Edgard Piccino wrote:
Maravilha Stalker!
Colocando Wittgenstein e Von Neumann no liquidificador, a linguagem poderia
ser um jogo de soma não zero, ou seja, é um jogo onde não necessariamente
alguém perde. Poderia ser, mas talvez não seja, pois ao "falarmos" "o que a linguagem é" utilizando a própria linguagem (metalinguagem?) modificamos a
linguagem, os conceitos de linguagem e a nós mesmos.
Ninguem se expressa sem se meta-expressar... as instituições constituídas é que enviezam nosso sujeito coletivo para essa esquizofrenia: a literalidade (que nunca existe)

Cade o chão?
Ande que você vai saber.

Conceituar o conceito seria "metaconceituar"? Reciclar a reciclagem seria
"metareciclar"? Se fosse não seria só isso...
Nada é sua literalidade. Metareciclagem caminha como a bricolagem, só que sem o estigma de diletantismo da bricolagem... que foi acantonada pelo capitalismo como um fazer marginal. Nós vamos para partir desse cantão para dar outra perspectiva para máquinas e mentes.

***

Sobre as bonecas russas (maravilha), o Tantra tem uma máxima que diz o
seguinte: "o que está aqui está lá, o que não está lá não está em lugar
nenhum". O Edgar Morin - quase sobre isso - lembra da holografia (eu prefiro
os fractais), onde o todo está na parte e a parte está no todo.
São fenômenos próximos, os dois trazem a baila uma simetria pouco pensada, que é a simetria entre escalas. Só que o fractal tem uma diferenciação de planos (a auto-simetria entre escalas aparece entre limiares) e a holografia não: parta um filme holográfico em dois e projete o laser que os dois mostrarão toda a imagem do primeiro, assim como se você partir em mil também. Não tem um limiar onde a semelhança aparece, ela aparece em todas as frações (claro que qto mais fracionado, menos nítida a imagem vai ficar, o que não acontece com o fractal).


***

"Relaxa e goza"
"Sem tesão não há solução"...
Só levo a sério as pessoas que não se levam a sério... parabéns pelo humor,
ganhou um admirador.
Sem vagabundagem => sem senso de nonsense => sem pensamento hipotético (o mais arriscado, o único inventor)

Semiótica ou serve para rir, ou serve para escravizar (e eu passo a vida para arrancar a semiótica do seu papel escravizador)

Abs

Edgard



On 9/7/06, Stalker <[EMAIL PROTECTED]> wrote:

Uhú! "Eu sou uma núvem de núvens" (metareciclando Maiakovski).


HD, tudo deleuze com você? Cuidado para não ficar deleuzelumbrado... :-P

Antão, comentários às intervenções desse thread (a gente devia traduzir
"thread"... fieira, meada ou mesmo, porque não, cordel)...


Hernani Dimantas wrote:
> q nada... é por aí mesmo!
> abs
> hdhd
>
> On 9/6/06, Edgard Piccino <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
>> Eu gosto desta metáfora (prefiro encarar assim).

Uma metáfora é uma charada com resposta: você cisma de inventar uma
semelhança entre entes (ou conceitos, ou núvens...) até então díspares e
usa uns para significar os outros...

    (Causo de uma charada: Dois amigos, um padre, outro bebum, viciados
    em charadas. Um dia, o padre passa pelo bebum caído e o xinga: "Seu
    pau d'água". O bebum: "Duas e uma, padre!". O padre fica
    cismadíssimo. Depois de muita cisma, saca que, inconsciente, o amigo
    lhe propôs uma charada (duas e uma é dica da resposta: duas sílabas,
    uma sílaba, equivalente a "padre") Resposta: Viga (duas sílabas) rio
    (uma sílaba), Vigário = Padre. )


Depois de respondida a charada, o que era distante fica próximo, o que
era díspar vira análogo, o opaco fica translúcido (mas não
transparente)... o que era estranho parece óbvio ("como é que eu não
pensei nisso").

Na metáfora, não basta a analogia, tem que ter a distancia... ao saltar
a distância pela semelhança (conhecida, suposta, ou inventada),
projeta-se uma perspectiva sobre os entes conectados... o sentido da
metáfora é não apenas a semelhança através da diferença, mas também
(isso é implicito, mas é onde mora o poder da metáfora) uma perspectiva
nova sobre os seres conectados que produz um outro contexto e muda (não
só o "significado", muda o próprio modo de ser) dos entes conectados.


>> Se estou bem lembrado,
>> Deleuze compara um conceito a uma núvem de outros conceitos, que vai
>> mudando
>> de forma a medida que os outros conceitos também vão se modificando.
Palavras, mentes, máquinas: abra-as e vai encontrar outras. Abra estas,
e vai encontra mais. Desista de esmiuçar e volte aos "inteiros": tente
definí-los e vc quebra a cara, porque eles não são nada sem estarem
conetados a outros entes formando entes mais complexos. Suba para os
mais complexos e vc topa com a mesma situação. E aí, vc desiste de
definir e saca que conceituar é esse abre-fecha ilimitado.

(A encrenca do Wittgenstein, que me conste, é achar que isso se limita
às suas adoradas palavras: nada, signos verbais são só um caso disso. E
não existiriam se todo o cosmos não fosse do mesmo jeito. )

O mundo não tem fundo. "A criatividade é o último" (Whitehead): o
abre-fecha não deixa nada intacto, a ação do investigador é mais outro
ente que vai torcendo todo o real enquanto anda / cresce.
>>
>> Ou seja, um conceito é dinâmico e se modifica ao longo do tempo.
>> Neste caso
>> nenhuma conceituação é definitiva, e é sempre uma construção
>> coletiva, uma
>> vez que diversos atores modificam os conceitos que gravitam em torno do
>> conceito buscado.
>>
>> Neste caso uma livre associação das enunciações ajudam a visualizar
esta
>> núvem. Os mapas conceituais (ou mapas mentais) são interessantes
>> ferramentas
>> para bagunçar as idéias.
A retórica (que não se limita aos signos mentais, está em toda parte, em
todos os seres vivos e mesmo nos "inertes") é a fábrica desses mapas.
Mapa é um diagrama, todo diagrama pressupõe uma metáfora, ou seja, que
por sua vez seriam "fazer emergirem perspectivas".
>>
>> Divaguei né?
Vagou... quem a mente que não vagabunda, não pensa! ;-)
>>
>> Abs
>>
>>  Edgard
>>
>>
>> On 9/5/06, Hernani Dimantas <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
>> > agenciamento coletivo da enunciação.... MUITO interessante
>> >
>> >
>> > On 9/5/06, Edgard Piccino <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
>> > > Deleuze conceitua conceito como um agenciamento de conceitos.
>> > >
>> > > Acho isso interessante... mas só interessante...
Bonecas russas... sem a última, menorzinha, nem a primeira... isso é uma
cosmologia bem linda, bem antiga e bem marginalizada (Platão, Santo
Agostinho, os nominalistas, Descartes, Comte e seus positivistas
detestam-na!): em cada átomo, um universo, cada universo átomo de outro...
>> > >
>> > >
>> > > On 9/5/06, Stalker < [EMAIL PROTECTED]> wrote:
>> > > >
>> > > Felipe Fonseca wrote:
>> > > > e voltando à eterna pergunta (1), agora é o novaes
>> > > > quem contribui mais um pouco:
>> > > >
>> > > >
>> > >
>>
http://blogs.metareciclagem.org/novaes/2006/09/03/pensando-metarec-descontruir-tecnologia/
>>
>> > > >
>> > > >
>> > > > (1): o que é MetaReciclagem?
>> > > FF, tem pelo menos dois jeitos de definir qualquer objeto
>> ("objeto" no
>> > > sentido lógico, algo q se pensa, de que se fala e/ou se usa...)
>> > >
>> > > (1) o jeito nominalista (que é o típico modo positivista moderno de
>> > > conceituar, contra todos os hábitos práticos cotidianos) de dar
>> > > definições, tipo "isto é aquilo", verbete de dicionário. Se defino >> > > "banco" como "objeto construído com um tampo elevado para apoiar o >> > > corpo, apoiado de maneira estável no chão", parece tudo bem até eu >> > > encontrar um assento retrátil de elevador, que todo mundo chama de
>> > > "banco", mas que eu tenho que inventar outro nome para chamar,
>> porque
>> > > escapou da definição.
>> > >
>> > > (2) o jeito realista (empiricista, só confia nos fatos
acontecidos),
>> > > "isto é o que há de comum nessas coisas todas", parecido como
>> discurso
>> > > de etnólogos etnocêntricos, vê o que se repete e se define o
>> objeto pelo
>> > > que não muda nos casos todos. Isso funciona mais ou menos no
>> cotidiano,
>> > > banco é essa coisa de três ou quatro pernas, com um tampo, sem
>> encosto;
>> > > mas se eu encontro um banco de duas pernas (bom para vigias
>> > > noturnos...), vou ter que mudar toda a definição, porque "vivo no
>> > > passado" dos objetos que já foram pensados, falados e usados e não
>> > > projeto os usos futuros. Uma definição de enciclopédia é isso,
>> porque
>> > > mostra a rede de outros objetos na qual o objeto se torna o que
>> é... mas
>> > > falha porque não projeta os usos futuros. A
>> > >
>> > >
>> > > (2) o jeito pragmaticista (que é, no cotidiano, como as pessoas
>> > > espontaneamente conceituam os objetos) que é seguir os usos do
>> objeto,
>> > > tipo "isto costuma servir ou ser usado para aquilo, mas não só". Se
>> > > defino como "banco" como "objeto que serve para sentar e
>> descansar as
>> > > pernas, mas não para encostar o corpo", o banco do elevador não
>> vai ter
>> > > problema. Esse tipo de definição persegue os usos reais e
>> possíveis (na
>> > > linguagem técnica da filosofia: arranjos actanciais atuais e
>> > > virtualizados) de determinado objeto, que ao mesmo tempo servem à
>> > > produção do objeto e que organizam a lógica de seu uso num
>> determinado
>> > > tipo de situação.
>> > >
>> > > A rigor, isso não é mais 'de-finir' (marcar os limites) mas, mais
>> > > extamente, "conceituar": o conceito não é nem uma idéia abstrata
>> > > aplicável, nem uma série de ocorrências passível de abstração,
>> mas um
>> > > hábito coletivo (coletivo no sentido de aglomerado de sujeitos
>> humanos e
>> > > não humanos) que ao organizar acontecimentos presentes e futuros,
se
>> > > desenvolve e se transforma.
>> > >
>> > >
>> > > Claro que eu gosto mais da última. E imagino, pelo que você
>> contou do
>> > > seu trauma com as aulas de semiótica (ah, malditos professores
>> caretas e
>> > > desapaixonados de semiótica !) que tambem o agrade...
>> > >
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