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Então, afinal, não era tão descondizente
assim. :)
----- Original Message -----
Sent: Wednesday, June 14, 2006 8:36
PM
Subject: Re: [MetaReciclagem] Terra em
Transe
realmente, ficou muito bonito. Deu ateh vontade de ver todas as
conjugacoes deste verbo :D
condigamos todos,
amem!
mbraz
Felipe Fonseca <[EMAIL PROTECTED]>
escreveu:
argh.
câncer da sociedade.
abaixo os arianos. dê-lhe aquarianos.
mas
pati, "condiga" é lindo. acho que nunca vi nem o bicarato flexionando
assim o verbo.
f
On 6/14/06, patricia <[EMAIL PROTECTED]>
wrote:
Pessoas,
Não resisto.
Foi a melhor coisa que vi sobre o Brasil na
Copa e o melhor texto sobre a "revitalização" do Centro, essa reciclagem
para um mundo limpinho que o Andrea Matarazzo quer fazer. Talvez isso
condiga mais com a lista do Integração Sem Posse (coletivo que
faz/pensa/cria arte política). Mas não resisto, mesmo. Preciso
compartilhar com vocês, porque me comoveu.
pati
No Anhangabaú, os sem-pátria, os
sem-sofá, os sem-amigos e os sem-amores pararam para
ver (ou tentar
ver) a estréia da seleção de
Parreira na Alemanha
XICO SÁ COLUNISTA DA
FOLHA
Amigo torcedor, amigo secador, o
vale do Anhangabaú, centrão de SP, se transformou ontem no jardim dos
caminhos onde se bifurcam todas as misérias, todas as solidões dos
sem-amores ou dos sem-amigos, os sem-sofá, todos os delírios dos
cheira-colas e dos meninos do crack, todos os patriotismos dos sem-pátria
e sem-patrões, todas as alegrias clandestinas dos sem-teto, todas as
frustrações e bolas perdidas do lumpesinato, o Brasil em transe, o país
que não consegue chegar nunca em casa a tempo de uma estréia da Copa, ali
estavam todos os olhares daqueles que acostumamos chamar, cá entre nós, de
perdedores. O mendigo maneta, de camisa azul-escuro, boné cinza e
cobertor do tipo Paraíba, não estava nem aí para o jogo. Do seu canto, não
se via o telão gigante. Os seus quatro amigos, aos 10min de partida,
tomaram novos goles de pinga e se misturaram à massa. Fácil acompanhá-los:
além dos tombos, eram os poucos não vestidos com algo verde-amarelo. Mais
um bando de brasileiros cinzentos de São Paulo. Mas cobravam cachê por
entrevista. Esqueci as regras do jornalismo e morri com um trocado para
mais uma garrafa da branquinha que levava aquela massa ao
delírio. "José dos Santos Lino, anota aí", liberou o primeiro dos
mendigos, um sem-coisa-alguma mas também homem com olhar ainda altivo. O
cheira-cola atrapalhou o diálogo. Falava como um Guimarães Rosa urbanóide,
nonada, não dava para entender quase uma palavra. O travesti, todo borrado
de maquiagem, traduziu tudo: "Bando de filho-da-puta perdido, deixa o
tiozim [referindo-se a este cronista] em paz". E o jogo? Ah, algumas
famílias, na decência e na estica, apesar de poucos cobres a cada fim de
mês, se portavam com civilidade nunca vista. Eram famílias que se apertam
em quitinetes ali no centro e famílias que chegaram de longe enganadas
pela propaganda oficial do telão. "Não estou vendo nada deste canto",
protestava o pai, Alberto Santana de Araújo, 35, um raro entrevistado ali
naquele transe bêbado que não teve trabalho para pronunciar o próprio
batismo. A mulher, Ivone, 28, mais agoniada ainda. Os meninos, Jonas, 10,
Robson, 9, emitiam aqueles grunhidos infantis de revolta. Uma família
pobre daquelas que ainda têm direito a banho, a uma roupinha em conta no
mercadão do Brás, um zelo de mãe e um pai que teima, na marra, em não
deixar a casa cair por mais que tudo desabe. Araújo é garçom numa
lanchonete ali dos arredores do vale. Ivone faz faxina também na área.
Estão no time dos que teimam, na várzea da vida, para não cair de divisão
social, a terceirona da existência. Jogo que é bom, quem fosse
baixinho, como a família decente, só via as cabeçadas nos escanteios dos
altos croatas. Por isso que os homens-gabirus correram para o alto do
viaduto do Chá, de onde viam a miragem da pátria em chuteiras. Para os
perdidos das ruas ou os loucos solitários do centrão, tudo era festa, o
que quer que fizesse o milionário escrete canarinho. Do telão para o chão
dos sem-estrelas tanto fazia. "Num ganho nada com isso", berrava um
homem-sanduíche existencialista, logo após o gol do Brasil. Não que os
perdedores na vida fossem secadores. Ao contrário. A grande massa, noves
fora os delirantes bêbados e cheira-colas, vestia o manto do patriotismo
verde-amarelo. Ao fim do jogo, numa terra de gente alegre, havia uma
torcida não de tudo triste, mas com um leve olhar de vira-lata -como os
cães que acompanhavam os mendigos-, o corpo coçando com as pulgas da
desconfiança. _______________________________________________ Lista
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-- FelipeFonseca
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