E-mail original: ― João Carlos Alves Barata (1DEZ1999) ― Sobre a Importância de 
Demonstrações

 

O texto abaixo foi extraído de “O Último Teorema de Fermat”, de Simon Singh. 
Ed. Record (1997).

 

1a. Conjectura Falsa:

Há uma sequência em particular de números primos que nos mostra como a 
extrapolação é uma muleta perigosa de se apoiar. No século XVII, os matemáticos 
mostraram que os seguintes números são todos primos:

 

31, 331, 3.331, 33.331, 333.331, 3.333.331 e 33.333.331.

 

Os elementos seguintes da sequência se tornam cada vez maiores e o trabalho de 
verificar se eles também são primos teria exigido um esforço considerável. 
Naquela época, os matemáticos ficaram tentados a extrapolar a partir deste 
padrão e presumir que todos os números com a forma sugerida pela lista acima 
são primos. Contudo, o número seguinte 333.333.331 revelou não ser primo:

 

333.333.331 = 17 x 19.607.843

 

2a. Conjectura Falsa: 

Outro bom exemplo que ilustra por que matemáticos se recusam a ser convencidos 
por alguns exemplos ou pela evidência de computadores é o caso da conjectura de 
Euler. Euler (o Euler!!!) afirmou que não há soluções entre os inteiros para 
uma equação não muito diferente da de Fermat:

 

x^4 + y^4 + z^4 = w^4

 

Durante 200 anos (200 anos!), ninguém pôde provar a conjectura de Euler mas, 
por outro lado, ninguém podia negá-la encontrando um contraexemplo. Primeiro, 
cálculos manuais e, depois, anos de computação eletrônica não conseguiram 
encontrar uma solução. A ausência de um exemplo negativo era apontada como uma 
forte evidência a favor da conjectura. Então, em 1988, Naom Elkies, da 
Universidade de Harvard, descobriu a seguinte solução: 

 

(2.682.440)^4 + (15.365.639)^4 + (18.796.760)^4 = (20.615.673)^4

Apesar de todas as evidências, a conjectura de Euler revelou-se falsa. De fato, 
Elkies provou que existem infinitas soluções para a equação. A moral da 
história é que não se pode usar a evidência dos primeiros milhões para provar 
uma conjectura referente a todos os números.

 

3a. Conjectura Falsa:

Mas a natureza enganadora da conjectura de Euler não é nada comparada com a 
chamada “conjectura do número superestimado de primos”. Examinando-se números 
cada vez maiores, torna-se claro que os números primos ficam cada vez mais 
difíceis de ser achados. Por exemplo, entre 0 e 100 existem 25 números primos, 
mas entre 10.000.000 e 10.000.100 existem apenas 2 números primos. Em 1791, 
quando tinha apenas quatorze anos de idade, Carl Friedrich Gauss previu, de 
modo aproximado, a frequência com que os números primos diminuiriam (*). A 
fórmula sugerida por Gauss, de fato, aproxima bem o número de primos, mas 
parecia superestimar levemente a verdadeira distribuição dos primos. 
Procurando-se todos os primos até um milhão, um bilhão ou um trilhão sempre 
mostrava-se que a fórmula de Gauss era levemente generosa e os matemáticos 
foram tentados a acreditar que isto aconteceria para todos os números até o 
infinito. Daí nasceu a “conjectura do número superestimado de primos”.

 

Então, em 1914, J. E. Littlewood, colaborador de G. H. Hardy, em Cambridge, 
mostrou que para um N suficientemente grande a fórmula de Gauss iria subestimar 
o número de primos. Em 1955, S. Skewes mostrou que isso aconteceria pouco antes 
de se chegar ao número:

 

10^10^10^34 = 10^10^10.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 

 

Um número além da imaginação e sem qualquer aplicação prática (**). 

 

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Footnotes:

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(*) ― O chamado Teorema dos Números Primos, sugerido por Gauss e demonstrado 
por Hadamard e de la Vallee Poussin, no fim do século XIX, afirma 
essencialmente o seguinte:

 

Seja PI(N) o número de primos entre 1 e N. Então, quando N é grande, PI(N) é 
aproximadamente dado por N/ln(N). 

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(**) ― Para comparação, o número de partículas no universo é da ordem de 10^87, 
“apenas”.


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Esta mensagem foi verificada pelo sistema de antiv�rus e
 acredita-se estar livre de perigo.

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