O que concordo dessa história toda de discursos é que definimos, com exatidão demais, onde ficam os megafones. Não é qualquer um que discursa, muito menos sobre qualquer coisa; com exceção dos jornalistas, é claro. Mas mesmo eles tão ameaçados. :)
O problema não é discursar. O problema é estar sempre a procurar o discursante ideal, adequado, legítimo, em uma palavra: verdadeiro. Discurso é mentira, mas mentir não é ruim, acho justamente que todo mundo devia explorar os prazeres e diversões que as mentiras, *nossas* próprias mentiras, as caseiras e artesanais, nos oferecem. O que eu mais gostei de fazer rádio livre é ter aprendido a falar por conta própria, ou mentir, o que dá no mesmo. Isso, na nossa sociedade, é uma grande vitória. Minha, no caso, contra minhas identidades, tanto que hoje já nem sei mais onde elas se encontram, se elas foram ou eu que fui pra Croatã, e nem nos despedimos... O perigoso de falar "discursos", "hoje temos e ontem não tínhamos", "as coisas já falaram por si", etcetal, é que isso pode acabar mantendo o hábito de, digamos, as pessoas continuarem indo atrás de um discursante (mas não mentiroso dessa vez!). É o Fórum Social Mundial com seus mundiais palestrantes. Blá. 'Pop'palestra. Não há nada para aprender, nada pra nos iluminar. Bora compartilhar uma fogueira, conversando sobre essas coisas na casinha porrexemplo, discursando sobre nós e o mundo e os outros, que é tudo a mesma coisa. Cês vão blogar idéias depois dessa conversa na casinha? Diz que sim. E conta pra nóis. :) cyrano Em 22/05/07, mbraz<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
como o blog da ocupacao da usp - blog coletivo? - citou uma entrevista de Milton Santos, nao poderia deixar de citar um trecho de seu livro - excelente - A Natureza do Espaco. Alem disso, ja' comeco a introduzir o tema do Dialogos na Casinha desta quinta, que dialogara' sobre aprendizgens: formais, nao-formais e informais. Segue: ... 'Um outro elemento da acao atual e' a retorica, dado fundamental do movimento do mundo. Os objetos novos, que transportam o sistema das tecnicas atuais exigem um discurso. Ate' ontem, os objetos nos podiam falar diretamente; hoje, nos os miramos e eles nada nos dizem, se nao houver a possibilidade de uma traducao. As bulas que, no passado, eram indispensaveis para lermos as virtudes dos remedios, sao hoje uma permanente precisao no mais tolo afazer de cada dia. O aparelho de barbear traz a indicacao de como utiliza-lo e o instrumento mais complicado tampouco se usa sem discurso, criando, na sociedade, os especialistas dos discursos especiais, ao mesmo tempo em que se debilita a capacidade de produzir o discurso do todo, isto e', de entender a historia e propor uma nova historia. Os objetos tem um discurso que vem de sua estrutura e revela sua funcionalidade. E' o discurso do uso, mas, tambem, o da seducao. E ha' o discurso das acoes, do qual depende sua legitimacao. Essa legitimacao previa tornou-se necessaria para que a acao proposta seja mais docilmente aceita, e mais ativa se torne na vida social. Como o discurso invadiu o cotidiano, ele se torna presente em todos os lugares onde a modernidade se instala. Por isso, areas de agricultura moderna e respectivas cidades acolhem um grande numero de pessoas treinadas para ler sistemas tecnicos, verdadeiros tradutores. Por isso, nessas e' grande a presenca do trabalho intelectual que ajuda a formar os novos terciarios. Mas os seus atores estao longe de um entendimento completo do que fazem. Aumenta o numero de pessoas letradas e diminui o numero de pessoas cultas. O discurso das acoes e o discurso dos objetos aas vezes se completam como base da desinformacao e da contra-informacao e nao propriamente da informacao. Por ex., quando o discurso dos objetos e' apenas chamado para legitimar uma acao, mas sem revelar suas propriedades escondidas ou o discurso como base de uma acao comandada de fora que leva a construir uma historia atraves de praxis invertidas. Como todos os dias o mundo esta' inventando uma novidade, cada dia somos ignorantes do que sao e do que valem as coisas novas. Essa criacao cotidiana do homem ignorante tambem leva regioes inteiras a ignorar o que elas sao, sempre que nao conhecem os segredos dos respectivos objetos e acoes. Quanto menos dominam esses segredos, tem menos condicoes de comandar a sua propria evolucao e mais dirigidas de fora tendem a ser. Esse e' um grande dado do nosso tempo. Pelo simples fato de viver, somos, todos os dias, convocados pelas novissimas inovacoes a aprender tudo de novo. Nunca, como agora, houve tanta necessidade de um saber competente, para reinterpretar a licao dos objetos que nos cercam e das acoes de que nao podemos escapar.' ... mbraz ------- ൬βռăʒ _______________________________________________ Lista de discussão da MetaReciclagem Envie mensagens para [email protected] http://lista.metareciclagem.org
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