas dificuldades
> para cultivar um sistema mais aberto...
>  os poucos que não foram perseguidos e processados estão calados ou em
> outros cantos, num isolamento geográfico
> que soa como piada para a maioria. Há nos corações um temor por manchar seus
> índices... inclusive muitas congregações
> religiosas passaram a acompanhar os índices de seus fiéis, em vista do que
> houve na "Guerra da Palavra".
> Depois destes longos anos, a sociedade tornou-se uma rede moderada pelo
> Estado representativo, e megacorporações viraram "benfeitoras"
> cooperando e subsidiando desenvolvedores e aplicações sobre a tecnologia do
> backbone da Rede, permitindo a não-cobrança para aderir e ter
> seu cartão-chip. Utilizando os índices pessoais, montaram loterias,
> sorteios, bonificações... alguns idosos sobrevivem
> só com prêmios pelo seu "bom comportamento consumidor" ao longo da vida. Sem
> falar dos jogos coletivos organizados
> pelos próprios cidadãos, que atraem mais atenção que as TVs em sua época
> gloriosa. Mas mesmo nos serviços onde pode-se
> criar um "personagem" para interagir na Rede, somos obrigados a fornecer o
> cartão-chip verdadeiro. "Toda movimentação
> tem de ser transparente na Rede, para que haja convivência honesta." Para
> piorar a situação, a Rede é internacional.
> Países que antigamente defendiam a independência econômica viram na
> centralização dos índices pessoais uma maneira de articular
> mais dinamicamente o bem-estar social. Hoje, há um bloco econômico
> transnacional integrado pela Rede, de fato.
> O conceito de cidadania transnacional foi buscado com afinco para evitar
> duplicidade de identidade,
> e o turismo mais do que nunca foi desenvolvido. Rápidas articulações e
> doações na Rede levantam dinheiro
> suficiente para sustentar muitas pessoas sem renda. Em alguns lugares, até
> os mendigos sumiram.
>
> É, sem dúvida, um mundo mais fácil de administrar que o da antiga
> democracia, e satisfaz à maioria das pessoas.
> Livros recentes como o "Plataforma do Conforto" exaltam a centralização da
> identidade cidadã através da tecnologia
> cooperativa e integrada de comércio em rede como o "princípio da humanidade
> unida" e o "caminho do meio
> das nações". É como um Belle Époque descrito por William Gibson.
>
> Então... o que eu posso fazer? O que eu devo fazer? Aliás, porque sinto que
> há coisas erradas?
>
> Observo meu sentimento e tenho medo de estar apenas extravazando um desejo
> vazio de subversão.
> Se todos estão felizes, porque eu não estou também?
> Porque eu não consigo conviver numa sociedade integrada e até mais simples?
> Porque eu sinto falta de revirar o lixão da cidade para encontrar adereços
> para a balsa no Vale da Partilha?
>
> A chuva cai densa. Observo meu cartão-chip sobre a escrivaninha e decido
> desenhar mais uma página
>  da minha novela gráfica deliciosamente ilegal: "A Intrigante Arqueologia
> Perdida do Fantástico Mundo de Bob".
> Pelo menos aqui, posso deixar de ser um cidadão. Posso ser apenas
> possibilidades desconexas, invisível
> e livre. Amanhã cedo parto para as Bordas. E seja o que Bob quiser.
>
> FIM?"
>
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>
>
>


--
FelipeFonseca
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           `- Orgulhoso ser MetaRecicleiro
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