"... Wavelenght* não é descritível. Descrevê-lo implicaria em descrever as alterações de luz, os reflexos no teto da sala provocados pela passagem dos carros na rua, a textura dos fotogramas etc. Wavelenght é tão indescritível como uma catedral de Monet ou uma Santa Vitória de Cézanne. Quase sempre, quando falamos de filmes, não é deles que falamos, e sim dos andaimes interpretativos que erguemos em volta deles. Quando a obra é narrativa ou expositiva, a nossa ilusão até pode ter algum fundamento, mas em geral nosso discurso se refere ao enredo e às suas possíveis significações psicológicas, morais, sociais ou outras. Quando o filme não é nada mais do que é, quando não é simples suporte instrumentalizado para transmitir informações, isto é, quando a forma é o conteúdo e o conteúdo é a forma, o discurso descritivo beira o impossível. Snow, em uma carta (...), fala, a respeito de Cézanne, em obras que simultaneamente representam e são alguma coisa. Quando na obra representar e ser coincidem, o discurso a seu respeito só pode ser alusivo, nunca consegue se apropriar da obra."
 
* filme de Michael Snow, do fim dos anos 60.
 
Isso está no livro de Jean-Claude Bernadet sobre os filmes de Abbas Kiarostami (Caminhos de Kiarostami). Me remeteu a minha dificuldade de explicar o que é MetaReciclagem...
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