Alguns meses atrás, a equipe da Microsoft no Canadá ligou para Bill Hilf, na sede da companhia em Redmond, nos Estados Unidos, pedindo que ele cancelasse a palestra que faria no país. 'Depois de acompanhar conversas em sites de comunidades na internet, eles disseram que haviam descoberto que muitos programadoresde software planejavam atirar comida durante minha apresentação, além de vaiar e fazer barulho', conta o executivo.
O motivo de tanto fúria? Hilf é o homem encarregado pela Microsoft de manter o diálogo com a comunidade de criadores de programas de código aberto, como o Linux, umgrupo cujos participantes mais exaltados simplesmente odeiam a empresa de Bill Gates. 'Sou um estranho no ninho', reconhece o executivo, divertido.
Para evitar o confronto, Hilf diz acreditar que o melhor caminho é a honestidade, mesmo quando o discurso não agrada o ouvinte. Foi issoque ele fez no episódio canadense. 'No começo da apresentação, disse que eles poderiam jogar tomates se quisessem, mas só depois de me ouvirem. Expus a posição da Microsoft com clareza e, ao final, não aconteceu nada.'
Agora, chegou a hora de o executivo testar sua habilidade com os brasileiros, que ele reconhece ser mais 'apaixonados' que os canadenses. Ele vai falar a programadores de software, amanhã, durante a conferência Linux World, que ocorre pela primeira vez no país. Hilf sabe que não conta com o apoio da torcida, mas diz ter um trunfo. 'Trabalhei com programas de código aberto durante mais tempo do que boa parte dos profissionais que estão na área atualmente. É por isso que consigo conversar sem ser hostilizado: já fui um deles'.
É mais uma peculiaridade na carreira do executivo. Ao todo, Hilf passou 13 anos de sua vida profissionalna comunidade de código aberto. Antes de assumir o cargo de gerente-geral de estratégia de plataforma na Microsoft, em janeiro de 2004, ele trabalhou na IBM, onde ajudou a liderar a estratégia de Linux para mercados emergentes. 'Cheguei a trabalhar no escritório da IBM em São Paulo', conta.
Hilf gosta de falar e faz isso muito bem. Ele traça comparações curiosas para descrever cenários complexos e escreve no que estiver à sua frente - de uma folha de papel a um quadro negro - enquanto fala.
Esse dom da comunicação fácil é uma vantagem no seu tipo de trabalho. A Microsoft e a comunidade de código aberto são como duas tribos separadas por um vale, cada uma delas acreditando que a outra 'come criancinhas e tem dentes afiados', diz o executivo. Alguém precisa cumprir a tarefa de visitar a tribo vizinha e mostrar que há formas de colaboração possíveis. Ele seria um desses 'aventureiros'.
Na trajetória entre uma tribo e outra, é preciso ter muita paciência. 'Uma vez, escrevi um artigo para um site da internet e dei meu e-mail para tirar dúvidas', recorda-se Hilf. Em uma semana, choveram 3.125 mensagens de correio eletrônico,que ele diz ter respondido pessoalmente. 'O pessoal de relações públicas se ofereceu para ajudar, mas eu neguei', afirma.
Uma das perguntas mais recorrentes é por que a Microsoft, o símbolo do software comercial - baseado na venda de licenças e na propriedade intelectual - estáinteressada em 'criar pontes' com o mundo do código aberto, em que o conhecimento deve ser compartilhado e os produtos resultantes oferecidos de graça.
Hilf responde com o que poderia ser chamado de teoria do 'donut'. Ele desenha uma rosquinha no papel e diz que o modelo de todas as companhias de software segue aquele padrão: há um centro, onde estão os produtos principais, e a área complementar ao redor, na qual as empresas fazem experimentações, mas sempre com o objetivo de remeter o usuário ao negócio central.
Para Hilf, o que as grandes patrocinadoras doLinux querem é transformar os softwares de código aberto em mais uma porta que conduza à venda de seus produtos principais. A IBM investiria no Linux para vender mais serviços e computadores de grande porte, a Oracle para impulsionar seus softwares de banco de dados e assim por diante. 'Queriasaber se a IBM manteria sua atual estratégia de código aberto se dependesse exclusivamente de software para sobreviver', afirma o executivo.
Sob a teoria do donut, o que a Microsoft quer é seu pedaço no doce, ou seja, abrir oportunidades complementares sem prejudicar seu negócio central, o Windows, do qual o Linux é o principal concorrente.
Aqui entra novamente a habilidade de Hilf. Ele dirige uma operação que reúne 150 pessoas distribuídas por vários países - em média uma em cada mercado -, além de dois profissionais de marketing e 10 pesquisadores de alto nível. Esses últimos ficam em um laboratório nos EUA, onde testam a integração entre produtos da Microsoft e softwares de código aberto, que em geral só funcionam sobre o Linux.
De posse desses resultados de compatibilidade, Hilf bate à porta de pequenas empresas do mundo decódigo aberto para mostrar que os produtos delas poderiam funcionar bem sobre o Windows. A idéia é convencê-las da oportunidade de crescimento proporcionada pela inclusão da tecnologia da Microsoft. Ele brinca dizendo que corre o risco de ser chutado, mas afirma que já encontrou muitas surpresas. Há empresas que não só dizem estar interessadas, como contam que já têm clientes usando o produto com o Windows.
Parte delas ainda prefere manter segredo disso, mas algumas companhias têm adotado abertamente um modelo híbrido, em que as aplicações funcionam tanto no ambiente de código aberto quanto no do Windows. Na JBoss, adquirida no mês passado pela companhia de Linux Red Hat, 55% dos clientes já usam o Windows como base para os aplicativos, diz Hilf. Já a SugarCRM teria decidido que 75% de seus códigos continuarão abertos, mas o resto terá caráter comercial. Aos poucos, o donut da Microsoft fica mais doce.
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Hudson
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