http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2007/08/29/ult580u2636.jhtm

Censura na Internet: Estados contra "ciberdissidentes"

Sylvie Kauffmann*, com Martine Jacot e Brice Pedroletti

No decorrer de uma dezena de anos, a Internet se impôs como uma ferramenta
essencial da vida democrática. No Ocidente, o ciberespaço revolucionou as
campanhas eleitorais e propiciou o surgimento de um "jornalismo cidadão".
Nas jovens democracias e nos regimes autoritários, ele forneceu uma arma
temível aos defensores da liberdade de expressão e aos militantes
democráticos: a arma da comunicação invisível. Inevitavelmente, esses
regimes buscaram formas de controlar essa arma. E eles a encontraram - com a
ajuda das grandes companhias de high-tech ocidentais.

Seja por meio de um arsenal repressivo ou tecnológico, certos países agem de
todas as maneiras possíveis para tentar controlar a Internet, para impedir a
circulação das idéias, das informações e das palavras de ordem
independentes. Será que eles conseguem? Não de uma maneira plena e total, e
não em todos eles. Como sempre acontece, é mais fácil controlar um pequeno
país de que um grande, mas, conforme vêm constatando às suas custas os
dirigentes chineses, a onda da Internet não é fácil de represar. Além disso,
os internautas, em certos casos, também são muito fortes em tecnologia.

*CHINA
40.000 policiais da Web contra 162 milhões de internautas*

A "grande muralha virtual" erigida pelo governo chinês obriga os internautas
a lançarem mão de estratégias de contorcionismo e a se submeterem a jogos de
esconde-esconde. Encontrar soluções para blogs fechados, sites bloqueados,
mensagens apagadas requer certa engenhosidade. Atravessar a linha vermelha
pode custar caro: a ONG Repórteres sem Fronteiras estima que 52
ciberdissidentes estão atrás das grades atualmente na China. Em geral, eles
são acusados de ter revelado segredos de Estado, um delito utilizado para
enquadrar toda e qualquer infração, e que permite todos os abusos de poder.

A autocensura é sistemática: os portais (Sina, Sohu) ou os hospedeiros de
blogs (Tianya) recebem, assim como todos os veículos de comunicação,
circulares que enumeram os assuntos que não devem ser abordados - parecidas
com aquela que o jornalista Shi Tao divulgou on-line em 2005, o que lhe
valeu dez anos de prisão. A limpeza é efetuada (frases desaparecem dos blogs
ou dos fóruns de discussão), antes mesmo que a polícia da Internet, que
inclui de 30.000 a 40.000 membros, intervenha.

Uma nova etapa acaba de ser galgada. Em 24 de agosto, os hospedeiros de
blogs chineses, e até mesmo o Yahoo e a Microsoft (MSN) assinaram um "pacto
de autodisciplina" por meio do qual eles se comprometem a não difundir
"mensagens ilegais e errôneas" e a "proteger os interesses do Estado e do
público chinês". Este "pacto" incentiva também os hospedeiros a
identificarem os blogueiros.

Até então, o sistema de censura chinês havia sido seriamente posto à prova
pelos 162 milhões de internautas recenseados, com os seus 20 milhões de
blogs. A Internet tornou-se uma caixa de ressonância sem equivalente para a
sociedade civil. Ela obrigou o partido a levar em conta uma opinião pública
que ele desprezava, e vem alimentando uma imprensa que se mostra cada vez
mais agressiva.

Em Xiamen, em maio, um ativista conseguiu, por meio do seu blog, mobilizar a
população da cidade contra o projeto de construção de uma central
petroquímica. Após terem enviado e recebido um total de cerca de um milhão
de mensagens SMS, os habitantes participaram de uma das maiores
manifestações já organizadas numa grande cidade da China desde as
concentrações maciças da Praça Tiananmen em 1989.

"Os veículos de comunicação não puderam falar da manifestação. Mas muitos
internautas se deslocaram às suas custas até o local e registraram os
acontecimentos com um telefone celular ou ainda uma câmera, para depois
difundir as imagens na Web. É um novo canal que permite uma expressão
independente", explica Li Datong, o antigo redator-chefe da revista semanal
"Bingdian", que foi despedido em 2006 por ter reproduzido on-line um sistema
de penalidades imaginado pelos dirigentes do partido para sancionar os
jornalistas críticos demais.

Revelada por uma reportagem televisiva, a escravidão generalizada que vem
sendo praticada nas fábricas de isqueiros do Henan e do Shanxi tornou-se uma
questão de importância nacional graças à Internet, por meio da qual os pais
de crianças desaparecidas fizeram circular petições. Não há mais nada que
parece poder deter a informação na China: o governo finalmente renunciou, em
maio, a obrigar os autores de blogs a se registrarem previamente com a sua
verdadeira identidade. A tarefa revelara-se complicada demais de implementar
em tão grande escala.

*VIETNÃ
Uma recente onda de processos*

A utilização da Internet no Vietnã conheceu um progresso rápido, passando de
9 para 14 milhões de usuários, ou seja, 17% da população, entre 2005 e 2006.
Muitos deles são jovens e se conectam nos cerca de 5.000 cibercafés do país,
o que facilita o controle pelas autoridades. Com efeito, a legislação exige
dos provedores de acesso e dos cibercafés que eles instalem softwares de
vigilância, que eles conservem as informações sobre os usuários e denunciem
aqueles que infringem a lei: todo conteúdo "que se opuser ao Estado, que
procurar desestabilizar a segurança do Vietnã, a economia ou a ordem social,
ou que incitar a oposição" é ilegal. Existem poucos motores de pesquisa
vietnamitas, o que limita os acessos ao exterior. Segundo a ONG OpenNet
Initiative, o Vietnã regulamenta de maneira extensiva o acesso à Internet,
simultaneamente por meio da gestão da infra-estrutura e da filtragem do
conteúdo, sobretudo político e social. A filtragem atinge também os sites
das comunidades vietnamitas no exterior.

Em 2006, os internautas vietnamitas afastaram os limites da censura,
conseguindo, entre outros, criar três publicações dissidentes. Preocupado em
obter a sua inclusão na Organização Mundial do Comércio (OMC), o regime
comunista permitiu que uma relativa tolerância se instaurasse. Um movimento
democrático batizado de Bloc 8406, porque nascido em 8 de abril de 2006,
desenvolveu-se na Web. Mas, em julho de 2006, uma lei destinada a impor uma
disciplina aos jornais on-line entrou em vigor. O controle dos cibercafés
foi reforçado e, em 2007, uma onda de processos arrebentou sobre os
ciberdissidentes. Entre os dias 10 e 15 de maio, várias condenações de três
a cinco anos de prisão foram pronunciadas e, segundo associações de defesa
dos direitos humanos, nove ciberdissidentes e jornalistas estão atualmente
encarcerados.

Contudo, apesar da repressão e da censura, a Internet continua sendo crucial
para os opositores ativos como ferramenta de comunicação e de ligação com a
diáspora vietnamita. Aqueles que possuem um know-how tecnológico sofisticado
o suficiente conseguem driblar sem problema a filtragem. De maneira geral,
conforme escreveu no "Times Ásia" o militante dos direitos humanos Nguyen
Thanh Giang, "os fóruns de discussão aceleraram a abordagem e a atitude
democrática".

*TUNÍSIA
Sob controle rígido*

O governo tunisiano incentivou ativamente a aceleração do acesso à Internet,
principalmente nas universidades e nas escolas. A oferta de programas de
conexão gratuita, a viva concorrência entre os provedores de acesso, e a
abertura de cibercafés, permitiram que cerca de 9% da população pudesse
utilizar regularmente a Internet.

Entretanto, tudo isso vem sendo feito sob um controle rígido: os provedores
de acesso devem transmitir as suas listas de assinantes para as autoridades.
Os proprietários de cibercafés são considerados como responsáveis pelas
páginas e os conteúdos que os clientes acessam e por tudo o que eles
utilizam. Além disso, eles devem zelar para que os sites visitados não
"perturbem a ordem pública". Segundo a OpenNet Initiative, a filtragem da
Internet é efetuada pelo software SmartFilter, fabricado por uma sociedade
americana da Silicon Valley, a Secure Computing. A Arábia Saudita, o
sultanato de Omã, os Emirados Árabes Unidos e o Sudão também utilizam o
SmartFilter.

*CUBA
Conexões privadas, difíceis e raras*

Totalmente dominada e controlada pelo poder, a imprensa oficial cubana
implantou sem demora sites na Web (os do Granma, do Trabajadores, etc.), em
várias línguas. Em contrapartida, o acesso dos cidadãos cubanos à Internet é
severamente dificultado e controlado em diversos níveis.

Os cubanos proprietários de um computador (3,3 de computadores para cada 100
habitantes, uma das taxas mais reduzidas do mundo), precisam em primeiro
lugar obter a autorização expressa das autoridades; além disso, desde 1996,
eles devem pedir à única operadora da ilha, a companhia ETEC SA, um
credenciamento obrigatório, mediante uma "justificativa válida", se eles
quiserem dispor de uma linha e de uma assinatura. Isso equivale a dizer que
as conexões privadas são raras. Apenas os altos responsáveis políticos, as
embaixadas, as sociedades estrangeiras, os dirigentes universitários e as
empresas voltadas para a exportação são equipados. De maneira geral, as
mensagens que circulam na Web não devem "comprometer a segurança do Estado",
nem transgredir as leis e os "princípios morais" do país.

Entretanto, Cuba desenvolveu, a partir de 2000, uma rede de cibercafés.
Estes são caros para os cubanos; eles são vigiados (nem os opositores
reconhecidos, nem os jornalistas independentes têm acesso a eles), e as suas
conexões são lentas. Todo e qualquer usuário dever registrar o seu
sobrenome, seu nome e seu endereço. Então, ele deve escolher entre um
simples serviço de e-mails implantado pelo Estado (R$ 3,20 por uma hora) e
um serviço chamado de "internacional", que dá acesso a toda a Internet (R$
10,63 a hora, ou seja, mais de um terço do salário mensal médio de um
cubano).

Curiosamente, segundo apurou a organização Repórteres sem Fronteiras após
verificações recentes, todos os sites são acessíveis, inclusive aqueles da
oposição cubana no exterior. Em contrapartida, certas palavras-chaves
consideradas como potencialmente subversivas (tais como "Fidel"), quando são
escritas num site de busca, indicadas em algum editor de texto ou numa
mensagem eletrônica provocam invariavelmente a abertura de uma janela que
traz a seguinte advertência: "Este programa será fechado dentro de alguns
segundos por razões vinculadas à segurança do Estado".

Tradicionalmente despachados, muitos cubanos compram ou "pegam emprestados"
os códigos de conexão de pessoas autorizadas a ter uma linha, inclusive
junto a oficiais do regime. Mas este tráfico, passível de cinco anos de
prisão (vinte anos para os autores de artigos considerados
"contra-revolucionários" e que foram publicados em sites estrangeiros), é
arriscado.

De fevereiro a agosto de 2006, Guillermo Fariñas, cujo apelido é "El Coco",
um diretor da agência de notícias independente Cubanacan Press, realizou uma
greve da fome, interrompida por algumas hospitalizações forçadas, por ter
pedido o acesso para todos a uma "Internet livre". A Repórteres sem
Fronteiras lhe outorgou o seu prêmio, o Cyberliberté, em 2006.
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