Compartilho com toda(o)s msg, abaixo, que recebi de uma amiga, Marilinda
Fernandes, portuguesa com certeza, sobre o 25 de abril de 1974. Essa
amiga, advogada, foi, e continua sendo,  militante da vida, anarquista, que
muito colaborou e contribuiu para Revolução dos Cravos, em Lisboa, Guiné
Bissau, Angola, reestruturando, reconstruindo os pilares da democracia.






*From:* marilind <[EMAIL PROTECTED]>



"*Amigo por essa estrada amigo vem *

* não percas tempo com o medo que é nosso amigo também"*

    ( *Zeca Afonso*)

http://br.youtube.com/watch?v=RhDXm9fu1P0<http://alfarrabio.um.geira.pt/zeca/>



No dia 25 de abril, completam-se 34 anos que Portugal *despertou meio
incrédulo* entre a esperança da derrubada do fascismo e o medo da
continuação do pesadelo salazarista.

Contudo, à medida que o dia avançava *a esperança ganhava as ruas e o povo
perdia o medo*. Eram soldados, eram fuzis, eram cravos e éramos todos nós
cantando:

*"Grândola vila morena, dentro de ti oh cidade o povo é quem mais ordena!"
** *

Foram dias de festa, de excesso de alegria, de comoção e tudo o mais que ele
traz em si de subversivo.

Foram exercícios de democracia participativa, de auto-gestão operária,
reforma agrária; foi o *fim do colonialismo, foi a independência* de Angola,
Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe.

Enfim todos nós pudemos exercitar pelo menos uma vez na vida uma parte do
nosso ideário no sentido de estruturar o mundo de uma forma mais justa,
igualitária e libertária.

A *Revolução dos Cravos* valeu e vale como prova cabal de que os sonhos
também por vezes saem conosco à rua, tomam café e não nos abandonam ao
amanhecer.

Foram dias lindos que reclamam ser celebrados!

Libertariamente, vos saúdo

Marilinda.

****************************************************************************************







O filme "*Capitães de Abril*" de *Maria de Medeiros  *fala desse 25 de abril
de 1974, em Portugal, dos cravos vermelhos, símbolo eterno da Revolução, da
queda da ditadura e da libertação do país de um jugo de 48 anos, do povo que
saiu às ruas de Lisboa *na manhã daquele dia*,  que esteve ao lado dos
tanques para ver com os seus próprios olhos a vitória simbolizada na
rendição de Marcelo Caetano, do povo que gritou *vitória, vitória! e
liberdade, liberdade!* O povo que em esmagadora, anárquica e ruidosa maioria
se manifestou desde a primeira hora solidário com o *MFA* e apoiou da queda
do regime opressor.



Nesse ano de 74, quando Portugal vivia sua Revolução dos Cravos, o Brasil
estava afundado no terror da ditadura sombria. Nesse tempo, *Chico Buarque* uma
música  para os portugueses, "*Tanto Mar**":** *

<http://www.chicobuarque.com.br/>
*Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / E inda guardo, renitente / Um
velho cravo para mim / Já murcharam tua festa, pá / Mas certamente /
Esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim / Sei que há léguas a nos
separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / Navegar,
navegar / Canta a primavera, pá / Cá estou carente / Manda novamente / Algum
cheirinho de alecrim. *
***http://br.youtube.com/watch?v=PsJpeR2K-is&feature=related*



No Brasil, óbvio que a letra foi vetada pela censura, apenas liberaram a
versão instrumental; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.



A cara, o rosto dessa revolução, pode ser visto em *Otelo Saraiva de
Carvalho *e *Salgueiro Maia.* Homens generosos, utópicos, corajosos,
decididos, desenquadrados politicamente, aprendizes de feiticeiros e
ingênuos.



Olhando com mais compromisso e interesse o acontecimento, e não apenas com
olhar curioso, demasiado jovem, para entender a complexidade das
transformações que ocorriam na época (tinha apenas 11anos qdo da revolução),
fico pensando: o que existiu de comum entre estes dois homens e a Revolução
dos Cravos?



O primeiro, *Otelo Saraiva de Carvalho *é uma personalidade polêmica, como o
próprio 25 de Abril, cheio de contradições, desajeitado da política. Durante
o *PREC  *cometeu muitos erros, mas de fato foi ele que assumiu o comando
das operações quando foi preciso derrubar o antigo regime, com coragem e
determinação. Hoje mais maduro, está consciente dos erros que cometeu,
alguns reais, outros inventados. Quando *uma personalidade* é polêmica o
mito ultrapassa a própria realidade e será um estigma que o perseguirá para
além da morte.

O segundo, *Salgueiro Maia* é consensual e personifica o autêntico herói.
Foi com Salgueiro Maia que se viveu o momento-chave que decidiu a vitória do
movimento dos capitães. Retirou-se discretamente para o seu quartel, tinha
cumprido a sua missão. Infelizmente morreu jovem, vítima de doença estúpida.

Ambos são o *rosto do 25 de Abril*. Rosto da coragem, da contradição, da
ingenuidade, da generosidade, da autenticidade, que reside em cada um de nós
que acredita ser possível construir algo diferente, mais justo, mais
solidário, mais humano, mais livre, mais apaixonado, ingênuo e utópico. A
cara de uma revolução onde não houve a violência habitual, manchada de
sangue inocente. O povo oferecia flores, cravos, aos militares, que os
colocavam nos canos das armas. Em vez de balas, que matam, havia flores,
significando o renascer da vida e a mudança.

Não tem como esquecer. *Os portugueses e seus cravos*, *os brasileiros e a
ditadura.*

Não esquecer é conhecer, e só conhecendo podemos evitar cair em erros já
cometidos.

Infelizmente, em países onde poucos lêem, poucos sabem, como é o caso do
Brasil, ao passar por momentos de conquista, transformar esperança em
paciência, depois da paixão, só resta dois caminhos mais adiante: ou o amor
ou o ódio; dificilmente se encontrará o compromisso.

O ser humano tem o direito de ser feliz e não é virando as costas ao que se
passa, ou passou, no mundo que poderemos caminhar para essa felicidade. Se é
verdade que nunca o ser humano esteve tão próximo de alcançar o bem-estar,
também é verdade que nunca esteve tão próximo da autodestruição. Todos
vivemos no fio da navalha, só que na esmagadora maioria dos casos não temos
consciência disso.

Sonhar é preciso, com a condição de acreditar no sonho! E não custa nada...

*p.s.: esse post foi originalmente publicado em 25 de abril de 2005 - mas
devidamente atualizado para a data de hoje*


-- 
"Se você não concordar, não posso me desculpar..."

pela sinistra "laotra", sempre!
_______________________________________________
Lista de discussão da MetaReciclagem
Envie mensagens para [email protected]
http://lista.metareciclagem.org

Responder a