Prestes Maia: ameaça de reintegração e quatro anos de descaso

Juiz determina que polícia deve cumprir reintegração de posse até 4 de
março; omissa, prefeitura não dialoga com as famílias e, ainda, suspende o
bolsa aluguel
*05/02/2007
*

*
Eduardo Sales de Lima,
da Redação*

Iraídes Ortegal é desempregada, tem 58 anos e deixou Marabá (Pará) em 2002
para fazer tratamento médico em São Paulo e obter trabalho. Mora no terceiro
andar do edifício Prestes Maia, na região central paulistana, a maior
ocupação vertical do Brasil. Em janeiro, finalmente, Iraídes conseguiu
iniciar o seu tratamento, mas agora é outra questão que lhe tira o sono: a
Justiça – mais uma vez – determinou a reintegração de posse do prédio até o
dia 4 de março.

A paraense divide um espaço de 9 metros quadrados com sua filha, seu genro e
sua neta. Os dois primeiros, também desempregados , sem condições de pagar
aluguel. Decidida, Iraídes afirma que não vai abandonar sua casa e que só
sairá se tiver uma proposta decente da Prefeitura. No apartamento ao lado, a
filha de José Aloísio já completou quatro aniversários desde que a família
mudou para a ocupação.  Foram quatro anos de ameaças de perder tudo, sem que
o poder público apresentasse uma solução para a questão. A última proposta,
do então prefeito José Serra (PSDB): R$ 5 mil e uma passagem de volta para
qualquer lugar que seja. A condição era que  "beneficiário" não permanecesse
em São Paulo.

*Discriminação*
Os sem-teto querem moradia e trabalho. Lugar não falta. Um estudo do IBGE
constatou que, apenas na região central de São Paulo, há mais de mais de 400
prédios e terrenos inteiros fechados ou subutilizados. No caso do Prestes
Maia, os proprietários do imóvel,  Jorge Hamuche (candidato derrotado à
Câmara Municipal) e de Eduardo Amorim, deixaram o edifício abandonado há 12
anos e acumularam uma dívida de R$ 5 milhões em impostos municipais.

"Em todas as manifestações judiciais que fizemos, citamos esse débito, mas o
juiz não o levou em consideração. Na época da desapropriação da gestão
anterior (*Marta Suplicy* -  *PT*), a prefeitura se propôs a pagar R$ 2,5
milhões pelo imóvel, pois, como a dívida do IPTU era de R$ 5 milhões e o
valor do prédio era de pouco mais de R$ 7 milhões, o município pagaria a
diferença. Mas o juiz exigiu que o governo municipal depositasse os R$ 7
milhões. Ele não considerou esse abatimento", explica afirma o advogado do
Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC), Manoel Del Rio.

Além de ser o endereço da esperança de centenas de família, o prédio nesses
quatro anos recebeu benfeitorias, como a construção de uma biblioteca com
3,5 mil livros. Segundo ele, o processo já passou por todas as instâncias e,
nesse último despacho, o juiz deu um prazo para o comandante do batalhão
executar a saída das famílias até 4 de março. Se o policial não cumprir a
ordem no prazo determinado, pode ter decretada sua prisão.

A prefeitura, segundo Del Rio, poderia impedir a reintegração do edifício,
comprometendo-se a atender as famílias. "Se o prefeito (Gilberto Kassab-PFL)
disser que que vai atender às famílias e precisa de determinado prazo, é
possível que o juiz dê esse tempo", diz o advogado. No entanto, isso
exigiria uma visão menos mercantilista do problema da habitação, algo
difícil de se vislumbrar quando se percebe que o atual secretário Habitação,
Orlando de Almeida Filho, é corretor de imóveis há mais de 30 anos.

Para José de Abraão, coordenador da União Nacional de Moradia (UNM), em vez
de o governo dar R$ 5 mil para a família, deveria subsidiar o financiamento
de uma casa digna. "Isso é discriminação contra a população de baixa renda e
contra os migrantes", conclui o coordenador.

*Bolsa-aluguel*
Outro golpe na luta pela moradia em São Paulo foi a decisão da Prefeitura de
suspender o programa bolsa-aluguel, que beneficiava mais de 1500 famílias
espalhadas pela cidade. "A maioria das pessoas que se valiam do programa
irão parar de recebê-lo em fevereiro e março, sem renovação", conta Del Rio,
do MSTC. Os bolsistas seriam encaminhados, posteriormente, a projetos de
crédito ou financiamento de casa própria – promessa não cumprida.

Segundo o advogado, a gestão anterior de Marta se propôs a deixar edifício
da Prestes Maia com menos gente e ofereceu a ajuda para quem estivesse
disposto a sair da ocupação. Agora, com o término do programa, não há
perspectiva.

Em seu Dossiê-Denúncia (estudo realizado nos anos de 2005 e 2006),
noticiado pelo *Brasil de Fato*, o Fórum Centro Vivo apontou que os projetos
de revitalização urbana com ênfase na valorização imobiliária têm expulsado
a população mais carente por meio do "processo de substituição de classes
sociais". O estudo mostra que esse processo está se dando com o fechamento
de espaços públicos, por meio de grades, portões, atuação por vezes violenta
da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e construção de rampas antimoradores de
rua na região da avenida Paulista.

"Com o despejo das famílias da Prestes Maia haveria a segunda etapa dessa
higienização, a primeira foi, logo no início da gestão tucana, quando
suspendeu todas as ordens de recebimento do bolsa-aluguel", ilustra o
advogado do MSTC. Para o Fórum Centro Vivo, as ações do governo municipal
fazem parte de Violações do direito à cidade sustentável  e à Moradia
adequada, a primeira referente ao Estatuto das Cidades e a segunda, à
Constituição Federal.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------
http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia
_______________________________________________
Lista de discussão da MetaReciclagem
Envie mensagens para [email protected]
http://lista.metareciclagem.org

Responder a