Os liberais de boa-fé costumam se enredar nas incongruências de dois pesos e
duas medidas em seus julgamentos. E o caleidoscópio social brasileiro
constitui magnífica usina de dilemas dessa espécie. Para compreender algumas
das relações entre a ética e a política, no Brasil, deve-se começar por
reconhecer que, não obstante peculiaridades nacionais, o caráter
problemático da relação é semelhante nos capitalismos desenvolvidos e nos
subdesenvolvidos

A dificuldade ética universal deriva da contingência de que a promessa
capitalista de que os cidadãos estariam intitulados a aspirar, no futuro, à
posse de todos os bens disponíveis, desde que se comportassem de forma
racional e maximizadora, revelou-se duplamente falsa. Falsa porque não foram
comportamentos orientados por uma ética radicalmente utilitarista que
asseguraram a vitória e consolidação do capitalismo em seus primórdios,
garantindo o funcionamento eficaz do mercado em sua versão doutrinária. E
outra vez falsa ao se descobrir essencial heterogeneidade entre os bens
disponíveis no mercado, a saber, a categórica diferença que existe entre
bens "democráticos" e bens "oligárquicos".

Os bens democráticos, assim denominados, se referem àquelas mercadorias cuja
multiplicação (e, pois, em princípio, a possibilidade efetiva de aquisição
universal) depende estritamente do aumento da produtividade do trabalho
humano, da criação de maior quantidade do produto por unidade de trabalho.
Os chamados bens oligárquicos, em contrapartida, são absolutamente escassos
e em hipótese alguma passíveis de multiplicação pela via do progresso
tecnológico ou de maior exploração da força de trabalho. Uma geladeira, uma
televisão a cores, e até mesmo computadores, como os últimos resultados da
PNAD revelaram, são exemplos de bens democráticos. Já os "hobbesianos"
glória, poder e riqueza ilustram o que o economista Roy Harrod queria
indicar por "bens oligárquicos". Nenhuma tecnologia será capaz de
transformar Guernica, de Pablo Picasso, ou qualquer um dos auto-retratos de
Vincent Van Gogh, ou O Grito, de Münch, em ofertas de ocasião, mesmo se
todos os cidadãos dispusessem de numerário para adquiri-los.

A dramaticidade da distinção, de outro modo banal, advém precisamente de que
a promessa capitalista anunciava o paraíso, desde que agenciadas as
seguintes duas condições: a) que todos os participantes se comportassem como
utilitaristas maximizadores, pois, vide Bernard de Mandeville e Adam Smith,
tal atitude era estratégica para a acumulação de bens e multiplicação das
oportunidades para que alguém deles se apossasse; e b) se obtivesse a
difusão de razoável dose de paciência para esperar o momento em que, pela
via da acumulação geral, cada um se tornaria um proprietário em particular.
Pois bem, o que se revelou na história é que o mercado capitalista só
funcionou mais ou menos de acordo com a doutrina justamente enquanto a
maioria da população abominava o comportamento egoísta. Pelo outro lado, a
relativamente baixa taxa de conflito social, a relevância da noção de
"interesse público", superior aos interesses particularistas das pessoas,
período de que Jean Jacques Rousseau será nostálgico, só existiram enquanto
a ética utilitária não se tornou hegemônica. O capitalismo só se instaurou
como rotina, como ordem, enquanto perdurou, a contrário senso, uma ética
social pré-mercantil, na qual um fio de cavanhaque dispunha de mais
credibilidade do que contratos registrados em cartórios. Como assinalou Fred
Hirsch, quando finalmente vitorioso o código utilitário, a ordem capitalista
se tornou instável, precária e, sobretudo, inadimplente.

A generalização da ética utilitária capitalista pôs a nu os limites
estruturais da nova ordem. É óbvio que, em relação aos bens oligárquicos,
nenhum amanhã tecnológico os irá transfigurar em bens democráticos, o que
remete às reais relações entre propriedade e poder. Por mais que todos os
agentes consigam acumular poder aquisitivo, os bens oligárquicos
permanecerão tão remotos como quando as pessoas não dispunham senão de três
tostões furados. Na verdade, quanto maior a capacidade aquisitiva potencial,
maior a frustração relativa por não ser viável transformá-la em posse atual.
A impossibilidade de consumir bens oligárquicos estimulou a pressão pelo
consumo imediato dos bens democráticos. A explosão de demandas, aquela dos
conservadores, é fenômeno genuíno, portanto, embora não em consequência da
irracionalidade dos cidadãos, mas como resultado do exercício pleno da
racionalidade capitalista que lhes foi ensinada ao longo dos três últimos
séculos.

A competição no mercado, recomendada pela utopia capitalista como legítimo e
suficiente canal para a realização dos planos de vida de cada um, é hoje
caudatária da competição política em busca da realização de dois objetivos:
primeiro, o da apropriação mais rápida quanto possível dos bens democráticos
disponíveis; segundo, o de alcançar as posições de poder estratégicas para a
conquista de bens oligárquicos - sendo estas posições, elas mesmas, bens
oligárquicos, impossíveis, por definição, de recrutamento no mercado
democrático. Na ordem capitalista contemporânea, o fundamento da propriedade
- de bens democráticos ou oligárquicos - é, cada vez mais, o poder (todas as
desculpas a que Marx tem direito, mas a história subverteu o entendimento
dos termos de sua equação). Aliás, em todas as ordens sociais conhecidas,
onde exista propriedade, é o poder que sustenta a posse. Deste alicerce não
se segue, contudo, que, dada certa distribuição da propriedade, esta não
repercuta sobre a aquisição e manutenção do poder. Se o poder não é mera
transfiguração da propriedade, a propriedade não é, obviamente, mero
epifenômeno do poder.

Os modos de distribuição da propriedade não resultam de qualquer
determinismo econômico. São contingentes às estruturas prevalecentes de
distribuição das posições de poder. Desde sempre se soube que a apropriação
de poder constitui eficaz e infalível mecanismo de acumulação de riqueza.
Admitidos os tipos legitimamente institucionalizados de propriedade, bem
como os modos reconhecidos de aquisição legal, fixam-se as formas de
competição pelos esquemas de poder adequados à manutenção, e eventual
acúmulo, das diferentes materializações da propriedade. A acumulação de
propriedade de bens democráticos depende da capacidade de extração de leis
relativas a salários, subsídios, tarifas, isenções, privilégios, que
acrescentem ao grupo privilegiado um incremento marginal de poder, acima do
que obteria mediante a operação natural do mercado. Visto que, em regra, a
capacidade de extrair benefícios por meio de legislação política decorre do
poder organizacional do grupo considerado, se conclui que a ordem social do
capitalismo contemporâneo está distante a perder de vista do universo
competitivamente disperso nos átomos sociais da utopia liberal. Trata-se
agora de um mundo fragmentado em segmentos em si mesmos integrados, cujos
objetivos se definem mediante uma concepção absoluta de "good life" (três
alqueires e uma vaca, por exemplo, na alegoria de Gustavo Corção) e
obedientes a critérios de abundância comparativa. Cada qual deseja pelo
menos tanto quanto o seu próximo possui. Efeito-demonstração, dizem as
teorias. Em tal universo, a solidariedade social se desmancha em pequenos
glóbulos, novos personagens de um mundo de natureza hobbesiana, não obstante
a presença do Leviatã. Na realidade, é o mesmo Leviatã que, agora, assegura
a permanência da guerra (competição) de todos contra todos.

Embora a possibilidade de que todos tenham igual acesso aos bens
democráticos seja tecnicamente imaginável, a estrutura da distribuição da
propriedade faz com que, na prática, essa igualdade seja impossível. Resulta
que a competição pelo poder venha a ser, essencialmente, a alternativa
mediatizada de se competir pela alteração na distribuição da propriedade.
Ergo: dada uma distribuição de poder político, segue-se determinado padrão
distributivo da propriedade. A socialização da propriedade, neste contexto,
associada à concentração de poder, equivale à concessão àqueles que
privatizam o poder político do monopólio de definir o perfil de distribuição
da propriedade, quer de bens democráticos, quer de bens oligárquicos.

Escapar à ética competitiva utilitária e à privatização do poder político
exige uma espécie de socialização do poder, isto é, sua distribuição
igualitária virtual, atualizável sempre que um direito for maculado, a fim
de que os seres humanos tenham soberania sobre perfis distintos de
distribuição da propriedade, sobre o que deve ser produzido e apropriado e,
muito especialmente, que retenham o poder causativo de reformular decisões
anteriores.

O primitivismo atual das técnicas de produção material e o caráter tateante
de administração social tornam a efetiva socialização do poder
extraordinariamente difícil no curto prazo, criando a ilusão de que é
exclusivamente a distribuição da propriedade que modela as formas de poder.
Mas a simplificação tecnológica da produção material, coeteris paribus em
matéria de progresso do conhecimento, é inevitável. A conseqüente
socialização do poder irá adquirir visada de um concreto possível, quando a
questão da propriedade se fará dela, então, subsidiária. Desta tese e das
anteriores, concluo: 1) a ordem capitalista é, no curto prazo, incompatível
com uma ética não utilitária; 2) no longo prazo, uma ética utilitarista
inviabiliza a ordem capitalista; 3) ocorrendo a socialização do poder, ética
e política podem se solidarizar na resposta à questão da sobrevivência da
espécie: o que produzir com o poder e como distribuir a propriedade.

Por Wanderley Guilherme dos Santos -
publicado no Jornal Valor Economico - 05/10/2007

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