Os bens culturais não podem deixar de ter valor comercial. Afinal, eles são
imaginados, planejados, criados por artistas, artesões, elaboradores,
gentes, que estão embutindo valores sociais e econômicos em seus cultivos.
Esta gente, não pode não participar das valorações conferidas a outros
produtos, os quais também lhe são necessários ou demandados.

Acontece que nossa atualidade trata estes bens e serviços culturais ora de
uma maneira, ora de uma forma. Explico. A indústria cultural cata, avalia e
decide investir em alguns destes bens e serviços de maneira a retirá-los de
seus contextos e definir seus valores de venda (uma forma de troca?)
esvaziados de seus conteúdos. Burila, adapta-os, domestica. Então, coloca em
uma das tantas vitrinas possíveis – rádio, tvs, internet, enfim, sobretudo
no business. Vai além. Nas áreas mais facilmente industrializáveis, ela cria
instrumentos capazes de monopolizar seus poderes de acesso aos meios de
criação, ou de reprodução, e, também, de mercado. Assim foram sendo criadas
as chamadas Majors da indústria cultural. Mas o que vem a ser isto? É
incoerente usar uma terminologia padrão para definir um instrumento de
padronização?

Vejamos, então, enquanto processo, e, então, tentemos construir conclusões.

Quando falamos de áreas mais facilmente industrializáveis, estamos nos
referindo àquelas que permitem mais e mais facilidades às suas
reprodutibilidades.Vamos ilustrar esta afirmação. Os produtos do audiovisual
(cine, tv, novas tecnologias virtuais) e da música, oferecem uma enorme e
ainda ilimitada facilidade para sua reprodução. Eu faço um disco, sou
compositor, cantor, instrumentista, sei lá, alguém dentro do percurso
realizador do bem musical. Minha obra, sendo escolhida e, muitas e muitas
vezes, domesticada pelas leis próprias do mercado, não depende mais de mim
após seu registro.

A obra pode ser separada do criador e ser multiplicada através de cópias e
cópias e versões. Ela tem uma capacidade que é avaliada enquanto
preciosidade pelas leis e agentes e reguladores do mercado. Ela pode render,
multiplicar-se a custos cada vez menores de produção e cada vez maiores de
obtenção de lucro. Assim é com o cinema, cujo suporte possibilita que eu
faça cópias e mais cópias, quase sempre, inclusive, esta quantidade é feita
de maneira incontrolável pelo criador.

Defesa de direitos autorais? Esta é uma discussão, mas não se reduz a isto.

Quero salientar que, graças a esta capacidade de ser transformada em boa
mercadoria, pois oferece a serialidade, a reprodução massificada, elas
passam a ser consideradas enquanto mercadoria como outra qualquer pelas
Majors. Estas grandes corporações, não por coincidência, são as mesmas na
indústria fonográfica e na do audiovisual.

E isto implica em poder que, além da economia, esparrama-se pelo cotidiano,
pelos gostos, pelos acessos, pelas modas, pelos reconhecimentos. Pelas
potências e pelas impotências.

Este assunto tornou-se tão estratégico no tabuleiro onde peões enfrentam
vários e vários reis e bispos e rainhas e torres, que é fácil entender
quando incorporamos o fato de que a indústria do audiovisual
norte-americana, ou melhor, das majors, é o segundo maior segmento de
arrecadação na economia dos USA. Fica atrás apenas da indústria bélica, as
quais tem profundas conexões entre si, e não sabemos qual delas faz mais
estrago.

Em decorrência desta predominância do valor de competição no grande mercado
estes bens e seviços são considerados como mercadorias quaisquer, sob o
aspecto que devem ter suas legislações de produção, formação e distribuição,
reguladas por uma legislação única e global.

A última rodada da OMC, espaço regulador das regras e definições das
mercadorias e dos mercados, pretendia votar pela liberalização dos bens
culturais. Em outras palavras, isto significa a consideração dos bens
culturais enquanto mercadoria qualquer, como vergalhões de aço ou sapatos,
ou aparelhos eletrônicos. Devem obedecer às leis globais de mercado.
Liberalizar significa entregar às leis de mercado sua regulação. Ficam
impedidos os subsídios estatais, as leis de proteção das culturas locais,
regionais, e todos devem concorrer em termos de igualdade entre sí.
Hollywood e a Sony music, contra aquela produtora indiana de cinema, ou
versus a produtora independente no Brasil. Como se todos fossem iguais e
tivessem as mesmas chances de disputa.

besos

desde o front dos fantasticos e fabulosos scatenados,

lele

pela sinistra, sempre!

Em 25/10/07, Fabianne Balvedi <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
>
> Meu, como a Virgin é esperta!
>
> vocês se ligaram na cilada?
>
> A Virgin é simplesmente uma das maiores **majors** da indústria musical
> mundial, ao lado de outras como a Warner e a Sony. Através dessa campanha,
> ela simplesmente divulgou mundialmente e *negativamente* o uso de licenças
> livres na cultura...
>
> Talvez licenças comerciais na cultura realmente não seja uma boa, estou
> revendo seriamente meus conceitos em relação a isso já faz algum tempo, pois
> em casos como este uma licença share-alike teria força para reparar o dano?
> Quem vai conseguir fazer uma contra-propaganda com a força de mídia
> corporativa e marketing que a Virgin tem? E no caso da novela da globo usar
> a música de alguém, por exemplo, qual seria o nosso benefício em poder usar
> as imagens da novela pra alguma coisa?
>
> Eu to achando muito bom que isso finalmente aconteceu, e melhor ainda que
> foi através de uma licença CC. Agora os debates começarão a ser levados
> muito mais a sério pelo público. Pena que parece que o ser humano tem sempre
> que aprender na paulada...
>
> Vai ter mesa no submidialogia sobre isso?
>
>
>
> On 10/23/07, eiabel lelex <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
> > duma lista prá outras... gracias, Tati.
> >
> http://blog.hiro.art.br/2007/10/22/creative-commons-vira-arma-nas-maos-erradas/
> >
> >
> > ---
> > Nossa demagogia da igualdade social é uma forma de mascarar
> desigualdades na
> > aplicação das leis, ou simplesmente privilégios. Entre o que pode e o
> que
> > não pode, nos esmeramos em encontrar um jeito... de burlar as leis. –
> > Roberto DaMatta
> >
> > "Se você não concordar, não posso me desculpar..."
> > _______________________________________________
> > Lista de discussão da MetaReciclagem
> > Envie mensagens para [email protected]
> > http://lista.metareciclagem.org
> >
>
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> --
> Fabianne Balvedi
> GNU User #286985
> http://fabs.estudiolivre.org
> "Nada melhor que as situações extremas
> para nos fazerem repensar e analisar
> o que realmente vale a pena."
> Roberta Nunes
>
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Nossa demagogia da igualdade social é uma forma de mascarar desigualdades na
aplicação das leis, ou simplesmente privilégios. Entre o que pode e o que
não pode, nos esmeramos em encontrar um jeito... de burlar as leis. –
Roberto DaMatta

"Se você não concordar, não posso me desculpar..."
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