Terça, 25 de outubro de 2005, 15h28 Atualizada às 17h51
EUA mandam PCs inúteis para nações pobres
Computadores e outros equipamentos enviados dos Estados Unidos para
países em desenvolvimento, para serem utilizados em lares, escolas e
empresas, são em grande parte inúteis ou não têm conserto, e estão
criando um enorme problema ambiental em alguns dos lugares mais pobres
do mundo. A informação está no relatório The Digital Dump: Exporting
Reuse and Abuse to Africa, lançado pela organização não-governamental
Basel Action Networked (BAN), que tem sede em Seattle. A ONG critica
duramente a estratégia dos Estados Unidos para livrar-se de seu lixo
tecnológico.
O relatório diz que os equipamentos obsoletos estão sendo doados ou
vendidos por empresas norte-americanas que estão trocando suas máquinas
como uma maneira de evitar a despesa que essas companhias teriam se
fossem reciclar corretamente seus computadores. O estudo da BAN foca
principalmente a Nigéria, na África ocidental, mas afirma que a situação
é semelhante em muitos países em crescimento, conforme reportagem
publicada no New York Times. O relatório pode ser lido (em inglês) no
site da BAN: www.ban.org .
"Frequentemente, a justificativa de estar construindo 'pontes sobre a
brecha digital' é usada como desculpa para disfarçar e ignorar o fato de
que essa pontes servem para transferir lixo tóxico", diz o relatório da
ong. Como conseqüência, a Nigéria e outras nações em desenvolvimento
estão carregando uma carga desproporcional do lixo mundial oriundo dos
produtos de tecnologia, de acordo com Jim Puckett, coordenador da BAN.
O porto da capital nigeriana, Lagos, recebe mensalmente contêineres com
equipamento eletrônico de segunda mão. Cada contêiner tem em torno de
800 computadores, o que soma 400 mil máquinas usadas a cada mês. "Os
nigerianos nos dizem que estão recebendo em torno de 75% de equipamentos
inutilizados, que não podem ser consertados"
, disse Puckett.
A ONG visitou Lagos onde verificou que, apesar da crescente indústria de
tecnologia, o país não tem infra-estrutura para reciclar os componentes
desta indústria. Assim, os equipamentos inúteis vão parar em aterros ou
lixões a céu aberto, onde as toxinas podem poluir o solo, a água e criar
condições insalubres. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança dos
EUA, mais de 63 milhões de computadores se tornarão obsoletos no país em
2005. Esses equipamentos contêm chumbo, cádmio e plásticos variados,
entre outros componentes, todos nocivos ao meio ambiente e aos seres
humanos.
Puckett disse ao NYT que a BAN identificou 30 recicladores nos Estados
Unidos que concordaram em não exportar lixo eletrônico para nações em
desenvolvimento. "Estamos lutando para que se torne uma prática comum o
teste e a certificação do material enviado", afirmou. A ONG trabalha
também para reforçar a COnvenção da Basiléia, um tratado da ONU que
tenta limitar o comércio de sobra de materiais perigosos. Os Estados
Unidos são o único país desenvolvido que não assinou o tratado.
Em 2002, a Basel Action Network foi co-autora de outro relatório
destacando que 50% a 80% dos equipamentos eletrônicos usados coletados
para reciclagem nos Estados Unidos era desmontado e reciclado sob
condições irregulares e nocivas à saude na China, na Índia, no Paquistão
e em outras nações em desenvolvimento. O novo relato reforça: os
americanos podem ser enganados ao pensar que seus velhos PCs estão sendo
postos a serviço do bom uso.
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