Augusto de Franco (30/08/08)

Já está passando da hora de recuperar Ivan Illicht, que publicou, há
quase quatro décadas – em uma época em que as pessoas não podiam
captar plenamente o alcance de sua visão inovadora –, o célebre
Deschooling Society (1971) (1).

Trata-se hoje de investir nos processos e programas educacionais extra-
escolares – como o homeschooling, o communityschooling, o unschooling
e o autodidatismo (2).

As razões são quase óbvias e já foram expostas na minha 'Carta Rede
Social 170' (14/08/08) (3). Retomo aqui, de forma resumida.

Embora se declarem instituições laicas, as escolas são, no fundo,
igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) que decidem o que
as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus de aprendizagem (na
verdade, de ensino) são ordenações: medem a sua capacidade de replicar
uma determinada ordem. Não é por acaso que a educação a distância
encontrou fortíssima resistência na academia. Pelos mesmos motivos, os
citados processos e programas educacionais extra-escolares são
duramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam
– sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seu
caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos de
leigos...

Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e
reconhecer padrões. Nos dias de hoje, uma criança com acesso à
Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados
por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol,
por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais
velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez
anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente
conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever,
aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas
cotidianos e... banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é
terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de
fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para
os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos
filhos alheios.

Em uma sociedade-rede, a educação é uma conseqüência dos meios
interativos disponíveis na rede. São esses meios que conformam
ambientes sociais (clusters) capazes de ensejar aquele tipo de
interação caracterizada como educativa. Ou seja: a escola é a rede!

Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas,
ter condições de compreender e atuar em seu entorno social, ter
habilidade para analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar
informações e de trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como
objetivos do processo educacional básico. No entanto, para além, muito
além, disso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede
tendem a valorizar outras competências ou habilidades, como a de
identificar homologias entre configurações recorrentes de interação
que caracterizam clusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais
sinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas
acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não apenas
trabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.

Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades
desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illitch.

De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a
convivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, a
educação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou a
sustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode
ser por acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é
uma das instituições que mais resistem ao surgimento da sociedade-
rede.

Sobre o homeschooling, o communityschooling e o unschooling, o leitor
pode encontrar mais detalhes na nota (2).

Vou falar agora da necessidade de investir em uma velha-nova
modalidade educativa: o autodidatismo. Velha porque foi assim que tudo
começou. Nova porque, nos dias que correm, uma criança, uma pessoa
adulta ou idosa navegando, lendo e publicando na Web é,
fundamentalmente, um autodidata.

Não adianta torcer o nariz. Na sociedade que está vindo, todos serão
autodidatas, por mais que queiramos condicionar a empregabilidade à
formação escolar e acadêmica.

Como escrevi recentemente, em Escola de Redes: Novas Visões (2008), na
sociedade-rede "você é importante na medida de sua capacidade de
exercer uma dessas três funções [hub, inovador ou netweaver] e não de
seu exibicionismo, de sua desenvoltura em usar os semelhantes como
instrumentos para sua projeção ou de sua auto-reclusão estudada,
baseada em uma opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada em
seu currículo" (4).

Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitas
vantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da
idéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a
burocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se
destacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassem dos
semelhantes – os sábios precisam que a sociedade continue burra.

Estamos vivendo há séculos sob o controle de uma burocracia sacerdotal
do conhecimento. Permita-se-me uma outra auto-citação, ainda do Escola
de Redes: Novas Visões. "Você fez um estudo interessante sobre
determinado assunto, mas a burocracia sacerdotal do conhecimento
acadêmico não lhe dá crédito; você tenta ler (ou escrever) alguma
coisa inédita, mas não consegue entender (ou ser entendido) por razões
estranhas à racionalidade formal (lógica e metodológica) ou
substantiva (semântica incluída) do texto: certamente está havendo
algum tipo de intervenção hierárquica, que seleciona alguns caminhos
na rede em detrimento de outros. Algum programa particularizou uma
região da rede instaurando códigos de reconhecimento e permissões. Se
você não possui as credenciais (um título, por exemplo, com o qual os
mesmos de sempre se condecoram mutuamente em um circuito fechado de
quem leu as mesmas coisas, participou das mesmas conversas, quer
dizer, compartilhou voltas em torno do mesmo assunto ou da mesma
maneira de abordá-lo), seu acesso é proibido. Para esse tribunal
epistemológico — que se arroga o direito de dizer o que é e o que não
é válido em termos de pensamento — todos são culpados de heresia em
princípio. Você tem que ser absolvido por ele, de antemão, para ser
aceito" (4).

É assim que a escola, nos últimos séculos, não foi um meio de
inclusão, mas de exclusão. Nesse tipo de platonismo (como todo
platonismo, autocrático), o "doutor" (o sábio) era um representante do
mundo dos incluídos, que se destacava do mundo dos excluídos (os
ignorantes). Até hoje, no Brasil, se for pego cometendo um crime, quem
tem curso superior merece prisão especial: seu diploma lhe confere o
direito de não ficar na mesma cela que os sem-diploma (os ignorantes).
Sim, o seu suposto conhecimento atestado por títulos lhe dá uma
condição superior e é a própria lei que lhe reconhece o direito de se
destacar dos semelhantes. Barbaridade!

É claro que hoje as coisas devem – e já podem – ser colocadas de outra
maneira, envolvendo redes ou comunidades de aprendizagem, sobretudo no
que se refere à educação em casa (homeschooling) e à educação
comunitária (communityschooling), esta última em um sentido mais
abrangente do que o da comunidade sócio-territorial, envolvendo
clusters de aprendizagem (ou seja, comunidades como redes com alto
grau de distribuição e conectividade). Fala-se até, por analogia com
os APL (arranjos produtivos locais), de "AEL" (arranjos educacionais
locais), mas o sentido de local aqui deve ser estendido para abarcar,
além de comunidades territoriais, todos os tipos de redes
identitárias.

A sociedade sem escola de Illicht deveria ser, assim, renomeada como a
sociedade-escola, desde que fique claro que se trata da sociedade-
rede; ou seja, estamos falando da cidade educadora, ou, mais
precisamente ainda, das comunidades educadoras que se formam na
sociedade-rede.

Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos,
enquistadas dentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em
que a sociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, é a
própria sociedade (local, no sentido ampliado) que educa, por meio das
comunidades (clusters) que necessariamente se formam em seu seio.

Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades de
aprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. E a pessoa, como
continuum de experiências pessoais intransferíveis e, ao mesmo tempo,
como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) em
um ambiente educativo (5).

A educação básica não deveria ser baseada na transferência de
conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilização de
ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Para
reprogramar a educação básica deveríamos começar perguntando o que é
necessário para que um indivíduo e uma comunidade possam fazer o seu
próprio roteiro de aprendizagem. Do ponto de vista do autodidatismo,
temos então uma resposta em 10 pontos:

1 – Reconhecer padrões
2 – Estabelecer conexões
3 – Ler na sua língua natal
4 – Interpretar o que leu
5 – Escrever na sua língua natal
6 – Fazer contas (as operações matemáticas básicas)
7 – Aplicar os conhecimentos básicos de matemática na sua vida
cotidiana
8 – Ler em outra língua (da globalização, quer dizer, falada por um
grande  contingente populacional espalhado por vários países e mais de
um continente)
9 – Argumentar (rudimentos de lógica)
10 – Navegar e publicar na Internet

Esses são os requisitos e as ferramentas contemporâneas da inclusão
educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ou seja, de
posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opções
pessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e
compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os
requisitos para o autodidatismo.

A chamada pré-escola (ou melhor, a educação da primeira infância)
deveria se concentrar nos dois primeiros itens (além da fala, é
claro). E o passo seguinte deveria ser – quer por meio da escola
básica, quer por meio da educação extra-escolar: na educação em casa
(homeschooling) e na educação comunitária (communityschooling) –
promover o aprendizado dos oito itens restantes. Mas mesmo que a
escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não se
poderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede na qual o ser
humano se conecta), nem da educação comunitária (a primeira expansão
dessa rede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais
próximos).

Para além da escola, essas duas redes serão também indispensáveis na
próxima etapa curricular, na qual devem comparecer os primeiros
conteúdos temáticos substantivos. Não, não se trata de nada (ou quase
nada) do que atualmente compõe os currículos escolares. Trata-se, por
incrível que possa parecer, da educação para a sustentabilidade, quer
dizer, para a vida (em um sentido ampliado, envolvendo os
ecossistemas, inclusive o ecossistema planetário) e para convivência
social. Isso compreende duas "disciplinas" (se for possível falar
desse modo) interligadas: a educação para a democracia e a educação
para o desenvolvimento.

A educação para a democracia (em um sentido deweyano do termo)
compreende a educação para vida comunitária, para os modos
cooperativos de resolução de conflitos e para as formas de
relacionamento que ensejam a regulação social emergente (as redes).

A educação para o desenvolvimento (humano, social e sustentável) deve
compreender, por sua vez, o empreendedorismo (e a chamada pedagogia
empreendedora) e o desenvolvimento local (ou comunitário).

Todo o restante é suplementar. Pasmem! Mas é isso mesmo. Saúde
(incluindo educação física, alimentação e nutrição), artes e
literatura, ofícios, história, ciências, filosofia e espiritualidade –
são conteúdos importantes, mas não são educação básica em um sentido
sistêmico, de acesso a ambientes favoráveis a aprendizagem. Isso não
quer dizer que as pessoas não devam aprender essas coisas. Cada um
deve aprender o que quiser, o que for necessário para o
desenvolvimento de suas potencialidades e para a execução dos papéis
sociais que optou por desempenhar. Mas à educação societária (ou
comunitária) – à educação como domínio público – cabe se concentrar
naqueles dez requisitos para a auto-aprendizagem e naquelas duas
dimensões temáticas da educação para a sustentabilidade (democracia e
desenvolvimento) que têm a ver com os padrões de vida e de convivência
social.

A educação para o autodidatismo deve se preocupar basicamente com
isso, com a educação como domínio público. Essa a "formação básica" do
autodidata – que constituirá o ser humano inteligente em uma sociedade
inteligente do futuro – que deveria ser priorizada pela rede familiar,
pelas redes comunitárias e pelas hierarquias escolares básicas (a
escola fundamental nos seus primeiros anos).

E depois? Bem, depois serão os autodidatas que – eles próprios tendo
condições de caminhar com suas próprias pernas, desde que aprenderam a
aprender – vão dizer o que querem aprender e o que não querem. Em uma
sociedade livre, não podemos ficar enfiando conteúdos na cabeça dos
outros para cumprir os papéis que desejamos que eles cumpram.
Sobretudo não deveríamos, com base na falta de possibilidade (em geral
econômica e social) da maioria da população, de fazer escolhas em um
leque mais amplo de alternativas, ficar ensinando corte-e-costura para
as meninas e carpintaria ou mecânica para os meninos. Isso pode
interessar ao dono da fábrica de confecções, de móveis ou da fábrica
metalúrgica e da montadora de automóveis, que quer que os filhos
alheios aprendam tais ofícios, mas raramente se dispõe a matricular
seus próprios filhos nessas escolas técnicas, reservando-lhes um lugar
em alguma carreira acadêmica, "superior", na qual eles vão aprender a
mandar nos outros ou a ter melhores condições de auferir altos
salários, lucros e benefícios. Como se pode ver, aqui não estamos mais
no terreno da educação como domínio público, ainda que muitas das
escolas (estatais) que se dedicam ao adestramento da força de trabalho
sejam (ditas) públicas.

Alguns retrucam que esse tipo de educação para o autodidatismo não
pode ter avaliação da aprendizagem, mas isso é falso. A avaliação
passa a ser feita em coletivos mais amplos, passa a ser uma avaliação
da sociedade – uma avaliação pública stricto sensu – e não a avaliação
privada de uma confraria sacerdotal. Em vez das notas e dos títulos
conferidos por uma corporação de professores, por uma banca acadêmica,
os autodidatas serão avaliados pelo que produzem. É a árvore avaliada
por seus frutos e não pelos certificados que recebeu da organização
dos botânicos.

Isso já acontece com os escritores. Escritor é quem escreve e quem é
reconhecido pelos leitores (que lêem seus livros e os recomendam) e
não quem recebe autorização para escrever de uma corporação qualquer
de escribas ou um conjunto de opiniões favoráveis dos críticos
literários. Somente em regimes autocráticos as pessoas têm que ter
autorização para publicar o que escrevem. Mas mesmo em regimes
formalmente democráticos existem quistos autocráticos (como
corporações profissionais ou acadêmicas) querendo impor proibições
para tal exercício (como ocorre hoje, por exemplo, com a
obrigatoriedade do diploma de curso superior de jornalismo para
exercer a função jornalística).

As academias científicas também impõem restrições autocráticas. As
revistas científicas reconhecidas são dirigidas por conselhos
editoriais – que se constituem, como vimos, como verdadeiros tribunais
epistemológicos (e freqüentemente também como alfândegas ideológicas)
– aos quais cabe dizer o que um estudioso pode ou não pode publicar (a
começar pela exigência de diplomas do autor como condição prévia para
aceitar sequer receber e examinar o seu paper). Muitas vezes um jovem
estudante de astrofísica fica meses esperando um parecer favorável à
publicação de um artigo em que relata importantes descobertas que fez.

Tudo isso faz parte da organização sacerdotal do conhecimento
(etimologicamente, uma hierarquia), que não é mais compatível com a
sociedade em rede que está emergindo.

Mas na sociedade-rede que está emergindo, nosso astrofísico já
encontrou uma saída: agora ele publica suas descobertas imediatamente
em seu próprio blog, sem pedir autorização a ninguém. Outros
astrofísicos, que também têm seus blogs, lêem o que ele escreveu e
interagem com ele. O único resultado é que enquanto o tribunal
espistemológico dos pós-PHDs em astrofísica estão pensando se aceitam
ou não aceitam seu artigo, a ciência avançou pela polinização mútua
das idéias e dez novos artigos sobre o mesmo tema apareceram
sucessivamente. Formou-se uma rede. E a rede avaliou a aprendizagem
daquele jovem astrofísico por meio de um processo criativo, gerando
mais aprendizagem coletiva.

Se não houver retrocesso no processo de emergência da sociedade-rede,
tudo será assim. As notas, os certificados, os diplomas e os títulos
continuarão existindo, mas as pessoas que realmente importam – quer
dizer, que se conectam para aprender e produzir juntas – darão cada
vez menos bola para essas autorizações hierárquicas.

Já há bastante gente pensando assim. Headhunters inteligentes se
impressionam muito pouco com a coleção de diplomas apresentados por um
candidato a ocupar uma vaga em uma instituição qualquer.Querem saber o
que a pessoa está fazendo. Querem saber o que ela pode ser a partir do
que pretende (do seu projeto de futuro) e não o que ela é como
continuidade do que foi (da repetição do seu passado). Está certo:
como se diz, o passado "já era". O novo posto pretendido não será
ocupado no passado e sim no futuro. Então o que é necessário avaliar é
a linha de atuação ou de pensamento que está sendo seguida pelo
candidato.

Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelos
interessados em se associar ou em contratar (latu sensu) uma pessoa.
Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando os
especialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vez
horizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir
do exame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo
isso estará disponível, será de domínio público e não ficará mais
guardado por uma corporação que tem autorização para acessar e licença
oficial para interpretar tais dados.

Cada pessoa terá a sua própria Wikipedia. Ao invés de aceitar apenas
as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificar diretamente
a wikipedia de cada um, aquilo que David de Ugarte (2007) chamou de
contextopédia: o arquivo-vivo que contém as definições dos termos
habituais, os pontos de vista, as referências, os trabalhos e as
conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimento e de
atuação (6). Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao
autor daquela contextopédia. Ponto final.


Notas e referências

(1) ILLICHT, Ivan (1971). Deschooling society. New York: Marion
Boyars, 1971. O original está disponível on line no link abaixo:

http://en.wikiversity.org/wiki/Ivan_Illich:_Deschooling_Society

Existe tradução brasileira: Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes,
1985. A íntegra já está disponível no link abaixo:

http://www.4shared.com/file/57047554/c83bde51/Ivan_Illich_-_Sociedade_sem_Escolas.html

(2) Sobre o homeschooling, saiba mais clicando no link abaixo:

http://pessoas.hsw.uol.com.br/homeschooling.htm

Sobre o communityschooling, saiba mais lendo o artigo de Erwin Flaxman
(disponível em inglês apenas): "The promise of urban community
schooling" em The Eric Review vol. 8, Winter 2001, que pode ser
acessado pelo endereço abaixo:

http://permanent.access.gpo.gov/lps50000/ERIC%20REVIEW%20ARCHIVE/vol8no2.pdf

Sobre o unschooling, consulte o site:

http://www.unschooling.com/index.shtml

(3) Para ler clique no link abaixo:

http://augustodefranco.locaweb.com.br/cartas_comments.php?id=255_0_2_0_C

(4) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas Visões sobre a
sociedade, o desenvolvimento, a Internet, a política e o mundo
glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

(5) Como articulador do Comitê Científico do X Congresso Internacional
de Cidades Educadoras (São Paulo, 24 a 26 de abril de 2008), propus um
conjunto de 27 questões provocativa para o debate dos participantes,
cujo sentido geral era explicitar duas dimensões ainda não
suficientemente exploradas ao longo de quase duas décadas de
experiências desse interessante movimento surgido em 1990 em
Barcelona: a) as relações entre cidade educadora e democracia
(democracia entendida aqui quer como regime político formal, quer como
experiência de convivência social, na base da sociedade e no cotidiano
do cidadão); e b) as relações entre cidade educadora e os processos
individuais e coletivos de aprendizagem potencializados pela
emergência das redes sociais distribuídas.

Em uma proposta de resolução – que não foi objeto de apreciação pela
plenária final do Congresso – propus, entre vários outros, os
seguintes pontos como conclusões:

1) As cidades sempre foram educadoras, assim como o foram também os
habitats considerados não-urbanos. Em todas as épocas e lugares a
convivência social gerou processos de socialização de seus membros
como elementos básicos da própria existência humana em sociedade.

2) Nem toda cidade que prioriza políticas públicas, programas e ações
governamentais e não-governamentais de educação (ou voltadas à
educação) pode ser considerada uma cidade educadora no sentido
apontado pelos congressos de Cidades Educadoras. Se fosse assim, não
haveria necessidade de construir um novo conceito. Cabe, portanto,
identificar os elementos distintivos a partir dos quais se poderia
caracterizar uma cidade como educadora.

3) O que é propriamente educador na Cidade Educadora é o ambiente
favorável à interação educadora. Isso não significa que não são
importantes as políticas, os programas e as ações governamentais de
educação. Nem que não sejam importantes as escolas e universidades.
Nem que não sejam importantes os programas e ações de educação não-
governamentais. Tudo isso é importante, mas a sinergia entre essas
diversas ações, processos e instituições formais, não-formais ou
informais, depende de como elas interagem virtuosamente para produzir
um efeito sistêmico. O ambiente educador, portanto, é a chave da
questão.

4) Somente seres humanos podem educar seres humanos, ou seja, a
educação é o resultado de uma interação entre humanos. Cabe
identificar quais os novos arranjos sociais capazes de favorecer tais
interações, ensejando a multiplicação de atividades educadoras na
cidade.

5) Toda cidade é educadora na medida em que seu tecido urbano é
composto por múltiplas redes sociais que aprendem e promovem
interações educativas entre as pessoas conectadas nessas redes. São
essas redes que educam em uma cidade educadora. Para além dos
necessários programas formais e das estruturas educativas, são essas
redes que conformam o ambiente propício à função educadora do processo
democrático. São essas redes que educam a própria cidade para que ela
possa ser caracterizada como uma cidade educadora no sentido da Carta
das Cidades Educadoras.

6) A proposta de Cidade Educadora implica a existência de novas
institucionalidades educadoras na cidade. Essas novas
institucionalidades serão de várias naturezas: governamentais,
empresariais e sociais. Parte significa delas deverá ser pública, em
um sentido mais amplo do que aquele compreendido pelo Estado. Deverão
ser formadas por parcerias entre setores governamentais, empresariais
e sociais para buscar extrair sinergias da interação entre esses
diversos tipos de agenciamento.

7) Cidade Educadora não é uma cidade escolarizada. Ao focalizar
prioritária e exclusivamente as escolas como instrumentos ou espaços
educativos, pode-se estar contribuindo para uma indesejável
escolarização da sociedade ao invés de promover uma necessária
socialização das escolas e diminuindo a importância dos ambientes
sociais coletivos que deveriam caracterizar uma Cidade Educadora.
Cidades Educadoras são cidades nas quais proliferam, além de um
sistema escolar eficiente e inclusivo, ambientes educadores extra-
escolares.

8) O mais importante, porém, é a cidade como espaço de aprendizagem.
Cidade Educadora, antes de ser uma cidade-que-ensina é uma cidade-que-
aprende e enseja a aprendizagem contínua de seus cidadãos. Assim,
antes de perguntar o que é uma 'Cidade Educadora', deveríamos
perguntar o que é uma 'Cidade que Aprende'. Uma cidade não pode ser
Educadora se não for, antes, uma cidade capaz de aprender ou uma
cidade-que-aprende.

9) As Cidades Educadoras promovem a educação, transformando-a numa
força da cidade na conquista de inclusão, equidade e direitos para
todos. Todavia, a idéia de inclusão social não pode ser adequadamente
expressada somente como o direito dos cidadãos a receberem algo do
Estado. As pessoas devem fazer alguma coisa a mais em favor da sua
própria inserção, além de exigirem os seus direitos do Estado
protestando, demandando e monitorando as políticas governamentais. As
pessoas devem assumir por si próprias responsabilidades com a promoção
da sua real inclusão social. Isso faz parte do aprendizado dos
cidadãos e do aprendizado da cidade como um todo, sem o qual a cidade
não poderá se caracterizar como uma cidade educadora. Ao lado da noção
de igualdade, sempre enfatizada quando falamos sobre as necessidades
de inclusão social, também deve ser enfatizada a noção de liberdade
para inovar, criar, arriscar e empreender e propor ações coletivas que
resultem em uma maior participação democrática da sociedade para
promover, por via de suas iniciativas endógenas, a inclusão dos
excluídos.

10) As tendências atuais indicam que em um mundo cada vez mais
interconectado culturalmente, terão uma inserção mais adequada às
experiências de miscigenação (cultural) do que de multiculturalismo.
Multiculturalismo sem interculturalidade não é desejável. O que é
desejável, do ponto de vista das Cidades Educadoras, é uma relação
entre pessoas e coletivos culturalmente diferenciados que implique a
promoção sistemática e gradual de espaços e processos de interação
positiva capazes de generalizar relações de confiança, reconhecimento
mútuo, comunicação efetiva, diálogo e debate, aprendizagem e
intercâmbio, regulação pacífica dos conflitos, cooperação e
convivência. Iniciativas de prevenir conflitos (sejam estes de caráter
distributivo, inter-geracional, inter-étnico ou inter-religioso) devem
articular-se por meio da aplicação de políticas urbanas e iniciativas
de instaurar modos democráticos de regulação de conflitos na base da
sociedade e no cotidiano dos cidadãos.

11) Péricles, talvez o principal expoente da democracia grega, afirmou
– segundo Tucídides, na oração fúnebre proferida no final do primeiro
ano da guerra do Peloponeso – "que a cidade inteira é a escola da
Grécia e creio que qualquer ateniense pode formar uma personalidade
completa nos mais distintos aspectos, dotada da maior flexibilidade e,
ao mesmo tempo, de encanto pessoal". Tal relação entre a educação e a
vida democrática da polis, está na raiz do conceito de cidade
educadora. Essa visão pode ser apresentada em termos contemporâneos,
pois continua válida em essência. Poder-se afirmar hoje que o
investimento na educação do indivíduo para melhorar a sua vida depende
do investimento em ambientes coletivos favoráveis à boa governança, à
prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de
melhorar suas condições de convivência social. No conceito fundante de
Péricles, quem educa não é propriamente a Cidade-Estado e sim a
koinomia (a comunidade) política (democrática). Na ausência de
democracia (mesmo que limitada aos mecanismos e processos formais de
representação, isto é, como regime político ou forma de administração
do Estado), uma cidade não pode alcançar a condição de Cidade
Educadora.

12) Cidades educadoras ensejam o surgimento de novos atores públicos
para além dos atores estatais ou governamentais. O cidadão conectado
em redes de participação cidadã pode, como tal, fazer política
pública. A política pública não é mais monopólio do Estado, mas inclui
também os atores sociais que operam com um sentido público. A
sociedade civil pode, como tal, tomar iniciativas públicas coletivas,
aumentando o seu protagonismo e o seu empreendedorismo. E nada disso
constitui privilégio das formas de organização tradicionais e
burocráticas (da chamada "sociedade civil organizada"). Os cidadãos
desorganizados (segundo os antigos padrões de organização), porém
conectados horizontalmente uns com outros em prol de objetivos comuns,
podem participar da composição de uma nova esfera pública não-estatal.

13) Se cidades podem aprender, como elas podem aprender? Eis a grande
questão colocada pela contemporaneidade para as Cidades Educadoras.
Quem aprende na cidade não são apenas os cidadãos, individualmente,
mas também as redes sociais nas quais tais cidadãos estão conectados.
Podemos dizer que a comunidade se desenvolvendo é sinônimo de sua rede
social aprendendo. Quando se diz que a cidade educa, o que se está
dizendo, a rigor, é que são as diversas comunidades de aprendizagem,
de prática e de projeto que se formam dentro da cidade que estão
aprendendo. Apenas estruturas complexas que apresentam a morfologia e
a dinâmica de rede podem aprender. Uma cidade será cada vez mais
educadora na medida em que for também, cada vez mais, uma cidade-rede.

(6) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/
ediPUCRS, 2008.



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Fabianne Balvedi
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