DANIEL BERGAMASCO DA REPORTAGEM LOCAL, folha de sp, 18jun2007
A construtura JHSF está distribuindo cheques de R$ 40 mil para retirar cada uma das 70 famílias invasoras de um terreno que será parte do projeto de um shopping-condomínio orçado em R$ 1,5 bilhão, que terá apartamentos de até R$ 18 milhões. As casas formam parte da favela do Jardim Panorama, na zona sul de São Paulo. O custo total da desocupação, cujo acordo foi assinado após reuniões das partes para que a ação de despejo não seja levada adiante, é de R$ 2,8 milhões -a construtora não confirma valores, mas a Folha teve acesso a comprovantes de depósito. No terreno, a construtora estenderá a área verde do condomínio, que será cercada por um muro. Do lado de lá, a favela continua, em área da prefeitura, que tenta judicialmente o despejo dos barracos. Na última quarta-feira, uma fila de caminhões de mudança aportou na favela. Era preciso que a casa começasse a ser demolida para o morador receber o cheque -a maioria acertou pagar o valor da compra da moradia nova no dia da mudança. Com os R$ 40 mil, é possível comprar, por exemplo, uma casa de um quarto na Pedreira (divisa com Diadema, a cerca de 15 km da favela). O empreendimento, batizado de Parque Cidade Jardim, terá shopping, spa e 13 torres, entre residenciais e comerciais. O morador poderá trabalhar, comprar e ir ao médico sem ultrapassar os muros do local. Lambaris e preás Maria Gomes, 66, conta que chegou lá nos anos 1960. "Meu marido pescava lambari para o nosso almoço no rio Pinheiros. Essa rua toda era uma horta que eu cuidava, até que as pessoas foram chegando do Norte passando por dificuldades." Os moradores estão divididos sobre a mudança. A desempregada Leila Aparecida Suzano, 29, é favorável. "Saio de um barraco de madeira com dinheiro na mão para comprar uma casa num bairro longe, mas no meu nome. Vou finalmente ter algo para deixar para meus filhos", diz ela, que irá para o Jardim Guarujá (zona sul). Já a empregada doméstica Marluce Gomes de Lima, 44, que trabalha no Itaim, lamenta a remoção. "Comprei uma casa em Vargem Grande Paulista e agora, em vez de levar 20 minutos até meu trabalho, vou levar duas horas e meia para ir e o mesmo tempo para voltar. Rico não gosta de pobre mesmo, eles querem nos ver longe" reclama. Álvaro Puntoni, professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP), critica o acordo. "Sei que o terreno é particular e que, se eu fosse favelado, adoraria ganhar os R$ 40 mil, mas a lógica é um pouco perversa. A elite blinda o carro para resolver o problema da segurança. Nesse caso da construtora, poderia se pensar em uma solução com poder público para abrigar a população no espaço onde ela já vive." Colaborou VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO Novos prédios promovem limpeza urbana Lançamentos imobiliários refazem calçadas, pintam fachadas vizinhas, revitalizam parques e buscam saída para favela Urbanistas criticam expulsão dos moradores carentes; construtoras afirmam que fazem sua parte ao pagar pela reforma da vizinhança VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO DA REPORTAGEM LOCAL , folha de sp, 18jun2007 Novos empreendimentos residenciais têm promovido uma limpeza urbana (e, em alguns casos, "solução social", no dizer das imobiliárias) da vizinhança em que vão se instalar. Dos Jardins (zona oeste) ao Campo Belo (zona sul), do parque Villa-Lobos (zona oeste) à Vila Maria (zona norte), construtoras investem na revitalização de prédios, praças e até bares vizinhos, seja por iniciativa própria, para valorizar o lançamento, seja por imposição da prefeitura na liberação da obra. No Brooklin (zona sul), ao lançar o edifício Paulistânia (quatro suítes em 229 m2, três torres, 36 andares na rua Pensilvânia), a Cyrela revitalizou duas praças da região e cedeu um pequeno espaço do terreno para a construção de uma nova praça pública. Não tão longe dali, no Jardim Sul (zona oeste), a Camargo Corrêa diz já estar "reurbanizando o bairro". "A recuperação paisagística começou com a implantação de três praças públicas, reformas de calçadas e aplicação de piso drenante. O bairro contará com viveiro de plantas", diz o anúncio da construtora. Câmeras Segundo a imobiliária Coelho da Fonseca, responsável pela venda do projeto, o objetivo é valorizar a região e, assim, os imóveis. "A estratégia é reurbanizar o bairro, que estava desativado nos equipamentos e formas", diz o proprietário Álvaro Coelho da Fonseca. Os apartamentos custam entre R$ 255 mil (101 m2) e R$ 860 mil (260 m2). Segundo o empresário, há também a idéia de instalar uma rede de câmeras de segurança no bairro. "Se cada um fizer a sua parte, a cidade ficará melhor", diz ele. E quem fará pela periferia? "Se eu pago bem minha empregada, não coloco cadeado na geladeira. Já estou fazendo minha parte." Em outro lançamento, o Villa Lobos Office Park, próximo ao parque Villa-Lobos, a Cyrela diz estudar com a prefeitura a melhor "solução social" para a Favela do 9, vizinha à obra. "A expulsão da população mais carente das áreas centrais deve ser combatida. Tais fatos revelam o descaso do poder público na questão urbana no direito à cidade, e a carência habitacional é a grande questão a ser enfrentada", avalia o arquiteto Fernando Viégas. Semáforos Para atender a exigências da prefeitura para liberação da obra, o edifício Çiragan, na rua Ministro Rocha Azevedo, região da Paulista, teve de trocar 123 semáforos no cruzamento de sete ruas próximas ao empreendimento. O Villa Lobos Office Park também foi obrigado a trocar sinais e placas de trânsito. A medida, justifica a coordenadoria das subprefeituras, é para compensar a geração de tráfego com mais carros e moradores. Em outro exemplo, na rua Matias Aires, nos Jardins (zona oeste), entre Haddock Lobo e Bela Cintra, um prédio novo patrocinou a revitalização das fachadas do edifício vizinho e da pizzaria em frente. "Pode se tratar de um embelezamento superficial que pode insinuar certa frivolidade mas também pode ser entendido como um melhoramento comum, que serve a cidade como um todo e, portanto, interessante do ponto de vista urbano", afirma Álvaro Puntoni, professor da FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e da Escola da Cidade. Na zona norte, a construtora Vivenda Nobre, em parceria com concorrentes, investiu cerca de R$ 3 milhões na reforma do parque do Trote. Colaborou DANIEL BERGAMASCO --
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