Do boletim "Esquerda" dos camaradas de portugal
http://www.esquerda.net


 Sons da terra espalhados pela Internet
Há sons da terra espalhados pela internet. Desta feita andámos a
recolher em vários sites músicas disponíveis para download. Uma forma
a que recorrem muitos músicos para tentar furar o bloqueio das
editoras e de permeio a mordaça das Playlists da maioria das rádios
convencionais.
Ao longo da edição número 2 dos sons da terra faz-se referência ao
manifesto "Em defesa do conhecimento e da cultura para todos",
disponível em: copyriot.azine.org. A vossa palavra é importante:
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 Copyriot - manifesto

Em defesa do conhecimento
e da cultura para todos

No mundo de hoje, regido pela febre do consumo e pelo dinheiro, a
espiritualidade do ser humano, a sua criatividade, o conhecimento
acumulado ao longo de milhares de anos, o rico mosaico de culturas
que conforma a espécie, estão seriamente ameaçados. Seria de
estranhar que algo de tão importante escapasse à protecção das leis.
E, de facto, não escapa. Mas os interesses económicos das
multinacionais adulteraram todo o sentido destes conceitos. O que
deveria servir a criação transformou-se em protecção ao investimento,
impedindo inclusivamente o exercício efectivo dos direitos mais
elementares do homem, tais como o direito à vida, ao conhecimento, à
sua identidade, ao seu direito a participar activamente na vida
espiritual da sociedade.
 Actualmente, o regime de direito de autor não satisfaz as
necessidades da sociedade nem está de acordo com as possibilidades
que o desenvolvimento tecnológico coloca nas suas mãos. Este sistema
transformou-se em legitimador da submissão da cultura às leis do
mercado, favorecendo a dominação económica e cultural dos povos.
 O direito de autor como direito humano deve ter implícito o
equilíbrio entre o direito do autor à sua obra e o direito da
sociedade a ter acesso a ela. Este equilíbrio foi quebrado, não a
favor dos autores nem da sociedade, mas a favor dos que exercem os
direitos em nome dos autores, ou seja, os cada vez maiores monopólios
da indústria editorial, informática, biotecnológica e do
entretenimento. O exercício dos monopólios exclusivos que a
legislação de propriedade intelectual outorga entra frequentemente em
contradição com o exercício de direitos humanos tão importantes como
o direito à saúde, à vida, ao conhecimento e à educação. E são sempre
estes que saem a perder.
 Por detrás de uma aparente defesa dos direitos dos autores, os
interesses empresariais juntam criadores, governos e sociedade em
geral ao reforço das legislações de propriedade intelectual e à sua
hegemonização internacional, tomando como referente as propostas dos
países mais desenvolvidos, apoiados por muitos organismos
internacionais. Desta forma, a cultura, o intercâmbio de
conhecimentos e o desenvolvimento vêem-se seriamente danificados.
 A inclusão de normas de propriedade intelectual nos acordos da OMC
e nos tratados de comércio livre não é mais do que o fechar do
círculo, ameaçando seriamente a soberania e a diversidade cultural
dos povos. Ao obrigar os Estados a adoptarem conceitos de direitos de
autor muito restritos ao impedi-los de exercer políticas culturais de
protecção efectiva, os monopólios garantem um comércio de produtos e
serviços culturais desigual e afoga-se o desenvolvimento das
expressões culturais locais.
 Por outro lado, o estudo dos processos criativos em todo o mundo
demonstra a falta de universalidade de muitos dos conceitos e
instituições criados pelo direito de autor para a protecção da
criação, ao não reconhecer, entre outros aspectos, as formas
colectivas de criação e apropriação dos povos originários, ou a
necessidade de outras formas de regulação que não a dos monopólios
exclusivos de exploração dos resultados criativos. O sistema vigente,
ao ser aplicado a realidades e momentos tão diferentes, apenas tornou
possível (e até motivou) as utilizações ilegítimas e o saque do
património colectivo.
 A criação não se defende impedindo a sua difusão. Normas mais
rígidas não trarão mais criatividade. Para proteger a criação tem que
se garantir os seus espaços, estimulá-la, incentivá-la, tenha ou não
êxito comercial, apenas em virtude da sua condição de expressão da
espiritualidade do ser humano, de cada um deles na sua infinita
diversidade. Há já muitos locais em que se notou a evidência das
contradições assinaladas e onde se formam posições contrárias. Surgiu
um número considerável de iniciativas que têm como objectivo o uso de
modelos legais mais permissivos, que fomentam a solidariedade e a
cooperação em vez de a proibir. Princípios como o GPL, o Copyleft, as
iniciativas Creative Commons, abriram um caminho ao qual se juntaram
associações de profissionais, intelectuais, criadores e programadores
que começam a transformar, a pouco e pouco, o cenário internacional.
 Tendo em conta estes princípios, parece-nos importante:
 1.Construir, na teoria, um pensamento anti-hegemónico integrador em
matéria de direitos culturais, artísticos, intelectuais, científicos
e tecnológicos.
2.Articular a resistência através da ligação entre pessoas,
instituições, meios de difusão, organizações e redes sensíveis a
estes problemas, que permitam desenvolver a capacidade mobilizadora
necessária para dar resposta imediata, por todos os meios possíveis,
às manobras do poder hegemónico tanto a nível nacional como
internacional.
3.Apoiar as alternativas em marcha no âmbito da cultura livre.
4.Inventar propostas ou projectos viáveis que tenham como objectivo
principal o fomento de relações culturais e fluxos de conhecimentos
entre pessoas, que estimulem a criatividade da sociedade como via
para o enriquecimento do património cultural, educativo e espiritual
dos povos, ao mesmo tempo que favorecem o acesso de todos aos
resultados que se alcancem.
 É por estas e por muitas outras razões que achamos indispensável o
debate e a criação de alternativas reais que, de alguma forma,
protejam quem cria e que lhe permitam decidir livremente qual o rumo
e quais os moldes em que pretende divulgar e fazer conhecer a sua
obra. Em suma, é necessária a criação de alternativas que defendam
realmente as obras e os direitos de quem as cria, e não apenas de
quem cria riquezas à custa da exploração da obra e da submissão do(s)
criador(es).
 Porque quem realmente é o nosso inimigo não é o pessoal que gosta,
copia, divulga, mostra, troca, empresta, apoia, o que se faz, mas
antes quem nos impede de mostrarmos o que fazemos e que reprime quem
o faz.
 Por tudo isto, não queremos passar sem deixar bem claro que somos
defensores da diversidade cultural. Somos pessoas, artistas,
criadores e distribuidores que, a partir de modelos alternativos,
criticam as cadeias tradicionais de produção e distribuição das
multinacionais. Lutamos pela salvaguarda das expressões culturais dos
povos, defendemos culturas e formas de expressão em perigo real de
serem absorvidas pela cultura hegemónica, acreditamos no chamado
património cultural imaterial, nas formas de criação e apropriação
culturais colectivas, como os conhecimentos tradicionais. Somos
também artistas que levam a cabo ou apoiam uma alteração nas formas
de criar. Pessoas que clamam por um maior acesso à informação e ao
conhecimento, em defesa dos interesses sociais, criticando aspectos
como o secretismo, a competitividade e o facto de as necessidades de
mercado se sobreporem às verdadeiras necessidades da sociedade, o que
acaba por resultar na imposição de uma pseudo-cultura
 enlatada que é utilizada como meio de dominação. Queremos que o
direito de autor seja reconhecido dentro dos direitos culturais nas
suas duas vertentes: como direito outorgado ao criador e como direito
de acesso da sociedade aos resultados e aos processos criativos.








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