Oi, Renan,

Sem dúvida nenhuma, a sua argumentação faz sentido. O IME é uma escola de
engenharia, não um instituto de matemática.

Nós desta lista, que temos prazer em estudar matemática, devemos, porém,
considerar que vários assuntos aqui discutidos podem não ser mesmo
essenciais para um engenheiro (aliás, eu sou engenheiro). É um fato que a
maior parte dos engenheiros nao aprecia este lado mais formal da matematica,
este lado mais abstrato e nao se preocupam tanto com formalismos.

Sem dúvida, o pragmatismo é uma virtude importante para o engenheiro, não o formalismo, estrito senso. De qualquer forma, tanto você quanto eu somos engenheiros e apreciamos o "tal formalismo"...

Por exemplo, a grande maioria dos engenheiros trabalha com funções, mas
poucos sabem definir formalmente o que é limite ou continuidade. Poucos
sabem dar a definicao epsilon/delta, embora a maioria tenha um conceito
intuitivo correto do que limite e continuidade significam. Isto nao eh
critica, apenas consequencia das prioridades de um engenheiro.

Exatamente. E ele não precisa conhecer epsilons e deltas. Aliás, a definição de limite através de epsilons e deltas veio MUITO tempo depois da definição mais pragmática, que é (o pragmatismo), em minha opinião, uma das principais habilidades de um engenheiro. Acho até que Nicolau já comentou sobre a definição de limite com epsilons e deltas nesta Lista.

Alías a questão de aptidões diferentes eu vivenciei em minha própria casa. Tenho três filhos brilhantes (sou coruja, sim, que jeito). Dois são muito bons em Matemática (um deles, o Diego, já andou pelas olimpíadas da vida, de Matemática e de Programação); um faz doutorado em computação gráfica em Princeton e o outro Finanças em Berkeley. Suas habilidades são completamente diferentes ! O terceiro é médico pediatra e infectologista e uma das raras competições a que nos dedicamos é um joguinho idiota chamado Tetris (bi e tridimensional) onde advinha quem dá a maior surra em todo mundo? O médico. Pois é, há vários tipos de inteligências, não é mesmo?

Isto para nos pode ser um tanto frustrante, principlamente para quem gosta
de Analise, parte da matematica que lida com conceitos que muitos
consideram, assim, um tanto "fosforicos", como definicoes rigorosas de
integral.

Não Arthur, não precisa ser frustrante. São apenas diferentes e possuem outras aptidões e interesses diferentes dos nossos.

Por isso, devemos aceitar que nem todos (alias, muito poucos) se
interessam em saber se existem funcoes continuas soh nos racionais, se
existem ou nao uma infinidade de numeros perfeitos, etc. Eu mesmo, hah pouco
tempo, enviei uma mensagem sobre metrica induzindo a topologia discreta. Por
mais interessante que isso me pareca, devo aceitar que poucos vao apreciar
tais detalhes e que um engenheiro nao tem mesmo que conhecer isso para ser
competente.

Sem dúvida, mas esta lista, que é grande para caramba, não lhe basta? Olha aquela velha e batida frase "o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?" (será que é isto?). Acho que o mundo seria uma chatice se todos fossem iguais a mim... Eu não me suportaria me vendo refletido em todo mundo que me cerca. Viva a diferença (alías, não sei como o manjado Narciso se aguentava!).

Eu, por exemplo, por por motivos profissionais, conheco alguma coisa sobre a
legislacao do setor eletrico brasileiro. Mas me restrinjo à parte
relacionada ao meu trabalho. Tenho, porém, um colega advogado que se deleita
analisando a legislação, entrando em aspectos que poucas pessoas conhecem.
Ele não se interessa por matematica, mas respeita o meu interesse, assim
como respeito o interesse dele por aspectos legais em que não pretendo me
aprofundar.

Assim eh a vida, e a direcao do IME deve ter seus motivos. Os quais, eh
claro, em nada impedem que aqui continuemos a nos preocupar com o que nos
interessa e nos dah satisfacao.

Artur

Abração,
Nehab

-----Mensagem original-----
De: [EMAIL PROTECTED] [mailto:[EMAIL PROTECTED]
nome de Carlos Eddy Esaguy Nehab
Enviada em: quinta-feira, 26 de outubro de 2006 10:21
Para: [email protected]
Assunto: [obm-l] Vamos tentar pensar diferente?


Oi, gente,

É interessante perceber a frustração geral (aqui e alhures...) com
relação à prova discursiva de Matemática do IME.      Entretanto,
descontados os exageros (até justificáveis) dos julgamentos emitidos
ainda no decorrer do "susto", gostaria de meter o meu bedelho nesta
história, pois fiz e faço parte dela.

Mas para evitar que alguém de forma talvez afoita pense em "quem é
este idiota com esta opiniao maluca", aqui vão minhas credenciais
(pois infelizmente às vezes a gente tem que apresentar as credenciais
- é assim que o mundo funciona; desta forma poderão me esculhambar ou
contra-argumentar com conhecimento do interlocutor).

Fui aluno civil do IME (1965/69 - segunda turma de civis - Elétrica),
professor durante vários anos do Básico, com passagens na Elétrica, e
na pós de Nuclear - se é que não esquecí alguma coisa (ah, isso há
mais ou menos 30 anos...).    Participei de forma relevante na banca
de matemática de 1972 onde sem dúvida "erramos a mão", com uma prova
muito difícil para a época.    Também fui "vedete" de Vestibular
durante alguns anos muito felizes da minha vida, onde tive a honra e
prazer de ser professor (no vestiba e no IME) de algumas cabeças
geniais que habitam esta lista e de outras que não a habitam mas são
também geniais e respeitados professores e profissionais do
mercado.   E nos ultimos anos tenho atuado em consultoria em
Informática e ainda, de vez em quando  espero cada vez mais), no
magistério em Matemática (minha alucinada, incompreensível e
tresloucada paixão).

Dito isto, vamos lá, embora caiba ressaltar que não tenho procuração
de ninguém para falar em nome do IME: falo exclusivamente em meu
próprio nome.  Além disso, ressalto que num primeiro momento (e
confesso, num segundo momento também) fiquei desapontado.   Mas
talvez pela idade :-) aprendi a ser menos afoito em meus julgamentos
(quem me conheceu quando jovem nem vai acreditar nisto...).

Vejamos alguns aspectos que resolvi colocar "na minha própria mesa"
para reflexão, considerando que minimamente parto da premissa que a
banca obviamente SABE que concebeu provas bem mais fáceis que as dos
anos anteriores e que, convenhamos, dificilmente isto aconteceu por
acaso ou incompetência.

Alguns Fatos (discutíveis ou não, mas minha crença)

1: O IME é uma escola de engenharia, não um instituto de matemática
(nem pura nem impura) - cuidado com os próprios fígados e egos - não
é nada pessoal...:-);
2: Um alto percentual de ex-alunos do IME sabidamente NÃO segue a
carreira de engenharia (razão da existência da Instituição), mas de
matemática, economia, magistério, música :-), etc.).
3: A preparação para o IME já está há alguns anos adquirindo
contornos no mínimo discutíveis: qual questão dos livros do fulano ou
sicrano vai cair este ano?   Muitas vezes a formação mais conceitual
dos alunos é substituída por excesso de adestramento, em listas
intermináveis de problemas de matemática.   Vê-se crescente a
competição entre as instituições preparatórias e os egos dos
professores, ao invés da formação adequada e competição sadia entre
os alunos candidatos.
4: Os alunos com melhor desempenho em Matemática não se tornam,
necessariamente, os melhores emprendedores e engenheiros;
5: A prova NÃO foi banal, como várias pessoas o imaginam.   Minha
experiência em processos de seleção (dezenas) me autorizam a afirmar
que o desvio padrão foi bem maior do que a maioria imagina.   Podemos
fazer até umas apostinhas...:-)
6: Há muito tempo me pergunto se a prova de matemática deve ser o
elemento determinante do acesso ao IME e ter o "ibope" que tem tido.

Por fim, gostaria de colocar na mesa se o papel dos que admiram a
instituição não deveria ser a proposição de outras formas de definir
o acesso à mesma, ao invés de apenas reclamarmos por simples
saudosismo ou com saudades da mesmice.

Eu, particularmente, tenho pensado se uma prova de Ciências
(Matemática, Física e Química), onde seriam propostos problemas do
mundo real (onde atua o ENGENHEIRO), não seria mais eficaz.    A
linha que imagino, que não possui nenhum pioneirismo, seria uma
adaptação do que na vida real um engenheiro enfrenta e segue, por
exemplo, a linha de trabalho do genial ex-mestre do IME de Física, o
professor Helcio.   Nos dias que antecediam a prova, ele exibia uma
"miniatura" na mesa dele sobre o tema da prova, e nós pensávamos em
problemas reais relacionados com o tal tema: um submarino, um
foguete, um sputinik :-), etc.  Obviamente ele colocava na prova
quase uma centena de dados absolutamente inúteis para a solução dos
problemas propostos (como sói acontecer no mundo real).

Sintetizando: será que não estava na hora, num mundo com a educação
ainda equivocadamente tão compartimentada, o IME tentar processos
seletivos de fato multidiscipinares, mais aderentes ao mundo
real?  (meu doutorado na PUC é em Educação Tecnológica, uma linha de
trabalho que une os departamentos de Eletricidade, Educação e
Psicologia...;  as discussões ficam muito, mas muito ricas, quando a
gente junta pessoas interessantes, com formações e experiências
diferentes em várias áreas de conhecimento...  Sai da mesmice).

Para finalizar, algumas perguntas que me ocorriam enquanto escrevia
este email:  Newton era matemático, astrônomo, filósofo ou
físico?  Einstein era matemático, físico, astrônomo ou
filósofo?  Prigogine era químico ou matemático? Russel era matemático
ou filósofo?  Chomsky é matemático, lingüista, filósofo ou político
engajado?  Paul Levy (professor de Mandelbrot) foi matemático, físico
ou quimico?  Dewey foi filósofo, pedagogo ou psicólogo?  Withehead
foi filósofo, lógico, matemático, físico ou pedagogo?  Pois é....

Nehab

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Instruções para entrar na lista, sair da lista e usar a lista em
http://www.mat.puc-rio.br/~nicolau/olimp/obm-l.html
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