Assunto: [bate_boca] Fw: EMAIL ABERTO - ROBERTO SCHUMAN (JUIZ FEDERAL PRESO
PELO CORE).


----- Original Message ----- .

Amigos

Tais fatos merecem uma reflexão profunda, sobretudo com relação as invasões
da Polícia Militar nas áreas pobres da Cidade.
SE a Lei não tiver efeitos "erga omnes" esses fatos poderão acontecer comigo
e com qualquer um de voces, deram muito azar que foi com um juiz.

Buenas,

peço a gentileza de lerem todo o conteúdo da msg e, se possível, replicarem
por tudo, para todos.
de minha parte, assino embaixo, assino abaixo.

gracias,

elenara iabel - Lelex
pela sinistra, sempre



  Roberto Schuman (Juiz Federal preso pelo CORE)


 Date: Fri, 8 Feb 2008 15:09:11 +0000

Primeiramente aviso que estou em um computador com problemas no
teclado, logo, nao ha pontuacao na mensagem.

Amigos:

Acho que nem e preciso dizer a situacao vexatoria pela qual passei, como ser
humano e magistrado.

O mais importante e que mesmo algemado na mala do camburao, apos os
policiais estarem com minha identificacao do TRF e dizendo que talvez
pudessem nao me levar para a DP, aos risos e chacotas, consegui ligar para
os setores de seguranca do TRF e do TJ/RJ, pedindo o rastreamento da viatura
do CORE na qual eu estava para evitarem um mal maior.

Felizmente os danos fisicos se limitaram aos meus pulsos, quando, apos ter
me identificado como juiz federal o policial cujo link segue abaixo, bem
novo, diga-se, apertou as algemas ate os meus ossos, rindo. Tenho certeza
que se tratavam de pesssoas sem qualquer equilibrio para o convivio em
sociedade, mais ainda trajando fardas pretas da elite da Policia Civil/RJ
com pistolas automaticas apontadas para mim. Certamente constituem-se
excecao dentro do seio policial.

http://www.policiacivil.rj.gov.br/noticia.asp?id=2886<http://email.terra.com.br/cgi-bin/vlink.exe?Id=wpQVJdtnJNix9GQ4syN4GMdygbyXi3f0AyUfYofjim5nLwyUSYHIrQ%3D%3D&Link=http%3A//www.policiacivil.rj.gov.br/noticia.asp%3Fid%3D2886>

A historia foi escrita por mim visando a publicacao em jornais, ate mesmo
para se propor um debate serio sobre o atual estado de coisas, pois no mesmo
jornal que noticiou um juiz federal algemado no camburao pela suposta
pratica de um delito de menor potencial
ofensivo havia um bicheiro - reu em processo criminal - em cima de um
caminhao oficial do corpo de bombeiros fluminense, logo, aparelho do Estado.

Ressalto que nao tenho palavras para agradecer os varios telefonemas de
apoio recebidos e mensagens de colegas e amigos de todas as carreiras do
meio juridico e de outras diversas, todos, resumidamente, com a seguinte
preocapacao: se aconteceu isso com um juiz, o que vira em seguida. E o
cidadao comum?

Bom, agradeco o apoio imediato da AJUFE, que no dia seguinte ja estava ao
meu lado, e, novamente, de todos os amigos. Segue abaixo a minha
manifestacao, que esta livre para a mais ampla divulgacao possivel, bem como
este email, para que isso nunca mais volte a
ocorrer, com quem quer que seja.

Havera uma sessao de desagravo provavelmente as 17:00 horas do proximo dia
13, quarta-feira, no auditorio do foro da justica federal da Av. Rio Branco,
no centro do Rio de Janeiro.

Por ultimo, confesso que sai do camburao algemado me sentindo como um trapo,
um lixo, em relacao a minha cidadania e minha condicao funcional, contudo,
apos esses dias saio um cidadao e um magistrado ainda mais forte, e isso eu
devo a todos voces.

Atenciosamente,

Roberto Schuman

Segue a carta:

O Juiz, a Polícia e o Malandro.

Segunda-feira de carnaval, saio de casa perto das 22:00 horas para encontrar
a namorada na porta do Circo Voador, na Lapa. Lá chegando, saio do táxi
falando ao celular para encontrá-la. Mas não é só. Além de tênis, bermuda e
camisa, usava um chapéu, desses vendidos em todos os cantos da cidade a R$
5,00. Presente da namorada. Coisa de mulher.

Então, atravesso a rua e quase sou atropelado por um camburão com luzes e
lanternas apagadas com a inscrição CORE no carro. No mesmo momento o
motorista grita " *Ô malandro*" e eu, assustado, dou um pulo para a calçada,
peço desculpas e viro as costas, continuando ao celular e andando, já na
calçada.

Ai, percebo que a viatura andava ao meu lado, com três policiais de preto,
ao que escuto, em alto e bom som: "*Saia da rua, seu malandro e bêbado*".
Nesse momento, pensei: Isto não é jeito de tratar as pessoas na rua e
respondi: "*Não sou bêbado nem malandro; se vocês não estiverem em operação,
está errado andarem com essa viatura preta e apagada, pois quase me
atropelaram e vão acabar atropelando alguém!"*

Oportunidade em que os homens de preto descem da viatura dizendo: "*Ô
malandro, tu é abusado, tá preso*". Ato contínuo, diante da voz de prisão,
estendo os dois braços para ser algemado. Pergunto ao mais novo dos três,
que estava completamente alterado: "*Qual o
motivo da prisão?*" Resposta: "*Desacato*". Pergunto novamente: "*O que os
senhores entendem como desacato?*" Resposta: "*Até a DP a gente inventa, se
a gente te levar pra lá*". Neste exato momento, percebendo a gravidade da
situação, disse: Estou me identificando
como juiz federal e minha identificação funcional está dentro da minha
carteira, no bolso da bermuda. Imediatamente o policial novinho, que se
identificou como André e na DP disse se chamar Cristiano meteu a mão no meu
bolso, pegou a minha carteira e a colocou em um dos bolsos de sua farda
preta. Então o impensável aconteceu! Disseram: "*Juiz Federal é o c..., tu é
malandro e vai para a caçapa do camburão."*
Fui atirado na mala do camburão como bandido, algemado, porém, com o celular
no bolso e os três policiais do CORE da Policia Civil do Estado do Rio de
Janeiro, dizendo que no máximo eu deveria ser "*juiz arbitral ou de futebol*".
Temendo pela vida, por incrível que pareça me veio aquela frase de Dante, da
sua obra "Divina Comédia": "*Abandonai toda a esperança, vóis que entrais
aqui*".
Então, sem perder as esperanças, peguei o celular do bolso mesmo algemado e
liguei para a assessoria de segurança da Justiça Federal informando a
situação, bem baixinho, e que não sabia se seria levado para DP, pedindo
para acionar a PM e localizar a viatura do CORE que
estava circulando pela Lapa comigo jogado algemado na mala.

Após a ligação, disse-lhes uma única coisa, ainda na viatura. "*Vocês estão
cometendo crime"*, ao que escutei dos três, aos risos: "*juiz federal
andando com esse chapéu igual a malandro*. *Até parece. Se você for mesmo
juiz, a gente vai chamar a imprensa, pois juiz não pode andar como malandro*
."

Na delegacia, as gracinhas dos policiais continuaram: "*Olha o chapéu do
malandro*". Então eu disse, já me sentindo em segurança: "*Vocês querem que
eu tire o chapéu e vista terno e gravata?"*

O fato é que já na presença do delegado as algemas foram retiradas e, vinte
minutos depois, um dos policiais de preto vem ao meu encontro e me
pede: "*Excelência,
desculpas, nos agimos mal, podemos deixar por isso mesmo?*" Respondi:
"*Primeiro.
Não me chame de Excelência, pois até há pouco vocês me chamavam de malandro.
Segundo. Não, não pode ficar por isso mesmo. Como é que vocês tratam assim
as pessoas na rua, como se fossem bandidos. Terceiro.
Vocês três não honram a farda que estão vestindo. Quarto. Desde a abordagem
policial agi apenas como cidadão, no que fui desrespeitado e, depois de ter
me identificado como juiz federal, fui mais ainda, logo, um crime de abuso
de autoridade seguido de outro de desacato."
*
Depois do circo montado pelo próprio agente do CORE Cristiano, que ligara do
interior da DP para os repórteres, de forma incessante, talvez temendo que
ele e seus dois colegas de farda
preta fossem presos por mim no interior da DP, decidi não fazê-lo porque em
nada prejudica a instauração de procedimento administrativo na Corregedoria
da Policia Civil, bem como a ação
penal por abuso de autoridade e desacato, sendo desnecessário mencionar o
dano à minha pessoa, como cidadão e magistrado.

Pensei, por fim: "*Se como juiz federal fui ameaçado por três homens de
fardas pretas com pistolas automáticas, algemado e jogado como um bandido na
mala de um camburão, simplesmente por tê-los repreendido, de forma educada,
como convém a qualquer pessoa de
bem, o que aconteceria a um cidadão desprovido de autoridade e de
conhecimento dos seus direitos?*" Duas coisas são certas, de minha parte:
Não permitirei nada "passar" em branco, pois são fatos sérios e graves que
partiram daqueles que têm o dever de zelar pela
segurança da sociedade e, no próximo carnaval, não usarei o presente da
namorada, o tal "chapéu". É perigoso. Pode ser coisa de malandro.

Roberto Schuman - Cidadão e Juiz Federal no Estado do Rio de Janeiro




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"Se você não concordar, não posso me desculpar..."

Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
Percorrer correndo os corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento
Sim, eu poderia procurar
por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas,
as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta Deus morto,
fêmea de língua gelada Língua gelada como nada
Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada uma matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito
Mas eu prefiro abrir as janelas prá que
entrem todos os insetos
Francisco Buarque de Holanda
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