eu nem sei se existe algum objeto no mundo,
às vezes parece tudo uma concatenação
de ficções paralelas E perpendiculares. mas
isso é outra coisa.

voltando ao uso propriamente dito dos objetos,
mesmo usos semelhantes podem ser díspares.
me incomodam bastante esses projetos de
"inclusão digital" que dizem "ensinar" as
pessoas a usar computador. como se usar
um computador tivesse um único significado.

digo, "usar computador" ou mesmo "usar
internet" tem milhões de significados diferentes.
eu posso usar a internet pra escrever VOTE
NULO em maiúsculas, mas também posso
usar a internet pra destruir pequenas economias
através de investimentos na bolsa. ou então
usar a internet pra encontrar fotos de crianças
sem roupa. ou então usar a internet pra difamar
aquela vizinha que não me deu bola. "ensinar
a usar a internet" é qual dessas alternativas?

às vezes me parece que um dos grandes males
dessa sociedade é que tem muita gente querendo
ensinar, e pouca liberdade pra quem quer aprender
(que é diferente de "ser ensinado"). mas isso também
não tem nada a ver com o assunto do teu e-mail.
ou tem?

enfim, expandir o alcance da metareciclagem na
apropriação simbólica e transformação simbólica
e experimentação com manipulações narrativas
e textuais e estéticas, tô dentro.

como começamos?
já começamos?

fui

On 5/30/06, Daniel Duende Carvalho <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
olá meus caros. como vão as suas vidas?

 estive matutando um bocado nos últimos dias sobre a natureza relativa das
estruturas simbólicas que utilizamos e sua agregação aos objetos. foi coisa
que surgiu de repente, refletindo sobre a vida, e foi bem legal de brincar
com as idéias. em um certo momento me ocorreu que estas idéias podem ser de
grande utilidade para vocês (nós? vivos? nós vivos?). algumas delas são bem
óbvias, e eu gosto assim. soluções elementares e óbvias deixam a lâmina de
occan (http://en.wikipedia.org/wiki/Occam's_Razor) morrendo
de tesão. :)

 sem mais... vamos às minhas divagações simbólicas (e, acreditem, eu fiz o
que pude para ser conciso)

 -=-

 Estava pensando em como confundimos as qualidades naturais dos objetos (seu
peso, sua forma, as propriedades químicas e físicas dos materiais empregados
ou de sua configuração neste objeto, como no caso de uma placa de circuitos,
etc...) com as designações, usos, sentidos e sentimentos que agregamos
consciente ou inconscientemente a estes mesmos objetos. Ao confundir a
instância pura e natural do objeto com seu(s) nome(s) e usos e sentidos, por
vezes nos tornamos cegos (ou ao menos um bocado míopes) às reais
possibilidades de uso, relação, reapropriação e ressignificação do mesmo. É,
então, a meu ver, fundamental para o processo de
reapropriação/reutilização/ressignificação/reciclagem de
qualquer objeto (seja ele mesmo um objeto concreto, ou algo abstrato) que
consigamos separar aquilo que é natural e intrínseco ao mesmo daquilo que é
"agregado" ao objeto por nossa cultura, grupo, ou por nós mesmos.

 Olhar para uma placa de circuitos queimada, por exemplo, e conseguir
enxergar nela a matéria prima para uma capa de caderno é um exemplo adorável
deste processo. A princípio, quando comprado, aquele objeto era chamado de
"placa eletrônica de (complete a lacuna)", foi adquirido como tal, e se
prestou provavelmente a este uso. Em certo momento ela foi desagregada do
sistema no qual ela realizava esta função (provavelmente por não conseguir
mais realizar seu trabalho) e então virou uma "placa de circuito
queimada/usada/descartada". Bem... uma placa de circuito
queimada/usada/descartada, enquanto tal, não serve mesmo para muita coisa.
Apresenta ainda, por outro lado, um perigo ao meio ambiente por causa de
todos os metais pesados empregados em sua manufatura... logo, nós, caras
legais, não podemos nem jogá-la fora em paz. Então ela fica lá em cima da
mesa, ou no fundo de uma gaveta, e você pensa consigo mesmo "é. eu tenho uma
placa de circuitos queimada.".

 Então, em um certo momento, você percebe que aquela placa tem um formato
assim-assim e uma rigidez assim-assado que fariam dela, depois de alguns
ajustes, uma excelente capa de caderno. Deixando de lado a idéia de que
aquilo "é" uma placa de circuitos e não uma potencial capa de caderno, você
resolve manipular ela um pouco. Retira dela os componentes, lava ela com
ácido (ou seja lá com o quê vocês lavam estas placas) para retirar (sejá lá
o que vocês retiram delas) e faz um corte aqui e outro alí para que ela
assuma as dimensões adequadas para sua nova "identidade". Então, em um certo
momento, você não tem mais na mão uma placa de circuitos e sim uma placa
rígida do tamanho de uma capa de caderno, e muito adequada para tal uso.
Você então faz os furos por onde passará a espiral do caderno, junta a
recém-ressignificada capa de caderno às folhas, passa a espiral para deixar
tudo juntinho (ou, em homenagem ao DP agregante, "para deixar tudo
agregadinho") e, pronto... você fez mágica. Transformou uma placa de
circuitos em uma capa de caderno.

 Agora... de bruxo pra bruxo... onde está a mágica aí? Está na sua cabeça,
meu amigo. A tranformação física pela qual o material passou foi
infinitamente do que a trasmutação simbólica realizada sobre o mesmo. Foi
necessário perceber que a placa de circuitos não é necessáriamente uma placa
de circuitos, e que ela PODE ser outras coisas, que ela tem outras
propriedades que por vezes ficam escondidas por trás de seu nome e uso
tradicional, para conseguir realizar esta transmutação. Esta é a mágica. A
mágica da transmutação/transformação/resignificação
universal é baseada em nossa capacidade de perceber que as coisas são
EXATAMENTE aquilo que elas são, e que seu nome, seus usos, seus
significados, aquilo que sentimos por elas, tudo... são parte de nós, e não
parte integrante da "coisa". Para sermos capazes de transformar TUDO à nossa
volta, precisamos da clareza do que é a NATUREZA das coisas, e do que é
significado agregado a elas. Este é o segredo do Computador Chamado
Magnólia.



 se você já entendeu a idéia, pode parar de ler por aqui.
 o texto abaixo é uma explicação ainda mais lenta e mastigada do processo.
 daqui pra frente eu NÂO vou tentar ser conciso. :)



 Vivemos inseridos em um mundo de objetos e técnicas. quando olhamos à nossa
volta, percebemo-nos cercados por objetos das mais variadas formas, cores,
nomes e utilidades. mas será que estes nomes e utilidades são tão naturais
(estou TENTANDO evitar a palavra "intrínsecos", pq acho ela muito empolada)
a estes objetos quanto suas formas e propriedades
químico/físico/eletro/mágicas? eu penso que não.

 Calma, calma. Eu explico.

 Peguemos, por exemplo, uma lata de cerveja ou de refrigerante. Eu tenho uma
aqui bem na minha frente. Ela é branquinha e tem SKOL escrito nela. Vocês
tem uma lata aí? Peguem-na então, por favor...
 Estão com a sua lata em mãos? Ela nos vai ser muito útil nesta conversa.

 Todos com suas latas? Então vamos nessa.
 Primeiro vamos olhar para a lata. O que vemos? Eu vejo um objeto cilíndrico
com uns 3 ou 4 dedos de diâmetro e uns 8 ou 9 dedos de altura (para que usar
outras medidas quando tenho dedos?). Não sou lá um engenheiro de materiais,
mas acho que a minha lata é feita de uma liga de alumínio e mais alguns
outros metais. E a de vocês? Se parece com a minha? Bem... Isso não importa.
Olhemos mais um pouco para ela. A lata é leve, principalmente agora que está
vazia. Se a de vocês não estiver vazia, parem de ler este email por um
momento e bebam. Cerveja ou refrigerante quente é uma merda (ou, como dira
Pirsig, é de baixa qualidade... mas isso é assunto pra outro email). Pronto?
A lata de vocês está tão vazia quanto a minha? Então continuemos...

 Como eu dizia... a lata é leve, e é oca. Um dos usos dados a ela -- o uso
para o qual era foi destinada provavelmente quando vc a comprou -- era
conter uma certa quantidade de algum líquido. Ela possuía uma tampa
razoavelmente hermética que mantinha o líquido lá dentro, a salvo de
vazamentos ou de contatos com o mundo exterior, e impedia o escape do gás
infundido no líquido. A lata também é pintada do lado de fora, alardeando o
líquido que está dentro dela e todas as qualidades naturais (viu, nem falei
intrínsecas) ou "agregadas" (pelo anunciante, pela cultura, etc...) a este
líquido. Agora que ela está vazia, ela não está mais tendo este uso. O que é
ela agora? Uma lata vazia. Para que serve ela? Se você coleciona latas,
talvez ela tenha um bom lugar na sua coleção. Se você não tem copos em casa
(alguns amigos tem o dom de quebrar todos os nossos copos, não é?) você pode
fazer uma leve adaptação na parte superior dela e usá-la como um copo (e se
a adaptação for bem feita, seus lábios estarão um bocado seguros de cortes
causados pelas bordas vivas do metal fino). Você pode amassá-la e jogá-la no
lixo, e tem gente que acha isso um bocado gostoso. Você pode fazer muitas
outras coisas com ela, basta olhar para lata e ter aquele pensamento do tipo
"Ei! Se eu fizer isso e isso e isso com ela, ela pode servir para tal
coisa". Até aí nenhuma novidade, né? Gastei uns 10 minutos de vocês a toa?
Acho que não. O próximo passo que é interessante, e ele depende deste
passo...

 E se eu disser que esta "coisa" que vocês estão segurando na mão não É uma
lata? Se eu disser que ela não se CHAMA lata, e que portar cerveja ou
refrigerante ou suco em seu interior não é algo NATURAL (e... ok... eu me
rendo... INTRÍNSECO) a ela? Se eu disser que LATA é apenas um nome, e que
portar líquido é apenas um uso, e que ambos foram agregados a ela da mesma
forma que colamos um post-it na borda de nosso monitor ou damos nome a um
cachorro? Estamos chegando a um ponto interessante, não é? É aí que começa a
parte que me interessa falar...
 Os objetos (e TUDO no universo é, sob certo ângulo, um objeto), sejam eles
naturais ou fabricados, possuem em um dado momento algumas propriedades
naturais (que, em última análise, podem elas mesmas não ser tão naturais
assim, mas vamos em frente). Sua forma, seu peso, o material do qual é feito
(com suas propriedades químicas e físicas), sua cor, seu cheiro, etc e tal.
À maior parte dos objetos agregamos também uma teia de usos, utilidades,
sentidos, sentimentos, emoções... e por vezes estes se tornam tão "ligados"
àquele objeto (sob nosso ponto de vista) que não conseguimos mais nem nos
lembrar de que eles foram atribuídos ao objeto, e que não fazem parte da
NATUREZA dele.

 Se pensarmos que diferentes pessoas, em diferentes lugares, dão nomes
diferentes (e usos diferentes) para os mesmos objetos, podemos entender um
pouco melhor como é a idéia. As formas de manuseio, as técnicas ligadas aos
objetos, o nome e a importância cultural dos objetos, tudo isso muda de
lugar pra lugar e de pessoa pra pessoa. No fim das contas o que existe são
as pessoas, com suas idéias a respeito das coisas... e as coisas. Como eu
disse antes, tudo no universo é, de certa forma, um objeto. Tudo aquilo que
você percebe e manuseia, seja diretamente (como a lata que você tinha nas
mãos) ou indiretamente (como um avião de controle remoto), concreto
(novamente como a lata, ou como o teclado que está na sua frente) ou
abstrato (uma idéia, uma técnica, etc...) é um objeto inserido na sua
percepção do mundo à sua volta. Nós também somos objetos para os outros,
neste aspecto (e nada de piadinhas sobre mulheres e homens objeto aqui. o
papo é sério, ô kct!). Como diz o nosso amigo DPadua, "minha vida é ficção
para os seus sentidos". Mas esta aplicação deste pensamento, a aplicação
dele às pessoas e relações, é algo muito complicado. Vamos nos ater, por
agora, talvez, a pensar a aplicação dele a objetos inanimados (ao menos, os
que parecem inanimados a princípio).

 Vamos pegar o exemplo de uma garrafa. Aqui no Brasil pode-se falar
"garrafa" e ser entendido como falando daquela coisa que eu e você
(provavelmente) chamamos de garrafa. Por outro lado, posso inferir que haja
aqui mesmo no Brasil outros nomes ligados à mesma coisa que chamamos de
garrafa. Como um exemplo meio cara de pau, eu cito alguns amigos meus que
chamam as garrafas de cerveja de "ampolas". Saindo um pouco do Brasil, em
vários países há pessoas que agregam outros nomes àquela mesma coisa que
chamamos de garrafa. Pode-se dizer que em quase todos os lugares do mundo
ela tem um uso parecido, mas isso não é necessáriamente verdade. Em um filme
um tanto antigo, chamado "Os Deuses devem estar loucos" (se não me engano),
uma garrafa de Coca-Cola cai em meio a uma tribo africana. Sem entender ao
certo o que é aquilo, e sem uma idéia formulada sobre aquele objeto, e
influenciados pela forma como aquela garrafa foi parar lá (caída dos céus,
de um avião), eles a usam como objeto de adoração. Eles nem sequer chamariam
ela de garrafa. Deram a ela outro nome. Dando um outro exemplo, eu poderia
afirmar sem medo de errar que quase todo mundo que está lendo este email até
aqui (que é, portanto, gente MUITO interessada no assunto) pode me dizer uma
dezena de usos criativos para garrafas pet. Para a maioria que as vê cheias
no supermercado ou na geladeira, ou vazias a caminho do lixo, elas parecem
ser apenas garrafas que servem apenas para guardar o seja qual for o líquido
que tenham dentro delas. Mas olhando pra elas vazias, e pensando que
recortadas elas podem virar recipientes initeressantes de boca larga (eu
mesmo tenho um incensário feito com uma garrafa plástica), ou que quando
tampadas elas formam um balão cheio de ar com capacidades ótimas de
buoiância (aaaah, que delícia de palavra bizarra), percebemos que elas podem
virar outras coisas além de garrafas. Eu mesmo adoraria ter uma cadeira, ou
mesmo um daqueles botes de piscina, feitos com garrafas pet. Consumo de
coca-cola e sprite não me faltam...


 Bem... estas são algumas idéias iniciais. Espero que tenham feito sentido
para vocês.
 Desculpem o email ENOOOORME.
 Tive o cuidado de indexar a idéia de uma forma sintética lá no início, para
que todos tenham a oportunidade de entender do que eu estava falando ANTES
de ler este email inteiro. Ainda há muita coisa que quero dizer a este
respeito, mas isso aqui já é o bastante pra começar a conversa.


 Abraços do Duende Rajado Imaginário.


 p.s. querem saber o porquê do título do email? para aqueles que não
advinharem, eu conto depois. :D

 p.p.s. eu poderia ficar escrevendo e reescrevendo este email eternamente, e
nunca enviá-lo. resolvi parir ele logo e enviar. desculpem os erros de
português e o tamanho. é o jeito que o email estava agora. tá prontim para o
manuseio de vcs. façam o que quiserem. são idéias no espaço...

--
Daniel Duende Carvalho
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FelipeFonseca
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