*Pontos de interrogação* *07/04/2008 Julinho da Adelaida Sobrinho* O erro foi todo nosso. Pensávamos estar diante de um super-ministério. A forte figura de Gilberto Gil nos engana nesse sentido. Achávamos que ele tinha capacidade de assumir uma dupla função: articular a sociedade, desenvolver agenda pública e, ao mesmo tempo, governar. Afinal para isso servem os governantes.
Mas a realidade nos mostra que é só um caso de prepotência. Não do ministro, que parece guardar a humildade de sempre, o que não o impede de mirar os grandes propósitos. Mas de seu aparato, que veste a carapuça de rei que o próprio ministro recusa-se a usar. Sobretudo com o anunciado semi-afastamento. Vimos a situação atingir o máximo grau da esquizofrenia, a ponto de os governantes ocuparem os jornais para um levante contra a sociedade (ou o mercado, como se este não fosse parte de uma sociedade), acusando-a de utilizar mal as ferramentas de gestão do Estado. E fez isso com mentiras e maledicências. Diante dessa afronta à democracia não podíamos ficar calados. Mas como abrir a boca com um Estado que se ocupa da articulação social e coloca-se no lugar de porta-voz único e inconteste da sociedade? A resposta veio de 1968, que comemoramos agora como algo distante e superado, mas reconhecemos mais presente do que nunca. Justifica-se um Julinho da Adelaide Sobrinho. Muito prazer! É claro que não vivi os tempos difíceis da ditadura. A situação é incomparável. Mas é certo que não queremos revivê-los. Por isso é preciso fazer algo a tempo de oferecer um freio ao avanço de um esquema insustentável de governo, com sua arrogância e seu poder concentrado, que distribui medo e opressão a uns, como se não tivesse oferecendo a todos. Está claro que o apoio de uma nova classe de artistas e produtores antes relegada ao bel prazer do mercado, surge e sustenta os desvarios governamentais. Frateschi chegou a declarar que houve um levante contra e outro a favor do MinC, embora daqui ninguém tenha ouvido qualquer sussurro a favor da desfaçatez palaciana. Mas devemos alertar que está em curso uma reedição da política cultural varguista, de encabrestamento da classe cultural. Frateschi sabe bem o que é isso, pois pisoteou a maldita Lei Mendonça e, no lugar, fez nada além do que a velha comadragem. Vamos acompanhar de perto os Pontos de Cultura, o maior e mais interessante programa governamental dos últimos tempos. O que ele se tornou para o poder público depois de alguns anos de (má) gestão? Um desgovernado aparelho político. É claro que não queremos reduzir os pontos a isso. Pelo contrário, estamos aqui para reconhecer a riqueza e a importância de toda e qualquer manifestação cultural existente no país, não só as dos grupos eleitos pelo governo, mas todas as inúmeras outras. Se o programa se encerrar nele próprio corre o risco de virar um sindicato, com disputas internas de poder e sistemas de representação. Tudo que um ponto de cultura não merece ser. Mas o problema é mais embaixo. O governo reconhece finalmente o fazer cultural dos pontos mais longínquos e esquecidos do nosso mapa e promete-lhe R$ 180 mil reais. Mas a conta disso para a comunidade local é bem maior. Custa-lhe o apoio político envenenado por processos de participação viciosos, opressivos e anti-democráticos, com interferência direta do poder público. E pior que isso, custa-lhe uma dívida impagável. O dinheiro prometido aos pontos nunca chega. O mesmo descaso administrativo que rodeia a Lei Rouanet atinge o programa Cultura Viva. Estima-se que 90% dos Pontos de Cultura estejam em situação irregular. Com certeza os pontos não são os verdadeiros culpados dessa situação. Mas são os penalizados. O Ministério, por outro lado, não admite falhas. Pior do que isso, viaja pelo Brasil a fazer promessas de 20 mil pontos. Chegaram a falar em 100 mil. Mas não existe uma só voz a garantir lisura no processo de seleção, correção administrativa e autonomia política para os pontos. Ou seja, estamos falando do milagre da multiplicação dos problemas. A ganância, o oportunismo e a irresponsabilidade fiscal são tamanhos que o programa corre o risco de se transformar no próximo escândalo governamental, a ser defenestrado antes de sua real efetivação como política pública. Seria o maior desperdício de talento, não deste governo, mas de todos os artistas e atores culturais envolvidos nessa importante empreitada http://www.culturaemercado.com.br/index.php -- "Se você não concordar, não posso me desculpar..." pela sinistra "laotra", sempre!
_______________________________________________ Lista de discussão da MetaReciclagem Envie mensagens para [email protected] http://lista.metareciclagem.org
