Nota pública

Os "entraves" para o desenvolvimento, segundo o presidente Lula

A Comissão Pastoral da Terra só agora, mais de uma semana depois, vem a
público manifestar-se sobre as infelizes declarações do presidente Lula
quando, em plena Amazônia, elencou "os entraves para o desenvolvimento" que
o Brasil enfrenta. E entre os "entraves" citados estão o meio-ambiente, os
quilombolas, os índios brasileiros e o ministério público.

Não imaginávamos que o presidente Lula, que fez questão de colocar um negro
e um índio entre os apresentadores de sua campanha eleitoral, no horário
gratuito de Rádio e Televisão, pudesse considerar que indígenas, quilombolas
e as questões ligadas ao meio-ambiente fossem entraves para o
desenvolvimento. Por isso acreditávamos que esta fala teria sido um deslize
e estávamos aguardando uma explicação. Como até hoje o presidente não se
manifestou, julgamos que este é realmente o seu pensamento. As elites
brasileiras desde sempre consideraram os povos indígenas como entraves para
o progresso. Ultimamente, depois da Constituição de 1988, com o início do
reconhecimento de suas áreas, também os quilombolas passaram a ser vistos
por esta mesma ótica. A nossa biodiversidade que é a fonte da riqueza do
futuro deste país e que é defendida valentemente por ambientalistas de
diversos matizes também é considerada entrave para o progresso. Com a fala
do presidente, sentiram-se apoiados e contemplados os grileiros de terra, os
madeireiros e os latifundiários travestidos de empresários do agronegócio
que depredam as nossas riquezas naturais, invadem reservas indígenas, de
quilombos e áreas de preservação ambiental e exploram os trabalhadores deste
país submetendo-os, muitas vezes, a condições análogas a de escravo. Sua
ação sim é que traz "desenvolvimento" para este país, na concepção do
presidente.

O presidente pode muito facilmente eliminar os entraves jurídicos para
realizar as obras que deseja. É só reconhecer e fazer demarcar todas as
áreas indígenas e dos quilombolas Com isso só estará cumprindo o que
determina a Constituição Federal nos artigos 67 e 68 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias. Quanto ao meio-ambiente cabe-lhe cumprir o que
a mesma Constituição estabelece no artigo 225.

A Comissão Pastoral da Terra, que desenvolve sua missão junto aos camponeses
de todo este Brasil e às comunidades tradicionais, apoiando suas ações de
resistência e suas reivindicações pela preservação dos seus direitos
usurpados, continuará nesta luta. Com os bispos e pastores, no seu
pronunciamento Os pobres possuirão a terra "Não reconhecemos a opção pelo
agronegócio como saída para o campo brasileiro".  Conclamamos também a
sociedade brasileira a se envolver com a Campanha da Fraternidade do próximo
ano que tem como tema a Amazônia. É um convite para conhecer a riqueza da
vida e da cultura das comunidades tradicionais de índios, quilombolas,
ribeirinhos e tantas outras que convivem há séculos com a natureza e a
preservam e podem nos dar lições de sabedoria e vida.

Goiânia, 01 de dezembro de 2006


Dom Xavier Gilles de Maupeou d'Ableiges

Presidente da Comissão Pastoral da Terra

Assessoria de Comunicação
Comissão Pastoral da Terra
Secretaria Nacional - Goiânia, Goiás.
Fone 62 4008-6406 / 6412 / 6466
www.cptnacional. org.br
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