*A reinvenção da democracia* O fenômeno da Internet muda substancialmente o modelo político que marcou o regime democrático até hoje.
Nas modernas democracias, o sistema de poder funda-se em um jogo que até hoje funcionou de forma eficaz. No topo, interesses econômicos e políticos. Na base, o eleitor. Como ferramenta de controle, a opinião, embasada em duas pernas: uma, a ideologia; outra, os modernos meios de cultura de massa, dominantes a partir do início do século. Não foi outro o papel dos planos econômicos e desse discurso mercadista. Ou, antes, a defesa da reserva de mercado. Através das duas –ideologia e mídia--, se bate nessa entidade chamada "opinião pública", que puxa, pelo efeito-manada, o restante dos eleitores. No meio da campanha eleitoral do ano passado, Fernando Henrique Cardoso cometeu uma de suas incontinências verbais certeiras, ao definir a ele, Lula e Aécio como "macunaímicos". Por tal, identificava a a capacidade de articular essas diversas forças e de fazer o jogo político, do estado espetáculo, preservar os sistemas de poder. O que ocorre hoje em dia é que esse modelo foi rompido por dois fenômenos. Numa ponta, o desaparecimento das ideologias. Na outra, a implosão dos meios de comunicação de massa, com o advento da Internet. O primeiro fenômeno se manifestou de forma curiosa no Brasil. Historicamente, o país nunca dispôs de uma direita ideológica; da esquerda, sim. Com o fim da ex-URSS, a esquerda perdeu as bandeiras; com o fim das esquerdas, a direita ficou sem discurso. Cria-se uma fragmentação ideológica ampla, onde a esquerda perde o discurso e surge uma tentativa canhestra de direita, ambos se refugiando em um discurso virulento, de "abelhas assassinas", mas sem um corpo consistente de princípios programáticos. A ideologia não cimenta mais nada. Por outro lado, o grande jogo de cena midiático acabou. Tome-se o exemplo atual, um festival pasquinesco em torno do romance do Senador com a jornalista. Diverte os menos informados. Mas a mídia não conseguirá varrer para baixo do tapete o episódio da conversa do deputado Paulo Magalhães com o suposto dono da Gautamo, porque hoje em dia existem diversos pontos de disseminação de informação. Acaba o jogo de cena. Antes, conseguiria. Alguns anos atrás escrevi sobre o papel fundamental da hipocrisia nos modelos políticos democráticos, especialmente no brasileiro, com sua falta de regras claras. Sem hipocrisia seria impossível governar. E essa hipocrisia ficou claro na transição do governo FHC para o de Lula, nos pactos fechados para a transição política. Agora, esse espaço se estreita rapidamente com a implosão da mídia e das ideologias. O que virá pela frente? Essa é uma das grandes discussões contemporâneas, que têm projetado pensadores como Manuel Castels e outros que os leitores por dentro do assunto nos indicarão. por Luis Nassif http://z001.ig.com.br/ig/04/39/946471/blig/luisnassif/2007_06.html#post_18871145
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