Ilude-se quem pensa que são os esfomeados quem decidem os rumos políticos no e 
do Brasil.
Sem poder mexer na evasão de riquezas brasileiras, constante fundadora do 
sistema capitalista desde a expansão mercantil do século XVI; sem poder 
enfrentar a lógica da agiotagem global que transforma vida humana e a natureza 
em combustível, para ser incinerado na produção de moedas fictícias do filme de 
terror chamado “sistema financeiro internacional”; sem poder mexer nas 
estruturas fundantes da fome, da miséria e da violência generalizada, o governo 
atual leva adiante a política anterior de retirar qualidade de vida do que 
sobrou da classe média. Há um interesse claro da elite que governa o país em 
gerar consumo e emprego nos próximos anos; até o capital financeiro se ressente 
do enfraquecimento progressivo da circulação e produção de bens e moeda, no 
Brasil. Esse interesse, no entanto, está voltado para o consumo e não para a 
qualidade de vida da população.
Estratégias como o programa “Fome Zero” são voltadas para a contenção do 
desespero, da revolta e da marginalização. É a elite se entendendo com a 
miséria, os dois elementos ativos da barbárie imperialista. A classe média 
vinculada à prestação de serviços no setor público, por exemplo, foi sempre 
pensada como aliada principal da burguesia na sustentação do sistema 
capitalista; no Brasil, esta classe média foi criada como setor decisivo da 
articulação do tecido social a partir da revolução de 1930 e, no interior dos 
diversos governos desenvolvimentistas que se seguiram, inclusive durante a 
ditadura militar. Com a globalização, a invasão das  novas tecnologias em todos 
os países – fenômeno já em construção teórica desde a década de 1950 – gerou 
uma nova ordem social; o trabalho ainda é um lugar de exploração de mais valia 
pelo capital, mas ele é também um bem escasso e concentrado em uma população 
privilegiada, dentro do sistema, em relação aos desempregados, esfomeados e 
excluídos em geral. Dentro desta população privilegiada que trabalha, os 
servidores públicos são o setor que mais ameaça o poder imperialista. É nesse 
sentido que a classe média vinculada à prestação de serviços é alvo de combate 
dos discursos oficiais; os servidores públicos vieram a ser a fração da 
sociedade brasileira – e acho que do mundo inteiro -  detentora da maior 
quantidade da riqueza mais importante nos próximos séculos: tempo livre e, em 
conseqüência, maior liberdade de ir e vir.
O tempo livre é a riqueza que vai definir o futuro de uma nova humanidade, 
sucessora da civilização que hoje se fragmenta e se desintegra.
Todo e qualquer sentido moral positivo que possa ter a palavra democracia 
depende, na atualidade, do fortalecimento de liberdades que são geradas pelo 
tempo livre associado ao trabalho qualificado de jornada reduzida.
Não há nenhum projeto de fortalecimento dos setores democráticos da sociedade, 
falo daqueles setores que não fazem parte do binômio sadomasoquista  “elite 
desumanizadora mais despossuídos desumanizados”, e  tudo isso está envolto em 
uma dialética revolucionária, porque recoloca na ordem do dia os movimentos de 
contra-cultura que foram sufocados nas décadas de 1980 e 1990. O agir 
revolucionário a favor da dignidade  de cada ser humano e do bem comum não está 
mais nas mãos da social democracia vitoriosa nas urnas, ele depende da ação 
direta e da consistência programática de movimentos sociais que não dependam da 
aprovação da mídia para existirem, movimentos que tenham a força moral de não 
esperar sucesso fácil e imediato (acho que já disse isso antes)...

insistir, resistir, existir?
ou,
penso, logo desisto?

saudações da arte no front
elenara cariboni iábel

> Date: Sat, 29 Jul 2006 08:39:45 -0300
> From: " Nê Bardi "
> Subject: Re: [MetaReciclagem] para quem nao conhece e para quem
> esqueceu
> To: "Lista do projeto MetaReciclagem"
> Message-ID:
>
> Content-Type: text/plain; charset=ISO-8859-1; format=flowed
>
> Pois é. E um grande problema a se enfrentar no período
> eleitoral foi exposto dessa maneira por Bertrand Russel:
>
> "Se um homem te oferece democracia e outro te oferece
> comida, até que grau de fome você prefere o voto?"
>
> Abs,
> Nê.
> ---
> "O que não é nosso, num mundo em que tudo nos roubam?"
> Mia Couto, em O Outro Pé da Sereia.
> ---
>
>
> On 7/28/06, banto wrote:
> > O Analfabeto Político
> > Bertolt Brecht
> >
>
>

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