Pequenas emissoras e rádios comunitárias pagarão a conta do rádio digital
23/08/2006 Ana Rita Marini e James Görgen

Enquanto 15 grandes rádios comerciais do Brasil testam o padrão de rádio 
digital Iboc e importam equipamentos com a autorização do governo há 
praticamente um ano, as emissoras pequenas, públicas e comunitárias estão 
marginalizadas deste processo. A maioria delas não sabe como irá financiar sua 
transição para o mundo digital se o governo resolver implantar no Brasil a 
tecnologia norte-americana, mais cara que as demais, sem considerar outras 
opções e sem fazer um debate mais aprofundado sobre o futuro do rádio no País. 
Com base nas estimativas dos preços de mercado dos equipamentos o FNDC estima 
que a transição desta nova tecnologia com a adoção do padrão proprietário Iboc 
poderá custar R$ 15,7 bilhões ao cidadão e mais de R$ 1,3 bilhão às emissoras.

Mais de um terço desta conta será paga pelas 2.548 rádios comunitárias que 
operam hoje com licença provisória ou definitiva. Atualmente, uma rádio de 
baixa potência pode ser constituída por menos de R$ 5 mil em equipamentos. O 
custo para uma rádio migrar para o padrão IBOC parte de R$ 60 mil. Isso se for 
trocado apenas o modulador, no caso de ser uma emissora ultra-moderna, que já 
opere com equipamentos compatíveis à tecnologia digital. Se tiver que instalar 
todos os equipamentos, a migração para o padrão digital IBOC parte de um mínimo 
de U$ 100 mil.
Conta salgada

PARA O CIDADÃO

Número lares com rádiosDesembolso médio/larDesembolso
em 10 anos
1 receptor/lar45.430.369R$ 200R$ 9,086 bi
Financiamento indireto via publicidade
45.430.369R$ 14,70/anoR$ 6,678 bi
Total consumidorR$ 15,764 bi

Fonte: ANATEL, Sistema de Controle de Radiodifusão. Acesso em 2/8/2006
IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, 2004
Projeto Inter-Meios, 2005

PARA AS EMISSORAS
Número emissorasCusto médio
por estaçãoDespesas
em 10 anos
FMs Comerciais2.435R$ 200 milR$ 487 mi
AMs Comerciais1.709R$ 200 milR$ 341,80 mi
Comunitárias2.548R$ 200 milR$ 509,60 mi

Total emissoras
6.692
R$ 1,338 bilhão

Fonte: ANATEL, Sistema de Controle de Radiodifusão. Acesso em 2/8/2006
IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, 2004
Projeto Inter-Meios, 2005

União dos pequenos - Sobrevivendo graças às doações de pessoas físicas, as 
rádios comunitárias não pretendem ser excluídas economicamente do espectro em 
virtude de uma decisão tomada sem a aprovação e o conhecimento da sociedade. 
“Neste momento, fazemos um movimento para que o governo pare com os testes com 
o padrão Iboc que vêm sendo realizado em várias cidades. Queremos que seja 
feito para o rádio digital um decreto nos mesmos moldes do decreto 4.901/03 da 
TV digital, que seja criado um espaço de discussão, com Conselho Consultivo, 
Conselho gestor. Esperamos que sejam destinados recursos para desenvolver 
pesquisas na área, quem sabe até criar um padrão brasileiro”, resume o 
coordenador de comunicação da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária 
no Rio Grande do Sul (Abraço/RS), Josué Lopes.

Os ativistas do movimento das rádios comunitárias também estudam maneiras de 
promover uma articulação com as pequenas rádios comerciais e educativas a fim 
de informar sobre os custos da transição e articular uma reação conjunta ao 
jogo de cartas marcadas que se estabeleceu entre agentes do governo federal e 
os grandes radiodifusores. Cleber Trommer, assessor do Bispado de Santa Cruz do 
Sul (RS), entidade mantenedora da Rádio Santa Cruz AM 550, uma emissora de 
médio porte que abrange 120 municípios da região central do estado, 
correspondendo a cerca de 1,5 milhão de ouvintes, concorda que é preciso uma 
ação comum. “Se não for discutida antes, a mudança para o rádio digital vai ser 
um caos. Não existe nenhum tipo de financiamento, por parte do governo, para as 
emissoras fazerem a atualização de seus equipamentos”, aponta. Segundo ele, no 
RS as emissoras AM estão quebrando, e nesta situação não podem se preparar para 
a transição para o sistema digital. “As rádios, no RS, estão sucateadas”, 
alertou, apontando para a necessidade de discutir sobre abertura de 
financiamento para as emissoras se modernizarem e, mais, para o que considera, 
neste momento, a grande interrogação: “o que queremos do rádio digital?”
"Queremos qualidade de conteúdo", salienta o jornalista Dogival Duarte, 
vice-diretor da Rádio Santa Cruz. Mesmo com dificuldades, a emissora está se 
preparando para o futuro renovando o parque de torres e instalando um novo 
transmissor, o que representa um investimento de cerca de R$ 300 mil. 
Posteriormente, terá que investir ainda na tecnologia digital. Para esta 
renovação, a Rádio Santa Cruz AM empenha-se em conseguir financiamento através 
de instituições privadas e recursos próprios. Dogival não acredita que o 
governo irá abrir qualquer programa de incentivo. “Tenho certeza que o governo 
só vai ajudar os grandes radiodifusores, os que têm lobby dentro do Congresso. 
Não acho que o rádio digital seja a oitava maravilha do mundo, nem sei se terá 
essa qualidade toda de som”, questiona.
Casa de ferreiro... - Uma das alegadas vantagens técnicas do padrão americano 
de rádio digital, permitir que a transmissão digital seja feita dentro da mesma 
faixa de freqüência analógica - foi seriamente arranhada nas últimas semanas. A 
empresa Ibiquity, proprietária do padrão IBOC, pediu à Comissão Federal de 
Comunicações, agência reguladora dos setores de radiodifusão e telecomunicações 
nos EUA, a ampliação do uso de espectro de 200kHz para 250kHz. A avanço de 
freqüência pode significar uma redução de cerca de 30% no total de canais FM 
hoje disponíveis naquele país. “Além de ser um padrão que já excluiria pela 
questão econômica, em função do alto custo dos royalties, agora exclui pela 
questão técnica”, declarou Josué Lopes ao e-Fórum, no dia 29/7.

O custo da transição para o rádio digital no padrão Iboc é tão alto que nos 
Estados Unidos existe um fundo exclusivo para financiar a migração das rádios 
públicas. A linha é mantida pela Corporation for Public Broadcasting (CPB), uma 
entidade não-governamental sem fins lucrativos criada em 1967 que recebe 
recursos do orçamento federal para apoiar as despesas operacionais de mais de 
mil estações de rádio e televisão de caráter público em diversas localidades do 
país. A ela estão ligadas as três principais redes públicas dos EUA: a Public 
Radio International (PRI), a National Public Radio (NPR) e a Public 
Broadcasting Service (PBS).

O crédito do Fundo de Conversão para Rádio Digital pode ser usado para a compra 
dos transmissores digitais, kits de conversão, antenas, processadores de áudio, 
conversores analógico-digital, equipamentos de teste, painéis e outros 
componentes necessários. De acordo com o programa, os recursos cobrem até a 
taxa anual de licença, no valor de US$ 5 mil, cobrada pela proprietária do 
padrão, a empresa Ibiquity.

Cada projeto é financiado com um limite de US$ 75 mil por transmissor 
convertido no caso de rádios locais, podendo chegar a US$ 85 mil para emissoras 
rurais e de minorias étnicas. Em média, os custos dos projetos apresentados 
giram em torno de US$ 120 mil a US$ 130 mil. Neste ano, a previsão da CPB é 
liberar US$ 13 milhões para a transição de 200 rádios públicas. Em 2007, a 
dotação do fundo deve ser ampliada para US$ 40 milhões. Desde junho de 2003, o 
programa já subsidiou a migração de 457 rádios. A organização também mantém com 
os fabricantes de equipamentos uma política de descontos que gira em torno de 
10% a 22% sobre o valor de mercado. No momento, porém, o fundo está fechado 
para a concessão de novos projetos.
Solução nacional - Menos complexo que a tecnologia digital da televisão, o 
desenvolvimento de uma solução nacional para o rádio pode ser uma saída para 
uma solução que não comprometa a saúda financeira das emissoras. Em Santa Rita 
do Sapucaí (MG), pólo industrial do setor de equipamentos de radiodifusão, 
existe alternativa concreta ao Iboc. Uma das empresas já desenvolveu um 
transmissor nacional, aberto, batizado de DSHP (Digital System High 
Performance). Segundo o engenheiro de telecomunicações Júlio Prado Rocha, 
diretor da Teclar Equipamentos Eletrônicos, o padrão mineiro é mais moderno e 
eficiente que o Iboc e tem a vantagem de ser um produto nacional.

O DSHP foi idealizado a partir do sistema de compressão de dados MPEG-3. 
“Colocamos o MP3 no ar”, explica o engenheiro. O DSHP é um modulador que 
aproveita toda a base de uma rádio analógica já instalada, seja qual for a 
estrutura (pequena ou grande). Tem um custo estimado de R$ 15 mil. Por estas 
características, apresenta-se como uma tecnologia viável para as rádios de 
baixa potências, as comunitárias e as pequenas rádios comerciais. “O IBOC é 
tecnicamente razoável, tem a qualidade de aproveitar parte da estrutura do 
rádio. Porém, é um padrão fechado, fornecido por três ou quatro empresas, no 
mundo, às quais se devem pagar royalties, o que o torna limitado e caro”.

A Teclar busca uma interlocução com o governo federal para apresentar o DSHP. A 
intenção da empresa, segundo Julio Rocha, é que o ministro das Comunicações, 
Hélio Costa, os receba ainda na próxima semana e autorize os testes com o 
padrão brasileiro. Menos de seis meses, segundo o engenheiro, é o tempo 
suficiente para testar a nova tecnologia.

Confira o nome das rádios que receberam autorização da Agência Nacional de 
Telecomunicações (Anatel) para fazer testes experimentais com o padrão Iboc:
Rádio Excelsior Ltda. AM São Paulo/SP
Rádio Excelsior Ltda. FM São Paulo/SP
Rádio e Televisão Bandeirantes Ltda. AM São Paulo/SP
Rádio e Televisão Record S/A AM São Paulo/SP
Sompur São Paulo Radiodifusão Ltda. FM São Paulo/SP
Rádio Vox 90 Ltda. FM Americana/SP
Rádio Cultura de Campinas Ltda. FM Campinas/SP
Rádio Santo Antônio de Posse Stereo Som Ltda. FM Santo Antônio de Posse/SP
Sistema Atual de Radiodifusão Ltda. AM Itapevi/SP
Rádio 99 FM Stereo Ltda. FM Santo André/SP
Rádio Mundial S.A. AM Rio de Janeiro/RJ
Rádio Gaúcha S.A. AM Porto Alegre/RS
Rádio Itapema FM de Porto Alegre Ltda. FM Porto Alegre/RS
Rádio Tiradentes Ltda. AM Belo Horizonte/MG
Rádio Sociedade da Bahia S/A AM Salvador/BA

Fonte: FNDC

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