Mandei pra lista de rádios livres, e depois pensei q a galera metarec
poderia tb se interessar...

abraços
cyrano.

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From: "Cyrano ." <[EMAIL PROTECTED]>
Date: Mon, 29 May 2006 00:18:45 -0300
Subject: Um pouco de história.
To: [EMAIL PROTECTED], [EMAIL PROTECTED]

Publiquei esse texto que fiquei digitando até agora... É uma
entrevista dum cara que militou durante um bom tempo com rádio livre
na França, na Rádio Tomate. Foi feita por um pessoal da PUC-SP em
1982.

O cara se chama Félix Guattari e tirei do livro Cartografias do
Desejo, que é muito doidão. :)

Alguns trechos, e dois linqs onde publiquei o texto:

Entrevista de Félix Guattari pro curso de jornalismo da PUC-SP, em 26
de agosto de 1982.

Publiquei aqui (http://www.radiolivre.org/node/2396) e aqui
(http://www.radiolivre.org/radiola/cgi-bin/wiki.cgi/EntrevistaComGuattari).

Alguns trechos:

   No início era apenas uma minoria: o pessoal das rádios livres era
um bando de loucos, um pouco como Dom Quixote atacando o grande
monopólio. Era espantoso. É como se as pessoas aqui resolvessem agora
ir atacar um quartel. Rapidamente, o fenômeno ganhou uma força
incrível, produzindo um impacto sobre a grande mídia, como se esse ato
de ilegalidade tivesse criado uma rachadura no edifício do monopólio.
Parece que, de repente, implantou-se um dúvida sobre a legitimidade
desse monopólio. É como se uma vidraça, já trincada, se partisse
totalmente sob o impacto de um simples pedregulho.

   Esquematicamente, as etapas foram as seguintes: esse pequeno grupo
de camaradas, diretamente inspirados pelos italianos (mais que
inspirados, pois os materiais italianos eram, basicamente, o que mais
se utilizava), viu sua iniciativa estender-se rapidamente por toda a
França. Muitas vezes, duas ou três pessoas colocavam os equipamentos
em uma cozinha e começavam a emitir. Entre os grupos que se formavam,
alguns eram folclóricos e insignificantes. Outros, pelo contrário,
eram muito importantes desde o início. Por exemplo, o grupo
Fessenheim, na Alsácia, equipou-se com material móvel e começou a
emitir em três línguas: o francês, o alemão e a língua local. A
repressão nunca conseguiu capturá-los: provavelmente, passavam de uma
montanha para outra... Em seguida, apareceram os grupos militantes,
não profissionais. Em primeiro lugar vieram os ecologistas e fanáticos
do rádio. Depois vieram os militantes de bairros, como os de Saint
Denis (subúrbio de Paris), que inventaram um modelo de rádio que
imediatamente se tornou muito significativo. Eles estavam ligados a
tudo o que se passava no bairo -- onde, aliás, havia muitos
trabalhadores imigrantes. As pessoas então vinham pessoalmente na
rádio contar o que se passava, denunciar nominalmente seu Fulano ou
Dona Sicrana. Eles emitiam dia e noite -- principalmente à noite,
porque nesse momento não há concorrência, e a mídia menor se torna
maior. Isso desencadeou uma repressão e, ao mesmo tempo, uma reação
contra a repressão, uma intensa mobilização por parte de juristas e
intelectuais.

   Houve então um fenômeno de "bola de neve": quanto mais se reprimia
as rádios livres, mais elas se desenvolviam. Enquanto os sindicatos
operários eram inteiramente fiéis ao princípio do monopólio, os grupos
de seções sindicais começaram a se utilizar das rádios livres, o que
provocou desequilíbrios e gerou uma série de conflitos dentro dos
sindicatos. Os partidos de oposição ficaram solidários às rádios
livres, dizendo: "nós somos favoráveis ao monopólio, mas não queremos
repressão sobre as rádios livres". Então nós pedíamos que viessem
dizer isso nas nossas rádios livres. Eles vinham, a polícia vinha
atrás e os processava. Até Mitterrand teve uns encontrões com a
polícia... e todo mundo sabe que Mitterrand é o homem da legalidade!
No próprio seio da maioria giscardiana, as contradições se acirravam,
porque interesses financeiros consideráveis, assim como interesses
políticos locais, também começaram a questionar o monopólio.



   (...)Durante anos, fomos objeto de uma campanha de denegrimento
nessa questão técnica. É preciso conhecer bem o aspecto técnico da
coisa porque, se um dia acontecer um movimento de rádios livres no
Brasil, esse problema certamente vai surgir. Os técnicos nos diziam:
"o que vocês fazem é perigoso. Vocês são uns irresponsáveis. Vocês
podem entrar na frequência da rota de aviões, de ambulãncias ou da
polícia. Vocês podem desencadear uma catástrofe urbana". Na realidade,
nada disso aconteceu. O medo que eles tinham era que se pudesse
instaurar um bagunça no plano social, e que esse tipo de rádio tivesse
a mesma função que teve na Itália: servir de caixa de ressonância a
movimentos políticos muito fortes.

--
Té.
Cyrano.
http://cyranodisse.blogspot.com



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Cyrano.
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