Imagine-se vivendo no tempo em que ainda não sabíamos fazer fogo. Num mundo
sem fogo, não existe luz. Depois que o sol se põe, não se enxerga mais nada.
Até o sol reaparecer, não se enxergará mais nada. Você estará numa escuridão
total e irremediável. A luz das estrelas não o ajudará a saber se aquele
escuro mais espesso que parece se mover é um parente, um amigo ou um leão.
Uma lua cheia melhorará a sua percepção, mas não muito: cada sombra
indefinida continuará a ser uma ameaça e um possível terror. Quando não
houver estrelas ou lua, você só saberá o que acontece à sua volta pela
audição, o olfato ou, meu Deus, o tato. Imagine uma noite inteira de ruídos
estranhos dos quais você não pode fugir, pois como encontrará uma árvore
para subir no escuro? Imagine-se aninhado numa árvore para passar a noite
com segurança e descobrindo, ao amanhecer, que dormiu enrolado numa cobra.

Quantos anos os pré-homens terão vivido assim, só conhecendo o fogo dos
incêndios provocados na mata por relâmpagos e desesperados por algum meio de
domesticá-los, os relâmpagos ou o fogo, para iluminar as suas noites? O sol
seria adorado pelos primitivos porque era a fonte da vida e, afinal,
qualquer bola incandescente daquele tamanho passando diariamente pelo céu
fatalmente causaria admiração, mas desconfio que o que era adorado, acima de
tudo, era a luz. Não a grande lâmpada mas a sua dádiva, o poder de enxergar.
O fim do terror do invisível, ainda mais do invisível que roncava.

O sono é uma decorrência dos anos sem fogo e sem luz. Dormimos porque nossos
antepassados não tinham o que fazer no escuro a não ser dormir. Como
continuamos a dormir como fazíamos na savana africana, ou pelo menos a ter
sono a intervalos regulares, isto significa que o cérebro humano não tomou
conhecimento nem da invenção da fogueira, quanto mais da lamparina, da
lâmpada a gás e da luz elétrica. Para o nosso cérebro, a escuridão da noite
continua total e irreversível. Temos sono porque a notícia de que agora
podemos enxergar no escuro ainda não chegou ao nosso cérebro.

Sabemos algumas coisas com absoluta certeza sobre os nossos antepassados
genéticos. Sabemos com absoluta certeza que todos viveram até a maturidade
sexual, que todos tiveram pelo menos uma relação sexual na vida e que todos,
sem exceção, eram férteis. Mas só podemos imaginar o que passaram para
sobreviver aos terrores do mundo primevo - como os terrores da noite -
portando o nosso DNA.

Se pudéssemos viajar no tempo, o que diríamos para estes antepassados, em
que língua, com que gestos? Só agradecer por terem resistido ao duro início
da vida humana, inclusive aos leões, e assim iniciado a nossa linhagem não
seria o bastante. O momento requereria alguma solenidade. Talvez um
discurso, dizendo que não os tínhamos desapontado, que também tínhamos
vivido o suficiente para passar adiante nossos genes e assegurar a sua
descendência, milhões de anos depois. E trocaríamos presentes.

Que presente poderíamos levar da nossa era para eles? Eu levaria uma caixa
de fósforos.
Luis Fernando Verissimo - Noite Escura - 21/01/08



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