2011/2/10 Marcos Xavier <[email protected]>:
> Prezados amigos.
>
> Segue uma questão que discordo do gabarito.
>
> Em 2007, o preço de uma mercadoria era 60% menor do que o preço da mesma
> mercadoria em 2008 e, em 2009, era 80% superior ao de 2008. O aumento de
> preço em 2009, tendo por base o preço de 2007, foi de:
> A) 120%.
> B) 140%.
> C) 148%.
> D) 300%.
> E) 450%.
>
> O gabarito é Letra (E), mas chegaríamos à letra (E) imaginando:
>
> 2007: 40
> 2008: 100
> 2009: 180.
>
> Se fizermos 180/40 realmente vai dar 450%, mas a questão fala em aumento de
> preço. Não deveríamos fazer (180-100)/40?
Eu diria que o "aumento do preço" é (180 - 40)/40 = 140/40 = 3,5 =
350%. Ou seja, letra F. Mas talvez você esteja certo, afinal, fala-se
do "aumento do preço em 2009" com relação ao preço de 2007; o aumento
foi de 180 - 100 = 80, logo é um aumento de 200% se "tomamos por base
o preço de 2007", o que quer dizer 40 = 100%. Letra G. Putz, tá cada
vez pior.
E agora, vou dar uma de Ralph: isso não é uma questão de matemática.
Pelo menos, não o que a gente está discutindo aqui... afinal de
contas, um problema é "de matemática" quando ele é "bem-definido". E o
infeliz que escreveu esta questão fez questão (sem trocadilho) de que
fosse bem chato de ler (afinal, as contas são fáceis demais para valer
a pena cobrar de um aluno). Eu acho uma pena que se perca tanto tempo
reclamando das "não-questões", mas, para mim, a matemática começa
quando as pessoas estão de acordo com o significado do que elas estão
tratando. Muitos livros chatos usam o método
"axioma-definição-proposição-lema-teorema-corolário", e por isso mesmo
são chatos, mas pelo menos você sabe do que o autor está falando. Eu
acho que por isso quando os alunos vêem análise (ou mesmo cálculo)
pela primeira vez, que tudo, mas absolutamente tudo, tem que estar bem
definido, e eles nunca pensaram que fosse necessário, há um grande
choque. Para alguns, pode ser um alívio ("agora, pelo menos, tem
perguntas de verdade e não "pegadinhas" na prova"), para outros pode
ser muito difícil de pensar o tempo todo se tudo está bem claro e
explicitado. Mas acho que as escolas deveriam separar a parte
"interpretação de texto" da matemática, para o bem de ambas
disciplinas. Porque, por mais que eu ache importantíssimo se ter uma
conexão da realidade com a matemática, isso é mais uma questão de
"estar de acordo" (com a interpretação) do que um problema de
matemática. Por exemplo, eu posso pensar que um carro é um ponto
material, e fazer um monte de contas com isso. Você pode achar que eu
sou maluco se eu quiser aplicar isso para estacionar um carro na
garagem (e quando você disser isso, eu vou responder: "tem razão!"),
mas se você fizer a mesma crítica para calcular a velocidade média na
Fórmula 1, eu vou explicar que isso não faz diferença nenhuma na
fórmula distância percorrida/tempo ! E a grande diferença
(epistemológica) da interpretação e da matemática é que a matemática
"não se discute", e por isso "tem uma resposta só", mas a
interpretação é iterativa: discutindo, chega-se a um ponto de comum
acordo. Ou, pelo menos, sabemos até que ponto concordamos, e podemos
continuar a partir daí, não faz sentido eu começar uma demonstração
sem que você concorde com as premissas, da mesma forma que não faz
sentido (matemático) responder um problema mal definido.
> Grato pela ajuda.
>
> Marcos.
Abraços,
--
Bernardo Freitas Paulo da Costa
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http://www.mat.puc-rio.br/~obmlistas/obm-l.html
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